quinta-feira, janeiro 30, 2014

E chegamos até aqui...



30 de janeiro é o Dia do Quadrinho Nacional. Comemora-se essa data por ser aniversário da primeira publicação de As aventuras de Nhô Quim ou impressões de uma viagem à corte, de 1869. Feita por Angelo Agostini, ela precede em mais de 25 anos a publicação de Yellow Kid, que muitos consideram a primeira história em quadrinhos "moderna".

Yellow Kid foi lançada nos Estados Unidos em 1895 e era de autoria de Richard F. Outcault. É considerada por muitos a primeira HQ por ser publicada em um veículo de comunicação de massas – era o jornal New York World, com tiragem de milhares de exemplares  e por, mais tarde, usar o recurso gráfico do balão nas falas dos personagens. Outra das razões de Yellow Kid ser declarada a primeira HQ é o fato de ser criação norte-americana e... bem, você sabe como são os norte-americanos. Mas Nhô Quim não é a única precursora e você pode encontrar exemplos ainda anteriores, como o trabalho de Rodolphe Töpffer, na primeira metade do século XIX.

Polêmicas e ufanismos à parte, hoje é dia do Quadrinho Nacional.

E é engraçado pensar sobre o que é esse quadrinho nacional. A trajetória histórica, o mercado, as dificuldades e, acima de tudo, a paixão.

Falamos em quadrinho nacional, mas me parece que a influência estrangeira sempre esteve presente.

Quadrinhos já foram queimados em praça pública aqui no Brasil e foram considerados ameaça à formação moral e intelectual das crianças, de maneira muito parecida e quase que simultaneamente como o que aconteceu nos EUA durante a época do Macartismo.

Não é difícil encontrar artistas e quadrinhos brasileiros que se inspiravam ou copiavam descaradamente trabalhos de autores estrangeiros. E isso vem desde as páginas de O Tico-Tico, lá de 1905 e chega até hoje.

Por favor, não estou dizendo que o quadrinho nacional é uma cópia ou que não tem personalidade própria. Eu só pensei nisso porque essa manhã estava lembrando da minha própria trajetória.

Eu comecei minha "carreira" como quadrinista não faz seis meses. Foi em novembro que eu lancei as coisas que Cecília fez lá no FIQ. Por outro lado, se contar a data que comecei a desenhar a história da Cecília, fez um ano que comecei minha "carreira". E se eu contar as publicações de histórias curtas no meu próprio blog e nas revistas Café Espacial e na Quadrinhópole, tenho pelo menos uns cinco anos de estrada. E se eu contar uma historinha que saiu na revista Metal Pesado e minha pequena participação na Manticore, tem mais de 15 anos que eu mexo com essa coisa de quadrinhos.

Quando começa exatamente? Eu não sei. Não sei da minha vida, quem dirá dos quadrinhos do Mundo.

Não sei se tem um começo definido, mas acho legal pensar que antes de qualquer coisa somos leitores. Em algum momento pegamos um gibi na mão e nos fascinamos com ele. Não interessa se era mangá, super-herói, Asterix ou Calvin e Haroldo. Em algum momento a gente começa a ler e curtir. E começa a brincar de desenhar, copiar aqueles personagens. Dá vontade de fazer histórias feito aquelas, que fazem a gente viajar. Aquelas linhas e cores estáticas na página, mas cheias de vida e movimento.

A gente lê, a gente se fascina e a gente começa a copiar. Nossos desenhistas favoritos pra começar. Fazemos aqueles desenhos tortos, mas cheios de atenção, cuidado e empenho. Daí queremos criar nossas próprias histórias. Vamos pondo tudo no papel. Que alegria! Que mágico! Você entende o que estou dizendo?

Daí vem a vida. Ou melhor, vem o mundo que construímos. O mundo real.

Mercado é uma coisa que não dá pra ignorar, sabe. A gente precisa de dinheiro pra comprar gibis, pra pagar o aluguel, pra poder comer, pra poder se vestir. No mundo que construímos, pra ter dinheiro a gente precisa trabalhar. É assim que funciona.

O que me dá um nó é que a partir do momento em que decidimos trabalhar e "ganhar" a vida com alguma coisa, temos que considerar que o que fazemos tem que render dinheiro suficiente pra manter todas as nossas necessidades. Esse é o mundo adulto.

Mas, não é só isso. Não é só uma questão de cuidar de si mesmo. Nosso trabalho tem um papel dentro de uma sociedade. Nosso trabalho tem relevância não só pra nós, por causa do salário ou da realização pessoal, mas também pra outras pessoas. Nós acabamos ocupando um papel e um espaço na sociedade e pessoas contam com aquilo que nós fazemos, assim como nós contamos com outras pessoas.

Não se trata só de dinheiro, mas de ter consciência que alguém vai se valer do seu trabalho. Seja você um caixa de banco, um advogado, um faxineiro ou um médico. Todo o trabalho é importante e, mais cedo ou mais tarde, nós temos que lidar com os resultados do trabalho de alguém ou do nosso próprio trabalho.

E tudo isso vai se agregando ao nosso trabalho, aos nossos quadrinhos. Talvez a gente comece como uma cópia, mas no fim sempre acabamos encontrando nossa própria identidade e ela é feita de muitas e muitas coisas.

Daí, nesse dia do Quadrinho Nacional, eu fico pensando em tudo isso.

No amor por fazer quadrinhos, nos primeiros passos copiando nossos ídolos, na consolidação de uma voz própria. E em como esse prazer tão pessoal, essa motivação, vai interagindo com as necessidades do mundo, das contas pra pagar, da consciência de que fazemos quadrinhos não só pra nós mesmas mas também pra outras pessoas.

Nesse dia do Quadrinho Nacional, eu gostaria de cumprimentar todo mundo que lê quadrinhos, que viaja nas páginas, nas telas, nos desenhos.

Todo mundo que curte essas revistinhas, que escreve sobre elas, que tenta fazer suas próprias historinhas.

Todo mundo que faz seus gibis, que tenta fazer as pessoas rirem, sentirem medo, surpresa. Todo mundo que tenta por nos seus quadrinhos uma visão que ajuda a gente a pensar e entender esse mundão.

Todo mundo que trabalha pra esses quadrinhos chegarem nas nossas mãos.

Pra todos e todas vocês, um feliz dia do Quadrinho Nacional.

Forte abraço!

:-)