domingo, junho 30, 2013

Chicken Little e o céu está caindo...


Tem mil leituras que se pode fazer em cima desse desenho.

Pra mim, ele mostra um galinheiro (uma sociedade) controlada pelo Doutor Galo. Ele é burguês e patrão, nas palavras do narrador.

A sociedade do galinheiro é composta por galinhas fofoqueiras e fúteis, perus intelectuais com pretensão de mudar o mundo, galera da dança, patos de botequim: enfim, uma turma bem alimentada e completamente feliz.

E o pintinho ingênuo, o Chicken Little, meio miolo-mole, mas um "rapaz direito".

A sociedade do galinheiro é uma sociedade completamente feliz, sem desigualdades, sem questões de classe.

Daí aparece a Raposa. Maldosa, inteligente, calculista. E vermelha. Ela quer todas as aves da sociedade do galinheiro para se alimentar.

A Raposa implanta o caos, vale-se da "psicologia" para desestabilizar a comunidade e transformar o pintinho em um líder manipulado.

O desenho foi feito pela Disney em 1943, durante a II Grande Guerra Mundial. O contexto era de manter a nação norte-americana unida em torno do mesmo discurso político diante de técnicas de guerra "psicológica": propaganda, difusão de informações contrárias, etc.

Hoje, diante de manifestações e discussões políticas, pode-se usar esse desenho para ilustrar diversas questões e pontos de vista.

Mas eu só quero destacar uma coisa: a sociedade do galinheiro é perfeita e igualitária. Não há um equivalente dentro dela para os miseráveis, os excluídos, a classe operária. A sociedade do galinheiro  é um retrato utópico de uma sociedade capitalista, com todos os seus membros muito bem sucedidos. É um grande aglomerado de coxinhas (literalmente).

Esse é o problema dessa fábula: a parte de baixo da pirâmide social não encontra representação nenhuma.

A moral da história é que não se deve acreditar em tudo o que se escuta por aí, não se deve seguir cegamente nenhum "salvador da pátria". É preciso duvidar sempre.

A moral da história também diz que não se deve alterar o status quo, que não se deve questionar as autoridades tradicionais, que não se deve desobedecer, sob o risco de sofrer a mais terrível punição.

Enfim, na minha opinião, a grande moral da história é que dificilmente entendemos o que está acontecendo de verdade. Na realidade, não há uma Raposa vermelha orquestrando o caos, mas todo um conjunto de interesses diversos, um complexo embate de anseios e ideologias completamente diversas.

Nada é tão simples quanto uma fábula pretende nos mostrar.

Mas é preciso duvidar sempre. Principalmente das vozes tradicionais.

terça-feira, junho 25, 2013

Praticamente inofensivo

No que você acredita? Como você pensa?

Você acha que todos nós devemos ter acesso a bens básicos ou que só quem trabalha duro merece ser recompensado?

As respostas podem ser "sim", "não" e um honesto "mais ou menos...".

É preciso pensar bem antes de responder.

Toda nossa sociedade é construída firmemente em torno da ideia da meritocracia. 

Se você trabalhar muito, se você se esforçar, você terá resultados. Assim, se você trabalhar, você vai merecer ter seu carro, sua casa, uma casa na praia, viagem pra Europa. Tudo isso fruto do seu trabalho. Seu mérito.

Mas meritocracia não é só isso. Ela parte dessa ideia, mas não é só isso.

A meritocracia também considera que todos nós temos as mesmas chances de trabalhar e adquirir bens. As mesmas chances. Somos todos iguais. E que se você trabalhar, trabalhar, trabalhar e não conseguir comprar seu carro ou sua casa, a culpa é sua, porque você não está trabalhando direito. Ou da carga tributária, que onera o pequeno investidor.

Está me acompanhando?

A ideia de meritocracia parte do princípio de que todos temos as mesmas chances de "nos dar bem na vida e prosperar" e incentiva o empreendedorismo e competição.

Entretanto, as chances não são iguais.

Se pegarmos, por exemplo, o Joãozinho que está começando uma empresa de confecção com dois funcionários e comparamos com um empresário tipo o Eike Batista, que abre uma empresa de confecção, a gente vai perceber que as chances não são as mesmas. É a diferença que o capital, a quantidade de bens, faz na competição.

E daí, passa um tempo, o Eike vai muito bem e o Joãozinho quebra.

Porque isso aconteceu? Se as condições de trabalho para os dois são as mesmas? A resposta é óbvia: as chances não são as mesmas. Mas ninguém questiona isso.

A explicação de Joãozinho não ir pra frente é porque ele é incompetente ou por que os impostos são terríveis. Ou as duas coisas. Se Joãozinho for negro ou índio ou sem terra ou mulher (Mariazinha?), a coisa fica bem mais complicada pro lado dele (dela), acredite.

Mas, enfim, ninguém questiona as regras do jogo. Todos tomam elas como "naturais". É assim mesmo. É a "livre concorrência" e o mais forte devora o mais fraco. Outra máxima da meritocracia. Quem tiver competência (e for homem, branco, classe média), estabelece-se (ou não).

Fomenta-se a ideia da competição e de que os melhores prevalecerão. Dizem que é o sistema mais justo do mundo.

E os outros? O que acontece com eles?

Nunca entendi essa lógica de competição, sabe. Pra começar, as chances não são as mesmas pra todo mundo. Não é uma competição "justa". Mas não para por aí.

Pra mim, a melhor parte da meritocracia é essa: as pessoas não valorizam apenas os "bem-sucedidos", mas valorizam principalmente o "cidadão trabalhador", isto é, aquele que cumpre seu papel e aceita a ordem vigente sem questioná-la. É o bom moço, o rapaz trabalhador, que luta contra as dificuldades movido pela esperança que um dia vai crescer na vida.

Daí vem uma frase que eu acho ótima, dita pelo chefe ao seu novo colaborador: "a gente crescendo, você cresce junto". E é verdade. Mas só até certo ponto. A empresa sempre vai lucrar muito mais do que você em cima do SEU trabalho. Essa é outra coisa aceita como "natural", "é assim mesmo", "dê graças que você tem um emprego".

A verdade é que o trabalho é fundamental e através dele as pessoas se realizam socialmente. Mas, dentro da meritocracia, ele pode ser alienado do trabalhador e da trabalhadora. De repente, não somos mais donos dos frutos de nosso trabalho. Não somos trabalhadores, mas peças dentro de um sistema. Podemos ser substituídos a qualquer momento, por razões de capricho de mercado ou dos patrões.

Mas é assim mesmo.

Pessoas socadas dentro de ônibus, mergulhadas em trabalhos que não gostam, com poucas perspectivas de sair, de mudar. Pessoas oprimidas por um cotidiano e por um sistema que lhes diz que a culpa de toda essa infelicidade é delas mesmas, mas que "se você trabalhar bastante (pra mim) você vai prosperar". Se não prosperar, a culpa é sua, só sua.

Se você não tem casa própria, a culpa é sua. Se você não tem uma terra própria, a culpa é sua. Se você não pode pagar por atendimento médico, a culpa é sua. Se você não tem o que comer, a culpa é sua. Porque você provavelmente é um vagabundo. Ou vagabunda.

Meritocracia.

Mas é assim mesmo, né?

Enfim.

Seja um bom moço.

Seja uma boa moça.

Proteste contra a corrupção. Sem violência. Sem baderna. Volte pra casa.

E amanhã esteja de volta que o batente começa às oito e alguém tem que trabalhar nesse país.

sexta-feira, junho 21, 2013

Direita e esquerda

Estou ouvindo muita gente dizer que não é de direita nem de esquerda.

Daí, tem ess o vídeo extremamente didático do PC Siqueira. Repare na definição de esquerda e direita logo no começo.



O vídeo tem uma perspectiva de esquerda sim, isso é óbvio. Mas as definições de esquerda e direita são muito apuradas.

Não vá pras ruas dizendo que você não se liga nessas coisas de direita e esquerda. Você não precisa ser radical, mas pense nas questões do vídeo acima: no que você acredita?

Você acha que todos nós deveríamos ter serviços públicos de qualidade?

Todas as faixas da população merecem os mesmos direitos e privilégios?

Pense.

Vá pras ruas consciente.

V de "Você sabe o que essa máscara significa"?



Lógico que você sabe.

É a máscara do V. O personagem misterioso e carismático daquele filme com a Natalie Portman, com a voz maneira do Hugo Weaving. Você assistiu né?

Lógico que assistiu. Daí você sabe que o V é um sujeito que começa o filme salvando a Natalie Portman dos policiais malvados de um governo totalitário, em um futuro não muito distante. Lembra disso? E daí a Natalie fica fascinada com essa figura, o V, que jamais tira sua máscara, jamais revela o seu nome, e faz discursos para a população e ataca diretamente o regime opressor e defende a LIBERDADE.

E, no final do filme, a população toma as ruas, de máscara, e todos somos V e o regime é derrubado e V morre num confronto final com os caras do mal. Massa véio!

Mas você sabia que V de Vingança é, antes de tudo, uma história em quadrinhos escrita por Alan Moore na década de 1980? Ah, claro que sabia!

E você leu os quadrinhos? E já parou pra pensar nas diferenças entre os quadrinhos e o filme? E nos pontos em comum?

O V dos quadrinhos não é bonzinho que nem o do filme. Ele não faz panquequinhas vestindo avental nem chora apaixonado.

Nos quadrinhos o V é um monstro.

Irrefreável, inescrupuloso, assustador.

No cinema e nos quadrinhos, V surge em um campo de concentração, onde o governo totalitarista prende todas as minorias, todos os esquerdistas, gays, negros, todos os "desviantes". Nesse campo de concentração médicos realizam diversas experiências com essas pessoas. Todas morrem, menos uma. O ou a sobrevivente é paciente da cela cinco. Cinco em algarismos romanos é V.

(Sim, nos quadrinhos é possível que V seja uma mulher).

Mais explicitamente que no filme, o que motiva o V dos quadrinhos é seu plano de vingança. Ele tem uma lista de pessoas que quer matar. E mata. Mas, mais do que isso, ele quer matar o regime político que possibilitou toda essa violência. Ele quer por abaixo toda a estrutura totalitária. Ele quer acabar com todos os frutos e vestígios dessa estrutura, incluindo a si mesmo.

Essa é uma leitura que frequentemente fica de lado. O que cativa as pessoas em V de Vingança, seja no filme ou nos quadrinhos, é a ideia romântica de lutar pela liberdade. No filme, ele é um tolinho que chora apaixonado pela personagem da Natalie Portman. No quadrinho, ele a tortura deliberadamente para forjá-la no tipo de soldado que precisa.

V não quer libertar o povo. Ele quer se vingar do governo que violentou a ele e a seu mundo. O governo que sufocou e destruiu todo um mundo de sensibilidade e diversidade. Ele quer aniquilar completamente esse governo e não vai medir esforços pra isso. É o que fica escancarado nos quadrinhos e apenas insinuado no filme.

No final dos quadrinhos, não há uma marcha bonita e harmoniosa de pessoas unidas como no filme. O final dos quadrinhos é o caos, é uma sociedade posta abaixo. Saques, gritos, violência. Não interessa como essa sociedade vai se reerguer. A história termina ali, porque V conseguiu sua vingança. O povo não era importante. A vingança era a causa principal.

A máscara de V foi criada pelo desenhista da série, David Lloyd, procurando representar o rosto de Guy Fawkes, que participou da "Conspiração da Pólvora" em 1605 e tentou explodir o parlamento inglês, buscando assassinar todos os membros e o rei.

A violência e a necessidade de destruir o estado marcam os perfis de V e de Guy Fawkes.

Daí você põe sua máscara de V de Vingança e vai pros protestos gritar "sem violência". Daí você reclama da violência da polícia opressora, mas espanca as pessoas sem máscara, que erguem bandeiras vermelhas, "porque todos os partidos são iguais e não queremos eles". Você não acha isso incoerente?

V sabia exatamente onde queria chegar.

E você, sabe?

Ah, você quer mudanças?

Quer mudar exatamente o quê? Quer mudar pra onde?

Quer por tudo abaixo e começar de novo? Tem noção do que isso significa? Mesmo?

Por uma máscara e manter uma "identidade secreta" não é a melhor solução pra todos os casos. Você precisa saber o que está fazendo. Você precisa entender bem o quadro da política e da sociedade na qual está inserido. Se for fazer alguma coisa, entenda exatamente o que está fazendo ou pelo menos tente.

Saiba que você não está sozinho. Saiba que há pessoas que compartilham de sua opinião e outras que não. E que espancar as pessoas que não compartilham de sua opinião pode ser legal em gibis e filmes, mas não é aceitável na vida real.

Entenda o que te incomoda. Estude, compreenda. Dialogue. Pense. Articule-se.

quinta-feira, junho 20, 2013

Pense

O que eu acho que vai acontecer?

Que as pessoas vão começar a perceber que não basta só ir pra rua. Tem que ter uma reivindicação, uma ideia na cabeça. Tem que deixar claro a causa que move as pessoas.

Tem que se informar, tem que saber.

Não adianta ir pra rua gritar contra o Feliciano ao lado de gente que pede intervenção militar pra acabar com a corrupção. São coisas diferentes.

Não adianta ir pra rua pedir direito de expressão e massacrar quem carrega uma bandeira ou uma camisa vermelha. Isso é estupidez.

Não adianta ir pra rua e continuar acreditando que se está acima da política e dos partidos políticos, que se está acima de ideologias, que se é uma pessoa "diferenciada" e que vai causar mudanças com cartazes escritos "chega de corrupção!". Isso é ingenuidade.

Saiba que com o direito de expressão, vem também responsabilidade social. O que você reivindica, se for efetivado, pode afetar a vida de muitas outras pessoas além de você. Tenha ciência disso. Pense nas outras pessoas e não só em você.

É preciso entender que não é culpa só do Governo. Existem interesses do capital privado, existem empresas que controlam o transporte "público", existem empresários que são corruptores, que ganham dinheiro com as superfaturas da Copa. Os grandes "empreendedores" também fazem parte do problema.

Não saia por aí dizendo que não existe mais esquerda e direita no Brasil. Você pode até acreditar nisso, você tem o direito de dizer isso, mas considere seriamente a possibilidade de estar errado. Informe-se.

Existe e sempre existirá tensão entre trabalhador e empresário, entre explorado e explorador.

E sempre vai existir o coxinha. Se liga. Não seja um coxinha. Pelo amor de Deus, não seja um coxinha.

Esse texto não discute com profundidade nenhuma ideia. Mas é só pra dar um toque. Só pra eu desabafar.

Entenda que as coisas são complexas e não se resolvem no grito. Respeite os outros como você quer que te respeitem.

Se vai sair na rua pra protestar contra a PEC 37, leia e entenda o que é a PEC 37.

Sou a favor de ir pra rua sim, mas se for pra ir sem saber por quê, será que adianta?

segunda-feira, junho 17, 2013

A traição das imagens


Essa foto tem história. Ou histórias.

A imagem foi capturada pelo fotógrafo Clayton de Souza em março de 2010, durante uma manifestação de professores que terminou em conflito com a polícia. A manifestação foi em São Paulo, durante o governo de José Serra.

A primeira versão dizia que o sujeito da fotografia carregando a policial ferida era um professor:
A insolvência moral da política paulista gerou esse instantâneo estupendo, repleto de um simbolismo extremamente caro à natureza humana, cheio de amor e dor. Este professor que carrega o PM ferido é um quadro da arte absurda em que se transformou um governo sustentado artificialmente pela mídia e por coronéis do capital. (Leandro Fortes, em texto publicado dia 26 de março de 2010)
Logo em seguida, a Polícia Militar desmentiu a história, dizendo que o sujeito da fotografia era um policial à paisana:
A Soldado Érika Cristina Moraes de Souza Canavezi contou que foi ferida com um golpe de madeira no rosto, quando compunha a tropa da Polícia Militar na manifestação da greve dos Professores. Machucada, Érika foi imediatamente socorrida por um policial militar à paisana. (Blog da Polícia Militar do Estado de São Paulo, em 27 de março de 2010).
Então, qual é a versão verdadeira?

O sujeito era um professor ou um policial disfarçado?

1- SE O SUJEITO ERA UM PROFESSOR: Se essa for a verdade, aconteceu que um manifestante mostrou solidariedade com a PM em dificuldade. Isso faz muito mais do que humanizar de forma indiscutível o manifestante e cobri-lo de dignidade. Muito mais que isso, transforma-o num símbolo de solidariedade fortíssimo. E, portanto, torna a legitimidade da manifestação praticamente inatacável. Considerando o que a polícia fez naquele dia 26 de março de 2010 contra os professores, essa hipótese praticamente santifica o professor.

2- SE O SUJEITO ERA UM POLICIAL INFILTRADO: Se você ler a postagem na íntegra no blog da polícia, vai ver que a PM ferida tem nome: Érika Cristina Moraes de Souza Canavezi . O policial infiltrado não tem nome. No texto da polícia militar, os professores são marginalizados e a violência dos policiais é justificada. Diante dessa hipótese eu pergunto: os professores são considerados um grupo criminoso perigoso que justifique a presença de um agente infiltrado, cujo nome não é revelado?

Se eu pudesse escolher, eu gostaria que a primeira hipótese fosse verdadeira. Ela seria um símbolo de solidariedade, uma lembrança inegável de que todos somos humanos, todos somos iguais. Que nós podemos ser bem melhores do que imaginamos, que podemos perdoar e superar as diferenças. Muito lindo isso.

Mas, infelizmente, a segunda hipótese é a verdadeira. O homem é um policial infiltrado na manifestação dos professores.

A partir da fotografia, presumindo que se tratava de um professor, o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp) tentou identificá-lo e localizá-lo, mas não conseguiu.
...o suposto professor é um policial militar do serviço reservado (ou secreto) da Polícia Militar paulista. É um P2, como são chamados. (...)
Aos poucos a verdade sobre a foto famosa da manifestação dos professores vai se revelando. Mas ainda há muitas perguntas sem respostas. Por exemplo, qual era a missão dele na assembleia dos professores? Levantar informações sobre o andamento do movimento? Fazer provocação? Ou o quê? A mando de quem? Qual a intenção? Criminalizar a Apeoesp?
(Conceição Lemes em Viomundo, 27 de março de 2010)
Boas perguntas. Pra que a presença de P2 no meio das manifestações?

Esse post se originou de uma conversa de facebook, com a Talita Rodrigues. Ela escreveu:
Bom, em toda manifestação tem P2 (infiltrados). Pra descobrir quem sao os lideres, estratégias e poder tirar fotos para identificar quem Tá envolvido. Meu namorado participava da bicicletada e tem varias historias de P2. A PM não divulga o nome pra proteger a identidade do cara, né? Se ele trabalha na inteligência como infiltrado não pode ser exposto. Embora depois dessa foto ele seja mega reconhecivel. Você acha que a policia vai admitir que infiltra policiais em movimentos como trabalho de inteligência?
Sei que é triste, mas é verdade... Vimos dois caras na quinta que desconfiamos que eles eram P2, um deles estava pondo pilha pra galera quebrar tudo...
E aqui eu termino me sentindo bobo e triste. Porque eu realmente queria acreditar que o cara da foto era um professor. Porque ia ser lindo, ia ser um símbolo de solidariedade e tal.

Mas não. A foto é um retrato de como a nossa polícia trabalha.

Se os P2 estão na multidão para incitar quebra-quebra e justificar a violência da polícia, então qual é o sentido disso tudo? A polícia serve pra que? Protege a quem?

Proteste em paz. Leve flores. Faça barulho. Faça amor.

Não deixe os mentirosos e brutos ditarem como devemos viver nossas vidas.

Cuidado com a polícia, mas não tenha medo dela.

Um dia esses soldados vão perceber que somos todos iguais e estamos do mesmo lado.



domingo, junho 16, 2013

Croquis urbanos

"Vocês tão se manifestando contra o que, moço?"

"Contra nada. A gente tá só desenhando."

Tipo assim, todo domingo de manhã essa galera se reúne pra desenhar em algum canto de Curitiba. Já faz um bom tempinho, mas hoje foi a primeira vez que fui. Umas 50 pessoas se reunindo debaixo de garoa e frio pra desenhar o prédio na esquina da Comendador Araújo com a Presidente de Taunay.




Fiquei sentado numa escada, a bunda congelando, trabalhando nesse desenho com lápis e canetinha nanquim por quase duas horas. 

E, depois de 2 meses sem rabiscar nada, olha aí...


Quero participar mais. Gostei.

Se você quiser saber dos Croquis Urbanos, olha o manifesto:

MANIFESTO URBAN SKETCHERS:
 1- Nós fazemos desenhos de locação, através da observação direta, seja em ambientes externos ou internos.
2- Nossos desenhos contam histórias do dia a dia, dos lugares em que vivemos, e para onde viajamos.
3- Nossos desenhos são um registro do tempo e do lugar.
4- Nós somos fiéis às cenas que estamos retratando.
5- Nós utilizamos qualquer tipo de midia e respeitamos nosso estilo individual.
6- Nós nos apoiamos e desenhamos juntos.
7- Nós compartilhamos nossos desenhos online.
8- Nós mostramos o mundo, um desenho de cada vez.

Pra saber mais dos Croquis em Curitiba e ver o trabalho dos amigos, visite a página do pessoal no Facebook.

Valeu, galera!

:-)

sexta-feira, junho 14, 2013

O nosso problema é...

Acompanhando tudo isso que está acontecendo em São Paulo, percebi os coxinhas.
“Coxinha”, sociologicamente falando, é um grupo social específico, que compartilha determinados valores. Dentre eles está o individualismo exacerbado, e dezenas de coisas que derivam disso: a necessidade de diferenciação em relação ao restante da sociedade, a forte priorização da segurança em sua vida cotidiana, como elemento de “não-mistura” com o restante da sociedade, aliadas com uma forte necessidade parecer engraçado ou bom moço. (Trecho de O Coxinha: uma análise sociológica. Para ler o texto na íntegra, clique aqui).

No caso, são essas pessoas que falam que as manifestações atrapalharam o trânsito, o direito de ir e vir do "cidadão de bem", que os manifestantes são todos uns "marginais" e "vagabundos" que vandalizam e picham as lojas e riscam os carros, que a polícia tá certa em descer a lenha.

"Porra, os vândalos filhos da puta passaram em volta do meu carro, me assustaram, chacoalharam o carro, arranharam a lataria! Porrada nesses vagabundos!"  (Citação literal de comentário no Facebook).

Individualismo exacerbado, forte necessidade de diferenciação...

Estou vendo tudo isso acontecendo aí em São Paulo e penso o seguinte: chacoalharam o carro, riscaram a lataria, picharam a porta da empresa: tudo isso é mau.

Levar um tiro no olho, bala de borracha nas costas, bomba de gás, daí pode.

Pichar uma parede justifica ser escorraçado feito bicho. Riscar um carro justifica tiro na cara.

Se for reclamar, reclama baixinho pra todo mundo te ignorar mais fácil, porra. E não atrapalha o andar da máquina.

Isso é truculência do Estado. É totalitarismo.

Mas não é só o Estado que é truculento. Muitos veículos da mídia (tipo a revista Veja) dão voz pra uma parcela da população que acredita nisso: a lataria do carro vale mais que a pele humana, o dever de ser subserviente aos interesses do mercado se sobrepõe aos direitos coletivos.

O direito de ir e vir não pode ser podado por uma manifestação pelo passe livre, mas pode ser LEGITIMAMENTE podado por uma concessionária de pedágio, afinal o "empreendedorismo" e o capital estão muito acima de qualquer direito humano.

E quem pensar diferente que tome porrada na cara.

E isso numa cidade com prefeitura do PT, num estado sob o governo do PSDB.

Em quem você vai votar nas próximas eleições?

Se você é coxinha e só olha pro próprio rabo, comemore. O mundo está do jeito que você gosta.

Mas se você tá muito indignado com tudo isso: bora pra Sampa levar balaço de borracha nas costas? Vamo lá?

Dá vontade. E dá medo. Porque pra participar de manifestação assim, com polícia querendo teu couro, é só pra quem tem culhão de verdade.

Isso é coisa que coxinha nunca vai entender. Porque coxinha é covarde, estúpido e só enxerga o próprio rabo.

O nosso problema não é o Estado ou a Polícia. Nosso problema são os coxinhas.

terça-feira, junho 11, 2013

O feminismo segundo Pondé

Minha parceirinha me passou, indignada, o link pra essa coluna do Pondé.

"Leia preparado para vomitar", ela disse.

Não li na hora, deixei pra ler depois.

Tipo assim, o que eu sei do Pondé: vi um depoimento dele pra série O Estranho Planeta dos Seres Audiovisuais. Ele estava sendo entrevistado, sentado numa cadeira, usava boina, óculos escuros, fumava cachimbo. Pelo menos, é o que está na minha memória. E daí ele ia falar sobre uma questão filosófica, uma abordagem sobre as naturezas da realidade, da verdade e da ficção, que era to tema do programa. Não lembro bem o que ele falou, acho que citou o mito das sombras na parede da caverna e fez algumas considerações e coisas assim.

O que mais eu sei sobre o Pondé: um colega professor que se considera reacionário ´

(sério, ele chegou pra mim e falou "podem me chamar de reacionário"; lógico que tem todo um contexto em torno, mas garanto pra você que ele não defende ideias socialistas)

um colega professor que se considera reacionário falou "tinha que trazer o Pondé pra dar uma palestra, o teatro ia lotar". Ah sim, tem também mais uns dois amigos meus, gente cabeça, leitores de filosofia, acadêmicos, que também falam "ô, o Pondé é legal!". Tipo, esses eu não sei se se consideram reacionários, mas imagino que não.

Ah, tava esquecendo das minhas amigas cult, que me falam que o Pondé as faz passar mal.

(nota: os caras que gostam do Pondé (e são "caras", "homens") falam dele sorrindo, as meninas, mulheres, falam dele com um olhar de quem acabou de ver um cachorro ser atropelado na rua)

Enfim, eu nunca tinha lido nada do Pondé. Não conheço o Pondé. Não sei qual é a dele. Daí a parceirinha me mandou o tal link.

E li.

Pra começar o título: Bonecas de quatro. Promissor, hein?

E começa dizendo que vai falar de "coisa séria:" mulher. Aliás, se corrige. Não vai falar de mulher. Vai falar de feministas e muitas dessas não são "exatamente" mulheres. Atenção para o "exatamente", por favor. Aí  Pondé pode se referir ao fato de que existem sim muitos homens, heterossexuais, que participam do movimento feminista. Mas a verdade é que não há "um" movimento feminista, mas diversos movimentos feministas. Há uma diversidade de especificidades de causas legítimas de diversas ordens sociais, sexuais e étnicas.

De fato, falar de "um" feminismo é não mostrar muito conhecimento de causa. NÃO. Peraí... Pensando em questões de discurso, falar de "um" feminismo pode ter a intenção de simplificar e abafar uma série de discursos e reivindicações legítimas.

Pondé prossegue com a bronca dizendo que é um absurdo os "fascistas do gênero" se meterem a dizer como devem ser os brinquedos das crianças. "Quando vamos deixar claro que essa coisa de dar boneca para meninos quererem ser meninas é, isso sim, abuso sexual?" ele escreve.

Bom. Então o brinquedo define o que você vai ser quando crescer? Ele te treina, te molda para o que você vai ser quando crescer. E dar bonecas pra meninas quererem ser donas-de-casa é o quê? A ideia é dar uma Barbie pra menina aprender o que é ser "mulher" antes dos cinco anos?

Tipo, sério. Você acha que as crianças ligam pra isso? Elas querem brincar. Com bonecas sim, com bonecos, bolas, ursos de pelúcia, caixas de papelão, revistas em quadrinhos. Querem brincar.

Por que não dar uma Barbie pra um menino? Porque a Barbie é um brinquedo estúpido, que não devia ser dado pra nenhum ser humano. Mas essa é a minha concepção, minha opinião. Se você quer dar uma Barbie pro seu filho, vá em frente. Se o menino quer uma Barbie, dê pra ele. Criança não vê ideologia, não vê regras sociais. Nós vemos. A paranoia é nossa.

Questionar que tipo de brinquedo vamos dar aos nossos filhos é questionar uma ordem estabelecida: homens devem ser ativos, ter atitude, dominar. Mulheres devem ser delicadas, passivas, servir.

Falando em servir, Pondé fala a seguir sobre um filme que assistiu onde um homem transava com um travesti, "o travesti de quatro, o homem por trás". Primeiro ele reclama brevemente dessa mania do cinema nacional tentar construir "consciência social (essa nova categoria da astrologia)". Diz que esse tipo de cinema "é sempre chato e ruim".

No jargão acadêmico, a gente chama isso de "cagar regra". Professor Pondé decretou que cinema com proposta de consciência social é sempre chato e ruim e que consciência social é uma nova categoria da astrologia.

Se tomarmos por base o texto do Pondé, podemos entender "consciência social" como tornar evidente as misérias e desigualdades gritantes dentro de nossa sociedade. Por exemplo, presídios, que são máquinas de fazer monstros, depósitos pra deixar marginais fermentando e satisfazer a sede de justiça do "cidadão de bem". Ter consciência dessas disparidades e realidades sujas é algo que me parece que o Pondé não leva a sério. E falar, mostrar essas disparidades é "sempre chato e ruim". Tipo Cidade de Deus  e Tropa de Elite.

Mas o ápice do texto do Pondé é a transa de quatro. Porque, segundo ele, "especialistas" em gênero fizeram um debate sobre o tal filme dos presidiários e condenaram a posição de sexo por reiterar a questão de dominação homem/mulher.

Daí o senhor Pondé começa a cagar regras sobre como o sexo deve ser. Para ele, transar de quatro é " uma das posições mais preferidas pelas meninas saudáveis". AH, GARANHÃO! Tá sabendo de tudo!

Daí ele afirma que, segundo nossas fascistas de gênero, as heterossexuais devem ficar sempre por cima para olhar nos olhos do opressor e jamais (preste atenção: eu disse jamais!), ao fazer sexo oral (melhor não fazer), "jamais engolir sêmen, que é excremento como xixi e coco".

Lembro daquele filme com o Jude Law, Alfie, o sedutor. O garanhão machista preferia ficar por baixo, porque podia "confortavelmente assistir todo o espetáculo de peitos, gestos, caras e movimentos enquanto a menina fazia todo o trabalho".

Ficar por cima, por baixo, dar tapa, levar tapa, meter o dedo no cu, levar o dedo no cu, chupar, ser chupado... sexo é uma coisa tão íntima, gostosa e diversa. Casais diferentes, sexualidades diferentes. Transar com uma pessoa é diferente de transar com outra. Cheiros, afinidades. É tão gostoso descobrir uma nova pessoa na cama. Na hora de fudê, eu prefiro deixar os teóricos e teóricas fumando cachimbo na varanda.

Finalmente, o senhor Pondé faz uma DENÚNCIA: "Quando vamos perceber o fato óbvio de que o feminismo é a nova forma de repressão social do sexo? Principalmente do sexo heterossexual feminino? Ao se meter embaixo do lençóis, essas azedas atrapalham a já difícil vida sexual cotidiana."

Bom, a minha parceirinha se pronunciou:

diga lá que eu não sabia que os critérios pra poder me considerar mulher eram tão rígidos e que a partir do texto dele eu vou ter que assumir q sou homem. Que como uma educação que contempla a diversidade - a diversidade!!!! - pode ser fascista???? Que ele não sabe nada sobre mulheres feministas... Nunca trepou com uma. Saberia que elas são donas do próprio gozo. E talvez a suspeita disso o amedronte... Ah... o que esperar de um cara que disse q o viagra fez mais pela sociedade que o Marxismo...

Eu vou copiar e colar isso no texto, tá?

Ah... N cola não... Tá feio. É só resultado da minha raiva.

Tá ótimo! Tá espontâneo!

A verdade é assim: um homem não pode falar por uma mulher. Não pode chegar e dizer do que ela gosta, o que ela pensa, como ela tem que agir. Não pode dizer que as coisas são assim mesmo, que isso é tudo natural, "agora fica de quatro que eu quero lhe usar".

É isso que esse texto do Pondé faz. Ele diz que a mulher tem que ficar de quatro. Começa já no título. Ele diz que consciência social é novo ramo da astrologia. Ele, homem, quer proteger a mulher do feminismo.

É merda demais pra quem tem um currículo Lattes tão grande.

E eu dediquei espaço demais pra um cara que não merece.

Enfim... se você quer conferir na íntegra as palavras do filósofo, ensaísta e escritor Luiz Felipe Pondé em sua coluna na célebre Folha de São Paulo, clique aqui.

E tenha um bom dia.

quarta-feira, junho 05, 2013

Bom dia. Voltei.

Hoje de manhã eu acordei.

Pra valer.

Acordei sozinho no meio da minha bagunça, da minha sujeira. Com a sensação de estar acordado mesmo, sabe? Estar desperto. Fazia tempo que eu não tinha essa sensação.

Minha vida está assim: tem muita coisa bacana. Mas também tem muita coisa de que eu não gosto.

Tem muita coisa que eu queria fazer e não posso.

E tem muita coisa que eu não queria fazer e preciso.

Daí hoje de manhã eu acordei. Acho que estar desperto tem algo a ver com um certo espírito de "foda-se". Não é um "foda-se" frustrado, cheio de raiva, agressivo. É mais do tipo "ah, foda-se". Nhé.

Assim, tipo "puxa vida, preciso escrever esse texto que eu não quero escrever". Não quero escrever, mas preciso. E tem aquele peso nos ombros: "ah, mas precisa ser um texto bem bacana, precisa ser bem legal, tem que ser nota 10". E aí entra o "foda-se". Quem disse que precisa ser nota 10? Quem disse que precisa ser perfeito?

Quem falou que tem um jeito certo de viver a vida?

Tem que fazer a porra do texto. Então vou fazê-lo. Escreverei um texto, não "Os Irmãos Karamazov". Escreverei um texto, não uma revolução conceitual que será meu legado pra humanidade. É só a bosta de um texto. Caguei pra nota 10. Qual é a nota mínima que precisa? Sete? Tá bom pra mim.

Porque o que fode com a gente não é a exigência dos outros, as obrigações externas, os compromissos que assumimos. O que sempre fode com a gente é a nossa própria necessidade de tirar 10. De sermos amados. De sermos únicos e especiais. E daí vem todo o medo de não conseguirmos isso.

O que fode tudo é a nossa própria cobrança. A nossa própria busca de um 10 idealizado e inalcançável.

Acordei essa manhã e me liguei que faz tempo que não sinto medo. Faz tempo que não me importo se uma coisa vai dar certo ou não. Porque se pra dar certo precisa ser nota 10 o tempo todo... bom, isso não me interessa.

Não me interessa ter certezas, não me interessa se você ainda vai estar comigo amanhã, não me interessa se eu vou conseguir terminar o artigo ou se eu vou conseguir terminar o meu gibi, meu tão querido gibi, a tempo pro FIQ em novembro.

Só me interessa que eu estou acordado. É um dia lindo e eu estou acordado. Tenho trabalho para fazer. E vou fazendo. E vou folgando também.

Ainda estou aqui pra você. Aproveite.

Faz tempo que me encheu o saco sentir medo das imperfeições, das sujeiras. Faz tempo que o medo sumiu.

E só me dei conta disso essa manhã.

Quando acordei.