sábado, novembro 30, 2013

Mimimi

Fico pensando nas nossas angústias, aquelas que nos dão vontade de gritar, aquelas situações inescapáveis que parecem não terminar nunca.
A dificuldade muitas vezes não está na situação em si, mas em nós mesmos, que não temos coragem de assumir nossas escolhas ou não temos condições de assumir nossas escolhas.
Assim, não temos que vencer apenas as tais situações, mas temos que vencer a nós mesmos, temos que nos dobrar, nos sufocar. Aí é que está o maior desgaste.
É uma constante luta contra si mesmo, contra aquilo que realmente queríamos ser, fazer. E daí vem a tal angústia, a vontade de gritar, de xingar, de sair batendo porta e nunca mais voltar ou de simplesmente ficar ali e chorar.
A tal angústia nunca vai fazer sentido pros outros, porque eles têm a suas próprias angústias e porque se convencionou colocar todas as angústias, lamentações, lamúrias e caprichos em um mesmo saco e chamar de "mimimi" e ridicularizar, zombar, rir e calar.
Calam-se as angústias e continuamos em frente, comprometidos. Sorrindo.
Dentes à mostra.

 Reclamar é "mimimi".

O resto é vandalismo.

quarta-feira, novembro 27, 2013

You know... for kids



Daí outro dia li no MDM: "Alan Moore xinga os leitores"!

E o que aconteceu foi que o Alan Moore fez uma declaração pro The Guardian:

Eu não leio nenhuma hq de super-heróis desde que terminei Watchmen. Odeio super-heróis. Os considero abominações. Eles não significam o que costumavam significar. Eles estavam originalmente nas mãos de escritores que ativamente expandiam a imaginação da sua audiência de 9 a 13 anos. Era totalmente aquilo para o qual eles foram feitos e faziam isso de forma excelente. Nos dias de hoje, as hqs de super-herói pensam que a audiência é certamente maior que de 9 a 13 anos, não tem nada a ver com eles. É uma audiência amplamente nos seus 30, 40, 50 anos, geralmente homens. Alguém veio com o termo Graphic Novel. Esses leitores se agarraram a isso; eles estavam simplesmente interessados numa forma de validar seu constante amor por Lanterna Verde ou Homem-Aranha sem parecer de certa forma emocionalmente subnormais. Isso é um salto significativo da audiência viciado em super-heróis, viciada em mainstream. Eu acho que super-heróis não trazem nada de bom. Acho que é um sinal bem alarmante termos audiências de adultos indo ver o filme dos Vingadores e se deleitando em conceitos e personagens feitos para entreter garotos de 12 anos dos anos 50.(trecho retirado do MDM).
O Alan Moore é um dos cinco maiores roteiristas de histórias em quadrinhos de todos os tempos. Talvez, O maior. Moore elabora roteiros extremamente complexos, não apenas com tramas paralelas, mas também com personagens muito bem construídos e instigantes. É visível que ele lê um bocado pra elaborar suas histórias e seu talento é indiscutível.

Ele escreveu Watchmen, V de Vingança, A Liga Extraordinária, Promethea, Do Inferno, entre outras. Se você não viu os quadrinhos, provavelmente esbarrou nos filmes. Esqueça os filmes, o lance são os quadrinhos.  Aliás, talvez uma das coisas mais bacanas do Alan Moore é que ele adora trolar a indústria cinematográfica. Ele deixa bem claro que odiou cada filme feito em cima de um quadrinho seu e se recusa a receber por isso ou a ter seu nome nos créditos do filme. Para ele, quadrinhos tem uma linguagem própria e a adaptação para o cinema é esteticamente deplorável e resulta em produtos que só se justificam na ânsia desesperada de obtenção de algum lucro. Assistindo A Liga Extraordinária com o Sean Connery, fica difícil discordar do Moore.

Vez ou outra ele aparece com umas declarações que quebram as pernas desse "mercado" de super-heróis (seja no cinema ou nos quadrinhos). Daí muita gente, principalmente os fãs de super-heróis (os fanboys), fica puta da cara com o velho, chama ele de mau-humorado, chato, esclerosado e por aí vai.

Mas o pior é que acho que Alan Moore está certo. Em partes.

Super-heróis são um conceito infantil sim. Veja só: temos uma pessoa, geralmente um homem, que ganha um poder que o coloca acima dos outros. Ele se torna especial, muito especial. Um protagonista. O mundo gira em torno dele. E todos os conflitos, por mais complexos que sejam, são simplificados a uma briga do bem contra o mal. Esse super-herói, essa pessoa especial, é querida, é admirada, é o centro de todas as atenções e sempre está certa. Diga se isso não é infantil. Uma fantasia infantil.

Daí que quadrinhos como Watchmen chacoalharam os leitores dos anos 80. Moore e outros autores questionaram justamente as bases do super-herói: o maniqueísmo, as simplificações, a integridade. Isso fascinou os leitores na época, mas acho que esse fascínio foi mais por causa do impacto dramático das histórias do que por seu teor crítico.

Por exemplo, em Watchmen há o personagem Rorschach. Ao elaborá-lo, Moore o fez um reacionário intolerante, extremamente moralista, um fascista que não respeitava direitos humanos. Para Moore, Rorschach é um personagem extremamente condenável. Mas, para sua surpresa, o público adorou. Porque eles não viam o reacionário, mas um personagem solitário, dramático e amargurado que se dedicava com todas as forças para lutar pelo que acreditava. Novamente, o "coitadinho" que era melhor que todo mundo e ia salvar o mundo.

Assim, acho mesmo que super-heróis são uma coisa infantil. Mas discordo do Alan Moore quando ele diz que "amar" ao Lanterna Verde, Batman ou Homem-Aranha é coisa de pessoas "emocionalmente subnormais". Os super-heróis trazem também algumas coisas bem interessantes: simbolizam superação e solidariedade. Uma pessoa que é fã de um super-herói provavelmente projeta nele algo de grande significado para ela.

Assim, não vejo problema ou "um sinal alarmante" em adultos estarem gostando dos Vingadores. Trata-se de uma fantasia infantil, não há mal nenhum em se divertir com ela. Lógico que, se olharmos de perto, há muitas coisas em Os Vingadores que podemos pensar: por exemplo, o "mal" vem de fora do planeta. Não é mais uma nação comunista ou asiática, como costumava ser nos quadrinhos dos anos 1960. Para aumentar a audiência e lucro, procura-se respeitar outras nações e etnias. E hoje as pessoas reclamam e contestam mais, como foi o caso sobre o machismo envolvendo a figura da Viúva Negra. Assim, Os Vingadores não foi só diversão descerebrada, mas também foi ponto de partida para manifestações e reflexões interessantes.

Acho que o fato de algo ser rotulado como "infantil" não é demérito e não implica que não se possa realizar discussões interessantes a respeito. Por mais "inocente" que um livro ou um filme pareçam, eles sempre trazem em si vestígios da sociedade e cultura em que foram produzidos e permitem refletir melhor sobre quem somos.

No fim, penso que super-heróis funcionam bem melhor quando não os levamos a sério. Aliás, a vida é bem mais divertida quando não a levamos tão a sério. Mas isso não implica em viver alienadamente.

Penso que é perfeitamente possível viver com leveza e refletir sobre o que se vive.


terça-feira, novembro 19, 2013

The Day After


Todo carnaval tem seu fim...

Mas, antes disso, quanto riso, oh quanta alegria...

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O FIQ foi meio assim um turbilhão de coisas ainda não completamente apreendidas.

Lancei minha primeira publicação e acompanhei outras pessoas que estavam fazendo exatamente a mesma coisa. Ouvi histórias, presenciei cenas... muitas coisas foram extraordinariamente felizes, algumas coisas foram tristes de um jeito dolorosamente solitário e outras tantas simplesmente incompreensíveis. Todas aquelas vozes, todas aquelas pessoas e suas histórias. Que turbilhão.

Como carnaval mesmo, como aquela longa festa de danças e canções e figurinos e todo o trabalho de um ano desfilando diante de todos. O que vão dizer? Seremos ouvidos? Ouviremos alguém? Ah, vamos festar, menina, nos perder na multidão do grande salão da serraria.

Achei que ia sentir algo como um final de ciclo, como terminar alguma coisa e finalmente deixar as meninas Cecília e Letícia correrem por aí, mas foi engraçado, porque não sinto que acabou. Sinto como se fossem voltas e voltas. Não uma jornada linear, mas um grande círculo, tão grande que quando passo novamente no mesmo ponto ele está muito diferente, mas ainda é o mesmo ponto. Ciclo sem fim, Simba. Tudo isso um dia será seu.

Nosso.

Não estamos sozinhos.

Somos silenciosos.

Não deixamos vestígios.

Somos engraçados.

A gente vai deixando o raciocínio ir em frente e ele vai virando imaginação e vamos nos perdendo olhando pro infinito, mas e não é aí que as ideias se encontram? No fim, penso que não criamos ideias novas, mais combinamos e recombinamos diversas ideias. Tudo muito diferente, mas ainda é a mesma ideia/ponto.

O tipo de conversa maluca que tivemos tantas vezes na madrugada, depois das sonzeiras, das salas cheias de fumaça e barulho, sentados no meio-fio, o ar fresco na noite em nossas caras. E de repente alguém começa a cantar.

Uma madrugada sentados no meio-fio e muito tempo depois ela se repete, mas agora sentado sozinho na prancheta, lembrando e sorrindo e tentando reproduzir aquela sensação mexendo o nanquim na brancura do papel.

E de repente estamos na grande festa no salão da serraria.

E de repente não estamos mais.

Mas estamos juntos.



sexta-feira, novembro 08, 2013

Oito páginas de coisas que Cecília fez

Oi, meu nome é Liber e eu fiz um gibi. Mas já contei isso antes. O lançamento será semana que vem, lá no FiQ e os meus níveis de ansiedade estão na estratosfera.

Você quer dar uma olhadinha no que fiz?











Que tal?

:-)

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"As coisas que Cecília fez" é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. Não é aconselhável para menores de 18 anos. R$20,00 mais as despesas postais. Você pode comprar o álbum na Itiban Comic Shop (www.itibancomicshop.com.br) ou entrar em contato pelo e-mail ascoisasquececiliafez@gmail.com.

quarta-feira, novembro 06, 2013

Quadrinhos de cabeceira

Podem existir exceções, mas penso que todo mundo que faz quadrinhos começou sendo leitor de quadrinhos. Seja na infância ou em um reencontro na adolescência ou vida adulta, é como leitor que começa o fascínio pela linguagem, pela construção de impressões de fluxo de tempo, movimento e ações através das tais "imagens justapostas".

Existem muitos aspectos instigantes na linguagem dos quadrinhos: a relação palavra-imagem; os aspectos plásticos e recursos gráficos, isto é, as técnicas e estilos de produção de imagem empregadas; as diversas possibilidades de relações das imagens entre si e de sua disposição na mídia suporte, seja ela digital ou impressa; os modos e ênfases narrativas; as representações e relações com o contexto social; etc. 

Olhando bem , histórias em quadrinhos são um brinquedo muito bacana, tanto pra quem faz, quanto pra quem lê.

As diversas regras desse brinquedo, desse jogo, podem ser aprendidas em cursos e livros, mas penso que há um tipo de aprendizado muito sutil e profundamente internalizado que provém justamente da leitura dos quadrinhos. Especialmente dos quadrinhos favoritos.

Todo mundo tem os seus quadrinhos favoritos e penso que são esses gibis que dão um tom ou uma orientação para o leitor que passa a produzir quadrinhos. São as tais influências ou as obras que instigam, impressionam e formam sutil ou explicitamente o profissional. Enfim, as "histórias em quadrinhos de cabeceira" que são lidas e relidas com prazer, deixam suas marcas nos leitores e podem moldar novos autores.

Lógico que é algo bem específico, coisa de cada um. Pode-se curtir o personagem e seu universo ficcional ou admirar o trabalho de um determinado autor ou ter uma obra específica que nos assombra pelo resto da vida. Ser fã do Homem-Aranha, adorar o trabalho do argentino Quino ou reler apaixonadamente Os Companheiros do Crepúsculo. Vai saber.

Tem uma pilha de quadrinhos e autores que me fascinam, mas, tem uma série em especial, que quando eu li pensei: "puxa, esse era o tipo de história que eu queria escrever".

Sandman, de Neil Gaiman. 

Não é por causa de Morpheus ou dos Perpétuos ou da magia e mitologia. O que me fascinava mais em Sandman era justamente como Neil Gaiman conseguia retratar o cotidiano. Na minha opinião, o extraordinário e o fantástico ganhavam toda uma dimensão justamente pelo contraste com o "mundano". As coisas simples, as falas, os gestos de gente de verdade.

Por exemplo, na série Morte: o grande momento da vida, a história não acontece por causa de uma viagem mágica para realidades sombrias. Isso está lá, mas o que move a história pra mim é construção dessas personagens verossímeis e seus conflitos comuns.

Gosto muito dessa sequência:




Gosto dos pensamentos da personagem, dos diálogos, dos painéis mostrando detalhes, pequenos gestos, olhares, o fluxo de ideias, assuntos. Coisinhas que vão construindo uma intimidade e uma confiança entre leitor e protagonista.

Esse tipo de coisa me fascinava na época, ainda que eu não soubesse com clareza. As viagens e sonhos de Rose Walker em A casa de Bonecas, as conversas e dramas de Barbie e Wanda em Um jogo de você, enfim, o modo como o autor conseguia dar verossimilhança às palavras e às personagens.

Era essa sequência de Morte: o grande momento da vida que eu tinha na cabeça lá em 2005, quando comecei a esboçar as coisas que Cecília fez. Era esse tipo de atmosfera, de história, que eu queria fazer.

Lógico que no meio do caminho outras coisas vão se misturando.

Alguém pode dizer que também há um bocado de Estranhos no Paraíso, e sou obrigado a concordar, embora as histórias de Katchoo e Francine não estivessem na minha cabeça durante o momento de concepção e execução da hq. Daí penso que certas histórias realmente acabam nos formando, mesmo que não percebamos.

Os trabalhos de Bruce Timm, Darwin Cooke, Chris Bachalo e Glen Keane foram influências mais conscientes, mesmo que discretas. 

Lógico, não é só de referências a quadrinhos que se constrói um gibi. Apesar de estar bem longe de ser uma biografia, as coisas que Cecília fez traz um bocado de episódios e lembranças minhas. Coisas que vivi e histórias de outras pessoas. E um bocado de imaginação. ;-)

Esses materiais que citei aqui são algumas das minhas referências mais queridas, com que mais me identifico e que me instigaram e moldaram para a produção dos meus próprios quadrinhos. Penso que referências são muito importantes. Algo como um mapa, uma orientação dos caminhos que vamos seguir. 

É engraçado pensar assim, mas, mesmo passando horas em cima da prancheta, de certa forma não estamos sozinhos. Essa gente que nem conhecemos pessoalmente e que sempre nos acompanha. 

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"As coisas que Cecília fez" é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. Não é aconselhável para menores de 18 anos. R$20,00 mais as despesas postais. Você pode comprar o álbum na Itiban Comic Shop (www.itibancomicshop.com.br) ou entrar em contato pelo e-mail ascoisasquececiliafez@gmail.com.

sexta-feira, novembro 01, 2013

Músicas para Cecília



Uma vez ouvi minhas amigas cantando em "Lovefool" pelos corredores da universidade e elas pareciam muito felizes. Dessa memória veio a cena do carro com Cecília e Pedrinho. Ao longo da produção da história em quadrinhos, fui montando uma mixtape com músicas que eu achava que serviam de trilha sonora, mesmo que não fossem "tocadas" na história. É mais como uma seleção musical que embalou a concepção do álbum. Gosto especialmente das faixas do Cocteau Twins, que para mim tem o tom e a sensação que eu espero ter transmitido com as coisas que Cecília fez.

E aqui está a "trilha sonora original da história em quadrinhos":

1 - Lovefool (The Cardigans)
2 - In Between Days (The Cure)
3 - Young Hearts Run Free (Kim Mazelle)
4 - Só o Fim (Marcelo Nova e Camisa de Vênus)
5 - There She Goes (Sixpence None the Richer)
6 - Smells Like Teen Spirit (Nirvana)
7 - Aikea-Guinea (Cocteau Twins)
8 - Lorelei (Cocteau Twins)
9 - Tonigh Tonight (Smashing Pumpkins)
10 - Open Your Eyes (Snow Patrol)
11 - Nantes (Beirut)
12 - Rabbit Heart - rise it up (Florence and the Machine)


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"As coisas que Cecília fez" é um álbum de quadrinhos de 60 páginas em preto e branco, formato 21x28cm. Não é aconselhável para menores de 18 anos. R$20,00 mais as despesas postais. Você pode comprar o álbum na Itiban Comic Shop (www.itibancomicshop.com.br) ou entrar em contato pelo e-mail ascoisasquececiliafez@gmail.com.