segunda-feira, dezembro 31, 2012

Adeus, ano velho

Chega o fim de ano e acho saudável olhar pra trás e ver por onde se andou.

Não aquelas retrospectivas televisivas com um amontoado de fatos, mas uma revisão pessoal e silenciosa, do tipo que se faz na última manhã do ano.

Para mim, 2012 não foi um ano especialmente bom, mas ficou bem longe de ser um ano ruim.

Os dias passaram, os trabalhos cotidianos, um e outro modesto projeto pessoal realizado, vida emocional tranquila, conclusão de relacionamentos, algumas viagens. Tudo bem calmo, devagar.

Algo como uma longa pausa, para pensar para onde vou a partir daqui. 

Nada foi planejado. O meu 2012 não começou precisamente em 1 de janeiro. Pensando bem, talvez ele tenha começado mais tarde, lá por fevereiro, março. E realmente terminou lá pelo final de novembro. As coisas simplesmente aconteceram e depois de meses de tranquilidade, de estagnação, o vento começou a soprar.

Teve alguns episódios simples que desencadearam tudo: uma viagem a Buenos Aires, a apresentação de trabalhos de alunos da pós-graduação de quadrinhos, a leitura de um texto, a leitura de um livro. As coisas foram se somando e de repente eu estava em movimento de novo. Nem percebi.

Assim, é estranho, mas meu 2013 começou mesmo há pouco mais de um mês atrás. 

Nós planejamos, fazemos listas, desejamos mudanças, mas sabemos que a mágica não acontece na troca de calendário, mas no fundo da cabeça de cada um, de uma maneira mais incompressível e em um ritmo muito pessoal.

Eu desejo um feliz 2013, pleno em todos os sentidos, cheio de intensidade, cor e, principalmente, movimento, para todas e todos nós.

E... obrigado por tudo, 2012.

Bora lá, fazer as coisas acontecerem.

terça-feira, dezembro 25, 2012

Feliz Natal

"Algumas pessoas nascem Papai Noel,
algumas trabalham toda a vida para
se tornarem Papai Noel
e outras têm o Papai Noel 
lançado sobre elas".
Fracasso de Público vol 2 - Desencontro de Titãs


Essa série Fracasso de Público conta a história de um grupo de amigos e seus encontros e desencontros. É gente comum que reclama do trabalho, sente solidão, sonha com um futuro melhor, essas coisas. Particularmente, eu não gosto dos desenhos, mas os diálogos e a história escrita por Alex Robinson são excelentes. Vale a pena conhecer.

Aliás, a série apresenta uma das melhores histórias em quadrinhos sobre o Natal que já vi.

Porque o Natal dá muito pano pra manga, né? Dá pra falar mil coisas sobre ele: o consumismo, as obrigações familiares, a alegria das crianças, o caos, felicidade, decepção e uma pontada de tristeza. Vai um monte de coisas na receita do Natal.

E essa história, O Natal de Jane & Stephen, é deliciosamente bem escrita e um bocado comovente.

Stephen tem um "relacionamento sério" com Jane, e como ele mesmo narra: "Uma das coisas de um relacionamento longo é o que fazer com o Natal e o Reveillon. Visitar os seus pais? Visitar os pais dela? Convidar todos pra sua casa?"

Stephen vai contando sobre o Natal em que visita a família de sua namorada. Comenta de maneira muito bacana sobre a família, as crianças e a crença no Papai Noel. "Por que mentir para uma criança?" ele se pergunta. Acaba que o sogro lhe passa o manto de Papai Noel. Diz que está velho demais e não vai poder vestir a fantasia. E o relutante Stephen põe a roupa vermelha e distribui os presentes.

Trata-se de uma história muito simples, mas as considerações que Stephen faz, os pequenos detalhes, como a sua cunhada que está iniciando um processo de divórcio e está escondendo isso da filha pequena, fazem da trama algo único e sincero.

Lembro que li essa história uns dois anos atrás e ela me marcou muito. E estávamos longe do Natal.

Aconteceu que logo depois eu fui Papai Noel pras minhas sobrinhas. Cheguei pra ceia, minha irmã me puxou pra um canto e me comunicou que eu me vestiria de Bom Velhinho e distribuiria os presentes. Não precisou me convencer, eu sou o tipo que adora fazer esse tipo de coisa.

E foi muito bacana. A carinha das crianças. Os olhos delas.

E esse ano repeti a dose. Lá fui eu de novo, suando dentro da fantasia, fazendo "hohoho" e distribuindo presentes. É muito legal.

Mas também tem outras coisas. Tem algo mais que  Natal de Jane & Stephen apresentam e que eu comecei a sentir. Algo sobre gerações, sobre sentir o tempo passar. Olhar pras crianças, lembrar dos bons natais que passei, quando eu mesmo era criança. Perceber que vamos mudando, vamos nos transformando, e a família vai mudando.

Não tem mais ceia de Natal gostosa na casa da Vó. Não tem mais tanto contato com os primos, que viajaram pra longe e constituíram família. Namorada que estava comigo num Natal, agora não está mais.

A pessoa que eu era em outros Natais, já não sou mais.

Não é difícil de explicar. Eu simplesmente me dei conta de que faço parte de um círculo maior. Que o tempo vai passando e eu e minha família vamos mudando. As crianças brincam com a bateria que dei e amanhã estarão se formando, namorando, preparando o Natal para seus próprios filhos e filhas. Sinto uma espécie de vertigem ao pensar nisso, mas é uma sensação boa.

Acho curioso quando as pessoas reclamam do Natal, da obrigação em se reunir com família e tal. Pra mim, essa é a data em que eu melhor consigo enxergar as mudanças. O tempo passando. Os fantasmas de Dickens.

Hoje eu estou aqui e estou feliz por isso.

Feliz Natal pra você.

domingo, dezembro 16, 2012

Um guia turístico para o país dos Tipos


Lá pelo final da década de 1990, não tinha muito material sobre tipografia disponível em português. Nessa época, eu era aluno do curso de Design Gráfico da UFPR (que era chamado Desenho Industrial – Habilitação em Programação Visual).

O fato é que a gente sabia que tipografia era um lance importante. Vivíamos uma década em que as tecnologias digitais transformavam para sempre os processos de produção. David Carson barbarizava na desconstrução e promovia o que alguns chamavam de “câmara dos horrores da tipografia”. A gente não entendia direito o que estava acontecendo, acho que ninguém entendia, mas sabíamos que era algo bem significativo.

Tínhamos uma disciplina de tipografia, mas eu sentia que faltava uma base bibliográfica, um texto que me servisse de apoio para compreender melhor o lance das letrinhas. Um mapa ou um guia turístico para explicar os caminhos do país dos tipos.

Eu me formei no final de 2001 e quando aqueles aviões acertaram as Torres Gêmeas estava lutando pra terminar as ilustrações pro meu TCC. Naquela correria, nem percebi que o professor Fontoura tinha lançado um livro sobre tipografia.

Uns dois anos depois eu comecei a lecionar aulas para o curso de Design Gráfico do Cefet-PR, que mais tarde viraria UTFPR. Tipografia fazia parte do conteúdo e nas pesquisas para elaborar as aulas acabei ouvindo falar do Vade-mécum de Tipografia. Infelizmente, o livro tinha esgotado e eu não consegui cópias nem com o próprio Fontoura.

Esse livro acabou ganhando status de lenda urbana para mim. Sempre ouvia falar dele, sempre tinha um amigo que conhecia alguém que tinha o tal livro, mas nunca consegui por os olhos em um exemplar. 

Os anos foram passando e acabaram sendo publicados no Brasil diversos livros sobre tipografia. Trabalhos muito bons feitos por autores nacionais e traduções de obras imprescindíveis, como o Elementos do Estilo Tipográfico, de Robert Bringhurst. Além da própria internet, que proporcionava acesso à informação através de sites especializados e listas de discussão.

Enfim, eu nem mais lecionava tipografia, mas mantinha um interesse saudável pelo assunto, quando soube que esse ano o Vade-mécum de Tipografia estava de volta em uma nova edição. Finalmente poderia conferir o tal livro.



A primeira e triste constatação é que se ele tivesse caído em minhas mãos anos atrás, teria sido muito útil.

Escrita por um professor (e atualizado por outro, o Naotake Fukushima, nessa segunda edição), o forte da obra está justamente na sua estrutura didática. Ela se divide em 15 capítulos, cada um tratando de um tema da tipografia de maneira concisa.

Era o tipo de “guia turístico” que eu queria ter quando aluno e um ótimo apoio para elaborar as aulas quando professor.

O texto leve e objetivo consegue concentrar uma imensa quantidade de informações nas 92 páginas do livro. Vale destacar que por seu formato e papel, a edição parece até ter menos páginas. É realmente o tal “vade-mécum”: o livro “vai comigo”, leve e prático para ser levado a qualquer parte.

Ao lê-lo, tive diversos momentos de nostalgia. Dos dias de aluno, dos dias de professor e também daqueles anos entre 1990 e 2000. A música do Nirvana deu o tom à década que mostrou a consolidação da internet, a velocidade e as transformações que as ferramentas digitais proporcionaram à prática, ensino e pensar do design gráfico.

David Carson, Neville Brody, Scott Makela, Barry Deck e tantas outras pessoas. Tipógrafos e suas fontes (Dead History, Template Gothic e outras), que ajudaram a construir a face de um década. Citações, trabalhos, amostras das fontes e um pouquinho de suas histórias espalham-se pelas páginas do Vade-mécum. Isso constrói o aspecto vivo, orgânico e empolgante do livro.

Mas há também o lado racional, métrico, preciso, apresentado nos capítulos que falam sobre as famosas unidades de medidas paicas e Cíceros com seus pontos e toda a complexa nomenclatura que define as fontes em suas hastes, olhos, ascendentes, ganchos e travas.

Complexa é a diversidade das práticas e entendimentos da tipografia, que compreendem desde o desenho das fontes à composição de uma página, à escolha e aplicação do tipo mais adequado ou mais expressivo ao trabalho que se propõe a fazer.

De fato, a tipografia há tempos é assunto que não interessa mais apenas aos designers. Difundida por toda a parte, ela é de interesse para qualquer um que trabalhe com comunicação e queira compreender melhor os detalhes desta disciplina.

Atualmente há diversos livros sobre o assunto, mas o Vade-mécum de Tipografia é um ótimo primeiro passo, uma leitura rápida que será ainda revisitada para consultas pontuais. Um bom guia para começar a caminhar por esse fascinante país de caracteres e símbolos. 

quarta-feira, dezembro 12, 2012

Deixa pra lá


Existe sabedoria nas palavras do doutor Jones Sênior.
A gente precisa saber quando "deixar pra lá".