quarta-feira, agosto 22, 2012

Na estrada

Não consigo dormir em ônibus.

E era uma daquelas viagens longas, de oito horas de duração. Durante o dia, levo livros e vou lendo.

Mas à noite, meus companheiros ultimamente tem sido os podcasts. 

Era madrugada, o ônibus seguia o embalo silencioso, as pessoas dormindo na escuridão à minha volta, e eu ouvindo a galera do Jovem Nerd falando sobre a sonda Curiosity em Marte. Sobre a vastidão do Universo, a escuridão entre as estrelas...

Daí o Guilherme Briggs fez uma leitura do texto "Pálido Ponto Azul" do Carl Sagan. E o texto é esse aqui:


E eu no embalo do ônibus, nas sombras, no silêncio, vendo essas estrelas pela janela, ouvindo essas ideias, pensando na vida. Na minha preciosa vidinha.

As garotas que gostei e que nunca mais vi, as garotas que gostei e vi novamente pra descobrir que já não gostava mais, o medo de ficar sem dinheiro, o medo de não ter emprego, a vontade de fazer alguma coisa em vida que fosse digna de atenção, a vaidade, as lembranças de infância, os meus pais, as crianças que correm lá em casa hoje, as risadas, as tristezas.

Tudo é uma questão de escala e todas essas coisinhas tão pequenas, completamente perdidas no Pálido Ponto Azul, fazem um universo, meu universo, um universinho de nada, que um dia vai se perder para sempre como todos os outros universinhos por aí.

Sei lá o que passa pela cabeça da gente nessas horas de escuridão e silêncio. Uma sensação de estar vivo e saber que não se estará aqui para sempre. Um misto de tristeza, medo e alegria e uma vontade danada de aproveitar cada segundo antes que tudo se acabe.

E, sob as estrelas, o ônibus continuou pela madrugada.

domingo, agosto 12, 2012

Um pouco sobre amor







Revi ontem Peixe Grande e suas histórias maravilhosas (Big Fish) de Tim Burton.

Fiquei surpreso porque o filme é bem melhor do que eu lembrava (e melhor do que as coisas que vi o Tim Burton fazendo ultimamente).

E eu me dei conta também de que é Dia dos Pais. Peixe Grande é um filme bem bacana pra assistir no Dia dos Pais. Porque, se prestar atenção, você vai perceber que existem amores grandes demais pra serem verbalizados, para serem contidos numa data festiva ou pra serem mensurados.

A vida passa inteirinha e pode ser que você nunca consiga verbalizar pra certas pessoas o quanto elas são fundamentais, sejam nossos pais, filhos ou nossos companheiros e companheiras mais queridos. Mas, muito provavelmente você não precisa verbalizar. As pessoas sabem. Elas sempre sabem.

O amor talvez seja muito parecido com o que o Peixe Grande faz: um olhar que deixa o mundo mais bonito com um toque de fantasia que poucos podem (ou se permitem) enxergar.

O amor pode estar só dentro das nossas cabeças, só dentro dos nossos corações, só em nossos olhos, mas é o suficiente pra tornar a vida extraordinária.

O amor pode ser menos percebido sob a severidade de uma "racional" e obstinada falta de fé, mas continua lá.

O amor é coisa que nos acompanha por uma vida.

Quando eu era pequeno meu pai me acordava cedo pra ir pra escola. Ele me acordava com um carinho, passava sua mão por minha cabeça, sussurrava "vamos acordar" com suavidade. O tipo de detalhe que fica pra trás, mas a gente nunca esquece.

Feliz dia dos pais.


quarta-feira, agosto 01, 2012

Sobre máscaras e Batman



As pessoas não são passivas. Não leem apenas. Não assistem apenas. Elas se apropriam. Elas veem uma história e de repente se enxergam nela e a tomam para si. Vestem a história como se fosse uma máscara. Ou a descartam e jogam fora...

Máscaras são um tema recorrente no mundo dos super-heróis, mas não consigo pensar em algum filme que tenha abordado a questão da máscara de forma tão bacana quanto essa trilogia do Batman.

Desde o primeiro filme, quando se fala em "se tornar uma lenda", em "criar uma persona", fica muito claro que colocar uma máscara significa tornar-se algo que você não é. Algo possivelmente maior do que você, porque, por causa da máscara, cria-se a ideia de que qualquer um poderia estar ali, qualquer um poderia fazer a proeza.

Isso pode instilar o terror, mas também pode servir para inspirar as pessoas. Essa é a ideia por trás do Batman de Christopher Nolan: inspirar pessoas, tirá-las da apatia.

Assim, o primeiro filme é criação da máscara. No segundo, a máscara acaba realmente inspirando outras pessoas. Mas cada um apropria-se da máscara como quer e os ideais originais se perdem. São os "batmen" de calças de hóquei, é o Coringa e sua maquiagem. Batman inspira e acaba servindo de gatilho pra uma série de usos equivocados da máscara. E a boa intenção acaba causando mais mal do que bem.

A verdade é que a máscara, o símbolo, tem poder, mas não é a melhor solução para os problemas do Mundo. Ou para os próprios problemas de cada um.

A máscara, para Bruce Wayne, é também um modo de lidar com sua tragédia pessoal, com a perda de seus pais. Não é só a intenção de inspirar e ajudar que motivam Bruce a colocar a fantasia, mas é também um desejo desesperado de tentar corrigir o passado, a sensação equivocada de que as coisas ruins que aconteceram foram culpa sua e com as atitudes de hoje tentar expiar os sofrimentos de ontem.

O que, obviamente, não funciona.

Batman é uma máscara mas também é uma fantasia infantil triste,  a tentativa de tentar mudar algo que não tem volta. Os pais morreram. A namorada querida morreu. E, se ela não tivesse morrido, não teria ficado com Bruce, mas com o promotor queridinho da cidade.

E o terceiro filme é sobre isso. Sobre crescer, sobre seguir em frente. E pra crescer não é necessário apenas deixar a fantasia de lado, mas aceitar que certos infortúnios, por piores que sejam, não tem solução. Mas esses infortúnios não precisam determinar as nossas ações presentes e futuras, eles não precisam determinar quem somos.

Não estamos sozinhos e temos responsabilidades para com nossos próximos. Sejam eles nossos vizinhos de cidade ou as pessoas que realmente nos amam. E somos responsáveis principalmente por nossas próprias vidas. Que possamos conceder a nós mesmos a mesma importância que damos aos que estão ao nosso redor. Que as máscaras fiquem para trás.

Cada um toma as histórias para si como quer e as veste como bem entende.

Esse terceiro e último filme da série tem diversas leituras possíveis, mas foi assim que eu decidi vesti-lo: que as coisas ruins fiquem pra trás, que a responsabilidade e a culpa não me esmaguem e que eu possa conceder a mim mesmo um pouco da compreensão, confiança e carinho que dou às pessoas mais importantes da minha vida.

Batman rises.

:-)