quarta-feira, novembro 04, 2015

Dias interessantes


A partir dessa quarta-feira, 04 de novembro, vou publicar no Medium em episódios minha nova história em quadrinhos, Dias interessantes. Todas as quartas-feiras, um episódio novo.
O álbum impresso com a história completa (formato 21x28cm, 88 páginas, preto e branco, lombada quadrada, R$40,00) está disponível para compra no endereço diasinteressantes@gmail.com .

segunda-feira, novembro 02, 2015

An advice

I learned that the most dangerous heart is that which does not know what love entails but carelessly ensnares another.
I learned that the most dangerous heart is from one that claims to love you earnestly but without commitment; bolts with the wind when reality sets in and finds the object of affection less favourable than its ideals or set expectations.
I learned that the most dangerous heart is that which can change in a heartbeat and discard another ruthlessly - numb, with no care of how painful, traumatic and heartbreaking it would be.
I learned that words of love are so good to hear and it is prudent not to trust them. These can just be words without any meaning.
I learned that people you love most can be the ones to not mind turning your world upside down and leave you out hanging to dry.
I learned that love is a choice and a commitment to an imperfect person. It is complete acceptance of both light and darkness.
I learned that love is a journey of happy and wholehearted compromises. We can't always have all the qualities and conditions we look for but we can choose to learn and appreciate our differences; motivate each other for the better.
Believe in love but DO NOT LOVE RECKLESSLY.
- Charis Gaye Dagoc
Marina Abramovic, Rest Energy"

sexta-feira, outubro 16, 2015

Notas do autor 10: Finale

Que conste nos autos que no dia 16 de outubro de 2015, à 01:25 da manhã, eu conclui a última página da minha história em quadrinhos.

A septuagésima segunda.

A história mais longa que já fiz.

Agora falta capa e digitalizar a porra toda.

Quem diria.

Consegui.

sexta-feira, outubro 02, 2015

Notas do autor 9: motivação

Pensei que escrever sobre o processo criativo ia ser divertido, inspirador. Acontece que o processo criativo é meio que nem a vida e nem sempre é divertido, inspirador.

Tem horas que a gente simplesmente tem que trabalhar. Apenas. E na maior parte do tempo, é um trabalho que pode ser tão massante quanto qualquer outro, por mais boa vontade, bom humor e tudo de bom que se possa invocar.

Tem horas que a gente entra por caminhos que assombram. Tem horas (e não são poucas) que a gente se pergunta se tudo isso vale a pena, se vamos ter coragem de mostrar essa coisa pras outras pessoas ou se alguém não vai aparecer pra rasgar o nosso livro na nossa frente ou nos dar um tiro porque se sentiu ofendido. Não que a história seja particularmente ofensiva, mas... ela pode perturbar.

Eu sei que eu estou perturbado.

É como se eu estivesse mapeando alguma coisa, como se eu estivesse tentando fazer o retrato de uma fratura exposta que me fascinava e eu já nem lembro mais por quê.

No fim é só mais uma história em quadrinhos, nada mais que isso.

E ela me tira o sono, me consome e precisa ser terminada.

Apenas.

sábado, setembro 12, 2015

Notas do autor 8: mas, geeeeente...

Fazer quadrinhos dá muito trabalho.

Sério.

Na fase de roteiro e layout, que você esboça a história, a coisa flui gostoso. Mas na hora de transformar tudo em imagem, em desenhar detalhes, expressões, roupas, cenários... gente.

A estratégia que tou desenvolvendo é simplesmente não pensar. Não pensar em tempo, em prazo, em produção, em velocidade. Porque, se pensar nisso, eu desisto.

"Cale a boca e desenhe", dizia meu professor.

E é isso.

Bora.

domingo, julho 05, 2015

Sobre simplesmente ser (mais ou menos)

Existe diferença entre "Ser quem se quer ser" e "querer ser quem se é"?

No primeiro caso me parece que o querer determina o ser. Tipo, a gente imagina quem quer ser, a gente tem na cabeça direitinho que tipo de pessoa que a gente quer ser e a gente vai lá e se torna essa pessoa. Fácil.

Daí eu lembro de um desenho animado, um dos primeiros que eu assisti na vida, que mostrava um dragãozinho que queria ser bombeiro quando crescesse. Um dragão que cospe fogo queria apagar incêndios. Eu não tinha nem cinco anos ainda e acho que, por causa daquele desenho, bombeiro foi uma das primeiras coisas que imaginei ser quando virasse adulto.

"Ser quem se quer ser".

A gente é adulto e escolhe quem quer ser.

Mais ou menos. Querer ser um escritor brilhante, um jogador de basquete extraordinário, um astro da música mais popular do que os Beatles. "Ser quem se quer ser" é um bocadinho mais complicado e trabalhoso do que a gente gostaria. E pode não rolar.

E tem mais uma coisinha ainda. A gente vai vivendo e a vida vai acontecendo. A gente vai perdendo pedaços. Vai ganhando marcas, cicatrizes. A gente diz coisas que gostaria de jamais ter pensado e não podem ser desditas. A gente machuca pessoas que amamos e não tem como voltar atrás. A gente despedaça e é despedaçado.

Daí se olha no espelho e vê um pedaço de carne cheio de histórias, cheio de desejos, esperanças, frustrações. A parte "ruim" faz parte da gente também. E, por parte "ruim", entenda tudo aquilo que a gente não gosta em nós mesmos. As nossas decisões erradas, os fracassos, as perdas, as mágoas. Deixar pra trás quem a gente ama, ser deixado pra trás por quem a gente ama. Aquelas coisas doloridas que nos perturbam e assombram e fazem de nós um bocadinho de quem nós somos.

"Querer ser quem se é".

Porque as coisas ruins, as coisas que a gente não pediu, fazem parte do pacote. Mesmo que a gente não fotografe e não escreva sobre elas no facebook, elas fazem parte do pacote. Compulsoriamente. Todas aquelas marcas em nosso casco. Todas as nossas enervantes limitações. Mesmo as bobas. Podia não ter essa barriguinha. Podia ser uns 20 centímetros mais alto. Ou mais baixo. Podia não envelhecer, não perder amizades, podia ter tido uma família.

"Ser quem se quer ser" e "querer ser quem se é" são coisas diferentes, mas não excludentes. Acho que dá pra fazer os dois ao mesmo tempo.

Admitir para nós mesmos que acontecem coisas que não gostamos, assumir que existem coisas que fizemos e não deveríamos ter feito ou que não fizemos e deveríamos ter feito. Aceitar que tem momentos que se perdem para sempre. Assumir que não temos controle de tudo, mas que podemos escolher ter uma posição diante da vida e fazer o melhor possível pra se manter fiel a ela.

E, eu acho, pelo menos pra mim, acima de tudo, ter noção de que "ser" não é uma questão apenas individual. Nós fazemos parte de uma coletividade. Quem somos e decidimos ser faz parte dessa coletividade.

E é isso.

Mais ou menos.

sexta-feira, julho 03, 2015

Uma noite de arco-íris

Dia 01 de Julho de 2015 o projeto Cena HQ, capitaneado por José AguiarPaulo Biscaia Filho eMarco Novack, levou a minha história em quadrinhos "As coisas que Cecília fez" para o palco. 

A fadinha Angela Stadler fez uma transposição MARAVILHOSA com o acréscimo de uma série de detalhes delicados e brilhantes que deram vida própria à apresentação. Foi incrível já o começo da peça, quando o Diego Perin entra no palco tentando arrumar uma fita k-7. Aliás, esse sujeito fez toda a trilha sonora da peça com fitas k-7. Acertou em cheio e matou as saudades das mixtapes dos anos 90. O Luiz Bertazzo fez um narrador muito bacana. Aliás, foi mais do que bacana. Quando você escreve um texto de quadrinhos, muito da "entonação" com que essa voz vai ser "ouvida" na cabeça do leitor é insinuada pelo texto, pela tipografia, itálicos, negritos, desenho do balão, expressão do personagem. Mas tudo isso só insinua e quem faz o trabalho todo sempre é o leitor. Ali no palco, o Luiz deu cara pro narrador, deu voz, estilo. E daí outra coisa bacana dessa mágica: o Luiz não foi a única voz do narrador e muitas vezes personagens, principalmente a Cecília, diziam frases chave que eu tinha inicialmente imaginado apenas na voz do narrador e essas frases ganhavam toda uma força diferente. Aliás, esse entrosamento do pessoal no palco, essa troca de personagens que acontecia na frente da gente era incrível. Tirando um casaco, Cecília viajava 15 anos para o passado. Colocando um óculos, Pedrinho se transformava em Letícia. E essa Cecília? Isadora Terra, eu tinha vontade de te abraçar e apertar! Cacilda, que coisa doida é você inventar uma pessoa e de repente ver ela na sua frente. Que louco meu... E a Vida Santos... olha só, quando desenhou "Os Supremos", Brian Hitch fez o Nick Fury com a cara de um ator que, vejam só, acabou interpretando e se consagrando como Nick Fury nos filmes da Marvel. Quando desenhei a Letícia, eu buscava um rosto, especialmente uns olhos que fossem fortes, alegres, vivos. Daí me inspirei nessa moça e, olha só, um par de anos depois ela fez a Letícia nos palcos. Posso dizer que a Vida é o Samuel L. Jackson do meu pequeno universo de quadrinhos. Emoticon smile

Teatro é uma coisa única, é uma coisa de momento. Eu filmei, registrei, mas não é a mesma coisa. Lembrar não é a mesma coisa. Acho que teatro tem um bocado dessa coisa da vida, do momento, do agora. Acho que a gente precisa às vezes lembrar disso. Estamos aqui agora e esse momento vai passar. Vamos aproveitá-lo. E eu aproveitei. E nunca vou agradecer o suficiente a essas pessoas, por estarem lá, por colocarem todo esse carinho e darem vida e novos significados ao gibi que eu fiz. E também agradecer ao carinho das pessoas queridas que estavam lá: Tex, Piuí, Rodrigo GraçaRosemeire Odahara GraçaMatias PeruyeraCamille Bolson,Fernanda BaukatChris Spode (que bateu essa linda foto), Taissa BrevilheriSer Cabral, Tati, Luiz Jyudah SilvaCarol SakuraRodrigo StulzerIvan Sória FernandezEmerson Nery , Giulian de Castro e todos os presentes. Casa cheia, foi lindo de ver.

Apresentação única. Como a vida.
Emoticon smile







(Isso sem contar que, pou, aquelas pessoas estavam trabalhando com um texto meu. Tratando com o maior carinho o material que escrevi. Abrindo um espaço pra confessar uma coisa bem pessoal: eu acho que sempre quis que meus textos fossem lidos. Acho que eu sempre curti a figura do Neil Gaiman não só por ele ter escrito a série de quadrinhos que mais me marcou na vida, mas por ele meio que ser aquilo que eu sonharia ser. Sabe, escrever coisas e as pessoas curtirem, terem interesse? Tem um bocado de orgulho e vaidade nisso, sabe. Talvez seja por isso que eu nunca tenha tentado antes. Acho que passei muito tempo acreditando que isso não era pra mim, que eu jamais mereceria estar ali. Mas de repente a gente faz 40 anos. 41. E começa a pensar que ainda há tempo de fazer alguma coisa. Porque não é só o lance de ser lido, de como as pessoas vão te receber. Isso é muito importante, é muito gostoso, é um alimento pra alma. Mas não é só isso. Tem o lance do escrever. Do inventar uma pessoa. De usar memória, imaginação e um monte de emoções. De jogar ali um monte de coisas minhas, de me expor, de ser honesto, de fazer com carinho uma história que eu gostaria de ler, antes de qualquer coisa. E, se mais alguém gostar, é bônus. E sempre tem alguém que gosta. Muito obrigado a todos e todas vocês.)

segunda-feira, junho 29, 2015

Cecília em cena

Nessa quarta-feira dia 01 de julho o projeto Cena HQ, de José Aguiar, Paulo Biscaia e grande elenco, traz para os palcos a leitura dramática da minha história em quadrinhos As coisas que Cecília fez.

Fiquei muito feliz com isso e estou disponibilizando o gibi para leitura online, para as pessoas que não tiveram acesso poderem conferir.

ATENÇÃO: Essa história em quadrinhos apresenta representações de SEXO, palavrões e uso de drogas e pode ferir sensibilidades. Não recomendo para menores de 12 anos.



As edições impressas de As coisas que Cecília fez foram praticamente todas vendidas. Há ainda alguns exemplares remanescentes na Itiban Comics Shop

Ainda tem o site Mais Gibis, onde você pode comprar uma versão digital de Cecília. Lá também você encontra muitos outros quadrinhos legais feitos por quadrinistas nacionais. Vale a pena conferir.

E, quem puder, aparecça!
Quarta-feira, 01 de julho, a partir das 19h a bilheteria do Teatro da Caixa abre. A entrada é franca.

:-)


Escute

Amigo, não existem feminazis.
Se a menina tá te dando uma bronca, você provavelmente fez merda.
Em vez de tentar puxar os vinte mil fatos indiscutíveis que comprovam que você, floquinho de neve único e especial, está certo como sempre, experimente escutar a menina. Experimente ouvir e tentar entender de verdade o que ela está te dizendo. Tente enxergar o mundo pelos olhos dela um pouquinho só. Apenas escute. Pense.
Dói perceber as próprias falhas. Dói perceber que certas coisas que tínhamos como brincadeiras inocentes, piadas saudáveis, na verdade eram troças cruéis em cima de quem não tem como se defender.
Machuca o orgulho perceber que a gente não é tão legal quanto pensa que é. Mas se for pra sentir orgulho por alguma coisa, que seja orgulho de se tornar uma pessoa melhor.
O orgulho de defender uma posição que oprime, ridiculariza e inferioriza é um orgulho indigno. É orgulho de ser estúpido e cruel. E você não é estúpido e cruel.
Pelo menos, eu espero que não.

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(Esse foi um post que eu achei muito doido. Apareceram muitos amigos que se proclamavam "neutros" e "equilibrados" e que tentavam provar que existem feminazis, que existem "pessoas podres que se escondem no feminismo", que "há mais pontos de de vista no mundo do que a simplicidade dos binários"... Dentro disso, diziam que não estavam ali pra deslegitimar os feminismos, apenas para evidenciar que existem "extremistas" dentro dele que não são diferentes de terroristas islâmicos. A comparação de feministas com terroristas islâmicos aconteceu. Veja, eu sou homem, não posso ser feminista. Feminismo é um movimento complexo, mas deve sempre ser protagonizado por mulheres e apenas por elas. Mas, como homem, eu fico meio de cara com a falta de percepção das pessoas "neutras". Como alguém consegue acreditar em neutralidade, gente? Você entra numa discussão polarizada e começa a dizer coisas que deslegitimam as reivindicações de um dos lados, relativizam, minimizam, tentam silenciar e diminuir um dos discurso e vem se proclamar neutro? Sério?)

Just do it

É interessante.
Colocar cores numa foto de perfil não vai mudar o mundo, mas vai mobilizar algumas pessoas a se manifestarem para criticar essas cores porque algo as incomoda. E elas vão trazer mil argumentos pra explicar e justificar suas críticas e vão insistentemente defender sua posição.
Um texto ou uma piada não tem nada demais, dizem. Também não vão mudar o mundo. Mas quando você escreve algo criticando um texto ou piada dito por um homem branco hetero, lá vem uma galera falar que não é bem assim, que não pode hostilizar, que não pode incentivar a luta de classes, vamos ser todos amigos e deixar tudo como está.
Mude as cores. Critique duramente quem propagar ideias opressoras.
Se um homem aparecer dizendo que você está errado ou errada, te chamando de radical e defendendo o indefensável, saiba que você está mudando o Mundo sim.

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(Sobre os posts criticando as pessoas que colocaram cores do arco-íris em seus perfis celebrando o casamento gay nos EUA.)

Mais empatia

Eu sou branco, hetero e homem. O meu primeiro contato com feministas se deu em um grupo de estudos dentro da universidade anos atrás. Elas me espinafraram. E eu mereci.
Foi assim: a conversa era sobre tarefas domésticas, que sempre eram feitas pelas mulheres dentro da estrutura tradicional da família. As mulheres faziam a comida, as mulheres lavavam a louça. Daí, o Liberzinho aqui levantou a mão pra "contribuir" e falou: "eu moro sozinho e lavo minha própria louça" e a resposta delas "ah, mas se você morasse com uma mulher, ela é que ia lavar?" (a escrita não corresponde à entonação de bronca da voz). E seguiram outros comentários e a única coisa que eu conseguia pensar era "mas não foi isso que eu disse, tou sendo acusado de ser machista e eu não sou" e lógico que fiquei boladinho porque eu tava levando bronca por uma coisa que eu não tinha dito.
Só que daí eu comecei a pensar melhor no que tinha acontecido. Ao invés de tentar me justificar, comecei a pensar "peraí, porque elas tavam tão brabas com o que eu disse?". E comecei a entender que o que eu falei corroborava sim uma cultura machista. Porque quando eu morava em casa, quem lavava a louça era minha mãe. Minha irmã, desde criança, sempre questionou isso. Por que só mulher lava a louça? Ah, e eu, homem, vou e falo: eu moro sozinho e lavo a louça e dentro daquele contexto, sim, eu podia perfeitamente ser entendido como "se eu tivesse uma mulher, ela lavaria minha louça". Essa era a percepção das feministas. E elas estavam certas. Não que eu ia por a "minha" mulher pra lavar louça, mas eu nunca mais, depois daquela bronca, me senti em paz pra deixar uma amiga ou mãe ou irmã sozinha pra lavar a louça.
Aquela bronca doeu e mudou a minha percepção.
E aquela bronca não foi a única que eu levei. Já levei VÁRIAS broncas que me mostraram que eu era machista, que eu era homofóbico. E cada uma delas me fez repensar minha atitude. Porque EU, o homem machista e homofóbico, aceitei ser questionado, aceitei escutar. E ainda vou levar muitas broncas, porque eu sou fruto de uma cultura que desumaniza mulheres, negros e gays e coloca o homem branco hetero como centro do universo. E é assim, véi. Eu ainda falo muita merda e não percebo. E tem as minas que me dão os toques.
E dói, velho. Dói perceber que a gente tá errado. Mas depois a gente aprende a abrir mão do ego, da vaidade e entender que tamos todos no mesmo barco. A gente aprende a ouvir a pessoa que tá nos criticando e entender porque ela tá criticando. A gente aprende a pensar sobre o que estamos dizendo e o que estamos defendendo.
Daí esses tempos circulou um vídeo de um cara que me parece ser gente boa e bem razoável, falando sobre o efeito mola, dizendo que era compreensível a expansão das minorias que sempre tinham sido "comprimidas", que o opressor muitas vezes não sabia que era opressor, que o garoto branco não tem desenvolvida uma carapaça pra aguentar agressões como o garoto negro, que por isso o garoto branco sofre bastante e que é preciso ter empatia para com esses garotos brancos racistas e tratá-los com mais gentileza. No vídeo, o sujeito apresenta bons argumentos, é articulado e me pareceu bem convincente.
MAS, daí, fiquei pensando...
É um vídeo em que um homem branco e hetero pede para as pessoas terem empatia pelos homens brancos e heteros quando eles cometem atos racistas, machistas e homofóbicos. Caralho, velho, porque esse homem, ao invés de se dirigir às pessoas e pedir empatia para os homens brancos que falam merda, não fez um vídeo pedindo para os homens entenderem que quando levam bronca, é porque estão falando merda?
Por que esse homem branco hetero não se dirigiu aos seus vários seguidores e sugeriu "tenham vocês, brancos heteros, empatia pela pessoa que está te espinafrando, porque ela está fazendo isso porque você provavelmente está sendo escroto"?
Gente escrota, tipo os caras do MRG. Pra que eu vou querer exercer empatia com um imbecil que fala publicamente em tom debochado que mulher amamentando "não sai do meu sonar"?
E o mais engraçado é que aparecem pessoas pra defender esse filho de um cancro sifilítico. "Veja bem, é só a opinião dele, nem é pra tanto". Velho, esse cretino tá errado. E eu não tou dando uma surra nele e deixando ele pelado amarrado num poste. Eu tou chamando ele de cretino porque ele é um cretino. Porque ele sabe que fala merda, tem orgulho de falar merda, se acha um floquinho de neve especial por falar merda. Não importa o quão didático você seja, ele não vai te ouvir porque ele é homem e tem toda uma cultura que diz que ele sempre está certo.
Pra que tentar criar empatia com as mulheres, né?
Daí eu fiz aquele post dizendo que feminazi não existia e que os homens deviam ouvir as mulheres.
VÉI... apareceu um monte de gente empenhada em PROVAR que existe feminazi. Em provar que tem "gente podre" no feminismo. E diziam "não tou querendo deslegitimar as feministas, mas tem muita feminista que é podre". Véi... de boas véi, vai toma no cu.
Porque os putos vem pedir empatia e são incapazes, INCAPAZES, de exercer essa mesma empatia. De levar uma bronca e pensar "pou, será que eu tou errado"? É lógico que não. Homem branco hetero nunca tá errado. Homem branco hetero é gente boa, não é machista, não é homofóbico, os outros é que não entendem ele.
Então, mano, entenda, quando tu vem falar de "discurso de ódio" contra os homens, entenda que ninguém tá fazendo discurso de ódio. Essas mulheres, negros e gays estão manifestando uma indignação legítima. Ninguém está fazendo com esses homens nem metade do que eles fazem (e são coniventes com os que fazem).
Irmão, por favor, não leva a mal, mas quando tu chega pra essas pessoas, essas mulheres que ouvem piadinhas de estupro nas rodas dos amigos do namorado, essas mulheres que não pode****m andar uma quadra sem ter um homem completamente estranho tentando assediar ela porque a enxerga como um objeto sexual, essas mulheres que não podem amamentar em público pra não constranger os jovens do MRG... quanto tu chega pra essas mulheres e vem falar pra elas terem "empatia", tu não tá ainda em sintonia com o rolê, irmão.
Ser homem, hetero, branco não é errado. Errado é distorcer o conceito de empatia. Errado é querer equiparar a violência exercida contra os oprimidos às ofensas e críticas severas feitas contra os opressores. Mandar o bostinha machista à merda e ferir os "sentimentos" dele não é a mesma coisa que apedrejar uma menina que sai do culto do candomblé.
Então, por favor, não peça empatia por esses caras. Véi, de boas, você não tem noção de como isso soa mal.

***************

(Originalmente, todo esse texto foi escrito em um comentário de facebook em resposta a um amigo. Considerando que escrever esse palavrório me tomou um tempo considerável, pensei em copiar, colar e editar como um post público. A resposta das pessoas me surpreendeu um bocado. Diversos compartilhamentos e curtidas e tals. Mas o mais interessante é que pelo teor dos comentários a atitude de ouvir uma mulher (ou negro ou gay ou qualquer outra minoria) e realmente refletir sobre o que ela nos diz e sobre o que nós fazemos e pensamos... essa atitude parece ser realmente revolucionária.)

segunda-feira, junho 22, 2015

Memória

Estou fazendo uma história em quadrinhos.

Pessoas inventadas, situações inventadas. Mas as frases, os rostos, os lugares, são verdadeiros. É estranho isso. É tudo mentira, é tudo verdade.

Ao mesmo tempo.

Como uma lembrança.

Como uma vida que tive, que parece tão distante que nem sei mais se foi real.

Estou aqui, nesse lugar barulhento, pessoas gritando violências e batendo nas grades. Mas não preciso ficar aqui.

Essa é a parte assustadora.

Não preciso ficar aqui.


terça-feira, junho 02, 2015

Empatia

Ultimamente muita gente tem me chamado a atenção, dizendo que eu preciso ser mais empático. Entender as pessoas. Saber que elas estão sofrendo.
Onde querem que eu exercite minha empatia? Eis os exemplos:
  • Ontem escutei um homem branco dizer que não existe racismo no Brasil, a polícia não discrimina marginais por causa da cor da pele e o fato de existirem poucos negros nas universidades é por causa do mero acaso ou da falta de esforço por parte deles, por isso as cotas são uma extrema injustiça para com os brancos. Não existem brancos, negros e pardos no Brasil, somos todos apenas brasileiros, todos iguais, e falar de racismo é destilar ódio.
  • Pessoas se sentem incomodadas com a propaganda do Boticário porque ela ameaça a "família tradicional" brasileira. Essas pessoas não podem ser chamadas de homofóbicas só porque não querem ver representações dignas de relacionamentos homo-afetivos estáveis na mídia. Elas apenas não gostam de ver pessoas do mesmo sexo vivendo como casais e precisam ser respeitadas por isso. Chamá-las de homofóbicas é preconceito com elas e seu modo de ver o mundo.
  • Homens estão sendo injustiçados pelas feministas. Elas confundem elogios com ofensas. Elas vem dizer que um homem de 30 anos não pode namorar uma menina de 14, porque isso constitui um relacionamento abusivo. Vem meter o bedelho na vida íntima do casal, qualquer casal. Os homens sempre cuidaram bem de suas mulheres e é muito ofensivo e doloroso pra eles terem seu papel de macho questionado. Quem nunca deu uns tapas na companheira num momento de destempero? E quem sabe dizer se ela não merecia?

Daí me dizem pra eu exercitar a empatia com essas pessoas. É pra eu entender que o branco-cis-heterossexual-cristão está sofrendo muito por causa desses rebuliços de gente que vem falar em feminismo, racismo, homofobia. É preciso ter empatia e entender que essas pessoas estão sofrendo com a pesada ditadura do politicamente correto.
E daí parei pra pensar um pouco.
Definitivamente essas pessoas estão sofrendo com tudo isso, com esse questionamento, com essa afronta a tudo que elas sempre consideraram como "natural".
Nunca tinha pensado que essas pessoas sofrem ao se perceberem impotentes diante de uma mudança de comportamento irrefreável.
Esses pobres e impotentes reacionários em vias de extinção.
Eles estão sofrendo.
Que puxa.

domingo, maio 31, 2015

Esse sujeito doido

Meu nome é Max.

Meu mundo é sangue e fúria.

Mentira.

Eu não me chamo Max. E, embora exista sangue e fúria sobrando por aí, reduzir meu mundo a isso é, no mínimo, uma imprecisão. Meu mundo é caos, um mundo fracionado em mundinhos justapostos, cada um em seu quadrinho. Às vezes os mundinhos se interpenetram.

Todo mundo fala da Furiosa e de como ela colocou o Max pra coadjuvante em seu próprio filme. Mais ou menos como o Coringa costuma fazer com o Batman. Não que a Furiosa seja a mesma coisa que o o Coringa. Nada disso. Na real, não é da Furiosa que eu quero falar. É do Max.

Esse sujeito doido.

Max e seu carro andando dias e dias pelo deserto, pelo nada, topando com outros farrapos humanos. Precisa pensar em conseguir água, combustível, comida. Essas são as preocupações. Fora isso, só existe a imensidão do deserto preenchida pelas lembranças moídas e remoídas. Memórias imprecisas, mas os sentimentos persistem.

E nós? Por que nós persistimos, Max?

Não temos filhos, não temos raízes. Não somos importantes pra ninguém, a não ser pra nós mesmos, talvez. Podemos ter dado uma mãozinha aqui e ali, podemos ter recebido um pouquinho de atenção, mas, na real, nós somos pouco importantes, meu querido. Só dois loucos perambulando por aí. Você no seu carro, eu na minha caixa.

Ainda dois garotos, esperando a aprovação da mamãe. Só que não somos mais garotos, não existe mais mamãe. Dois sujeitos largados por aí, no meio de tantos outros. Não há floquinhos de neve no meio do deserto, que tolice. Mas você percebeu isso bem antes do que eu, Max.

Por que nós persistimos, Max? Deitar na estrada e dormir, deixar de existir, isso parece tão lógico, tão sensato. Deixar o mundo de sangue e fúria seguir em frente sozinho. Isso vai acontecer, é inevitável. Sabemos disso. E, no entanto, persistimos. Rodando. Dirigindo. Tentando conduzir alguma coisa.

Talvez o segredo seja olhar de fora da página. Ver os quadrinhos justapostos. Os mundinhos. As ideias.

Talvez o segredo seja só continuar rodando.

Talvez, e o mais provável, é que não exista segredo nenhum. Só uma necessidade patológica por historinhas que justifiquem a porra toda, que deem um sentido pra isso, pra esse mundo interminável de areias, cores, surpresas e decepções. O mundo não é só sangue e fúria, Max. Tem muitas cidades e coisas estranhas e maravilhosas e assustadoras perdidas debaixo de nossas areias, esperando o vento descobri-las e depois recobri-las.

Lembro de um velho, um velho que era um rosto numa folha de papel colada em parede/poste de alguma cidade/lugar. "Não se preocupe", dizia o velho. Ou pelo menos era o que estava escrito debaixo do rosto impresso no papel. A gente lê um texto, sinaizinhos gráficos justapostos em um suporte, e uma voz se faz dentro de nossa cabeça.  Um pensamento.

É, há muito mais do que sangue e fúria nesse mundo, Max. Nós não somos importantes, não somos protagonistas e hoje

Hoje nós vamos continuar rodando.

quinta-feira, maio 28, 2015

Faz parte

Faz parte do processo, pelo menos do meu processo, me perder um bocado e não saber direito pra onde estou indo nem o que eu estou fazendo. Ainda mais quando a gente começa uma história em quadrinhos longa. Várias páginas e ainda não tenho certeza do total.

Às vezes eu acho que estou fazendo algo bacana, às vezes eu me empolgo com o desenho, com o pincel na página, as linhas brilhantes de tinta fresca. Gosto disso. Ainda assim bate a preguiça, a procrastinação. E daí vem a pressão dos prazos. E o conflito com os outros compromissos.

Dizia um professor de desenho muito querido meu: "cale a boca e desenhe". Acho meio injusto dizer que foi a coisa mais marcante que ele me ensinou, mas é isso. Calar a boca, sentar e fazer é provavelmente o melhor conselho que já recebi. Serve pra tudo. Inclusive produção de teses e álbuns em quadrinhos.


Politicamente (in)correto

O "politicamente INcorreto" já começa errado.
As mulheres reclamam dos estupros de Game of Thrones e lá vem os protetores do "politicamente INcorreto" defender. Mas o mais engraçado é ver gente "politicamente correta" argumentando a favor da presença dos estupros. "Se for importante para a trama, tem que ficar". Curioso que quem defende isso são homens. E não se considera o público feminino, suas percepções e nem o peso do uso corriqueiro do estupro nas ficções na formação de nossa cultura.
O lance é que usar estupro em uma ficção hoje já não é mais uma decisão "estética" do autor. Colocar estupro em um produto cultural hoje é assumir uma posição política e responsabilidades sociais. Requer muito mais estudo e conhecimento de mundo do que "vou colocar uma cena de estupro pra mostrar que esse cara é mau. Hohoho".
"Pou, mas esse mundo tá cada vez mais chato!"
Tá sim. Você ainda não percebeu quanto.
Agora foram "censurar" uma sátira da série Armandinho.
Pra quem não conhece, Armandinho é um personagem de tiras em quadrinhos que circula muito pelas redes sociais. É um personagem "fofo" e que assume uma posição "politicamente correta". Em suas historinhas, ele apresenta ideias sobre solidariedade, desconstrução de preconceitos, comportamentos. Independente da avaliação da qualidade efetiva da série, Armandinho assume posições muito claras.
A sátira que começou a circular apresentava as tiras de Armandinho na íntegra, mas com o acréscimo de painéis que mostravam sua morte violenta. Assim, após dizer que achava uma menina linda porque simplesmente ela era feliz, Armandinho é esmagado por um bloco de concreto que cai dos céus. Depois de dar uma resposta "politicamente correta" pra professora em sala de aula, o chão da sala se abre e ele é tragado para as entranhas flamejantes da terra.
E a gente ri, assim como ri de Happy Tree Friends. A gente ri e depois começa a se perguntar: "pou, o que há de engraçado em bichos fofos explodindo?". Eu não sei, mas a gente ri. Eu rio.
Só que, ao contrário de Happy Tree Friends, na sátira de Armandinho a gente não está só explodindo um personagem fofo. A gente está explodindo um personagem fofo após ele defender que temos direitos iguais, que preconceito é uma coisa que não faz sentido, que precisamos repensar algumas de nossas atitudes enquanto sociedade. O menino faz esses questionamentos e logo em seguida sofre uma morte horrível promovida por uma força invisível, desconhecida e onipotente. A própria Fúria de Deus. Essa é uma leitura possível e completamente legítima da "sátira" de Armandinho.
E foi provavelmente com essa leitura que o autor da série Armandinho e possuidor dos direitos de uso da imagem do personagem acionou judicialmente a retirada da página da "sátira" do ar.
A reação de alguns leitores foi: "ABSURDO! DITADURA DO POLITICAMENTE CORRETO! CADÊ A LIBERDADE DE EXPRESSÃO?"
Acho muito justo definir esses leitores como defensores do "politicamente INcorreto". Eles não estão preocupados com a liberdade de expressão ou com a democracia. Na real, eles apenas odeiam o Armandinho e gostariam de continuar vendo ele morrer toda vez que fala alguma coisa politicamente correta.
Na verdade, trata-se de uma disputa entre "correto" e "incorreto". Cada um defendendo sua posição. E é preciso entender a posição do politicamente incorreto, que é mais ou menos algo assim:
"Porra, esse mundo tá cada vez mais chato! Tinha estupro na idade média, tem que ter estupro na série sim! Essas feministas são umas merdas! Não dá mais pra desenhar mulher de quatro bebendo leite num pires no chão que elas vem encher o saco dizendo que isso é machismo! E querem transformar meu super-herói favorito em um negro! Como ficam minhas lembranças de infância? Pior, querem transformar aquele super-herói num GAY! Porra, qual é? Ele sempre foi espada e comeu muitas minas, como um macho de verdade tem que fazer! Porra, e agora não dá mais pra zoar nem com o Armandinho? Mas EU TENHO O DIREITO DE ODIAR O ARMANDINHO!"
Essa é a pauta.
Olha, a conversa pode até ficar mais sofisticada que isso, podem aparecer outras ideias e argumentos que tornem tudo mais complexo, mas vou falar uma coisa pra vocês: esse lance de politicamente (in)correto é um lance de disputas. São disputas por espaço, por representações, por mudanças que vão implicar em deslocamento de privilégios. Quando você entra nessa discussão, você está assumindo uma posição. Não existe neutralidade, existe negociações entre partes com interesses bem definidos.
Eu ri da sátira do Armandinho, mas eu sei que ela tem muito mais significados, implicações e intenções do que apenas fazer rir.
Então, eu só queria dizer que você tem todo o direito de ter uma opinião, mas gostaria muito que você pensasse exatamente no que você está defendendo com essa opinião.
Só pense.


sexta-feira, maio 15, 2015

Hoje eu assisti MAD MAX.

E é um filme bom assim tipo de chorar de joelhos.

Sério.

Deixa eu explicar pra você o que foi que me atropelou.

É tipo assim ser criança numa tarde de sol, depois da escola, numa época que não tinha internet.

Não ter internet é importante nessa história, porque é o contexto de um mundo onde um guri magrelo, de óculos, fracote e entediado, acha uma caixa de gibis.

Mad Max é tipo o melhor gibi que você vai ver no cinema esse ano. É irônico que seja um filme da Warner.

E eu acho que é um filme gibi sim.

Tem um desses teóricos franceses de quadrinhos, o Pierre Fresnault-Deruelle, que escreveu que "os personagens de quadrinhos foram criados para viver intensamente", Tipo, cada quadrinho é um exagero, uma expressão, principalmente aqueles quadrinhos do Jack Kirby. Pou, e Mad Max tem um bocado dessa energia nas perseguições, na vastidão do cenário, no brilho dos personagens.


Daí aquele guri magrelo quatro-olhos acha essa caixa de gibis cheia de Jack Kirbys, mas mais nos fundos da caixa ele acha aquelas edições de Conan e mais no fundo ainda acha aquelas Heavy Metal e Metal Hurlant e Moebius e onomatopéias e linhas cinéticas e desenhos sensuais e imagens fantásticas. Tipo, Mad Max tem tudo isso. Um pulsar, uma urgência, um descontrole.

E daí tem tudo o mais, mas lógico que quem se destaca são as mulheres. De repente elas estão lá e não estão lá só pra serem gostosas e servir de decoração. Gente, muito foda. Assim, é de dar um nó na cabeça porque esse gibizão parece tão absurdo e espetacular, tão distante e ao mesmo tempo tão próximo da nossa realidade. Essas mulheres e suas esperanças, esses pobres homens e sua violência cega. E perdido no meio disso tudo o tal Mad Max, talvez não tão louco assim.

Na real, talvez não fizesse diferença se Mad Max estivesse ou não lá. Tem gente que fala nessa história de sermos os protagonistas nas nossas vidas, mas o lance é que nesse filme o Max simplesmente passa pela vida dessas pessoas. Ele acaba ajudando sim, acaba fazendo a diferença, mas ele sabe que não era imprescindível. Ele dá título ao filme, é a vida dele, mas ele está só de passagem.

Acho que tem um bocado de pensar diferente as histórias, sabe. Tem esse lance de empoderamento da mulher, mas tem também a desconstrução daquele garoto fanático, alucinado e suicida e o modo como ele de repente começa a ajudar aquelas que perseguia. Acho que essa foi uma das coisas que achei mais bacanas no filme. Podemos desconstruir a sanha pela violência.

E nessa coisa de analisar e procurar sentidos, não posso deixar de pensar que os homens que monopolizam a água e mantém a maior parte da população na penúria são exatamente o mesmo tipo de homens que mantém a maior parte da população na miséria aqui no nosso mundo real. Sempre querendo mais, sempre querendo poder, sempre querendo ser foda.

Engraçado que cheguei no cinema preocupado, era sexta-feira, tava com medo de pegar fila, não pegar um bom lugar. E quando comprei a entrada e entrei no cinema ele estava vazio. Eu era a única pessoa naquela sessão de Mad Max e pensei que ia ter o cinema só pra mim, quando cinco minutos depois do filme começar entraram mais três. Vale dizer que o filme começou direto, sem trailers.

E foi essa coisa de voltar a ser um guri achando a caixa de gibis cheia daquelas coisas, daquelas cores dos anos 80, daquela falta de esperança e daquela centelha que nunca se apaga, que ainda faz a gente acreditar que pode ter algo de bom,  mesmo quando o mundo inteiro parece querer te convencer do contrário. Sei lá, é empolgante, é mágico, é inspirador.

De fazer chorar de joelhos.

Um exagero? Você nunca vai saber. Você não estava lá.


quarta-feira, maio 13, 2015

Sandman ainda é relevante?

No facebook, amigo postou:
Outro dia li um artigo que discutia se Firefly, de 2002, ainda seria relevante, visto a quantidade de ótima séries que saíram nos últimos anos. Fica a minha pergunta: Sandman, mesmo depois de quase 20 anos do seu fim, ainda é relevante, ou é apenas mais um quadrinho bom?
E daí o camarada me marcou no post e  perguntou diretamente a minha opinião.

E aqui está:

Olha, tudo depende de quais são os quesitos que você usa para definir o que é ou não é "relevante". Eu vou dar a minha opinião, tá?  
Pra mim, o primeiro ponto é a relevância histórica. Sandman fecha a década de 80, que teve obras que mudaram a maneira de pensar os super-heróis e ditaram os padrões para as histórias de super-heróis seguintes. Frank Miller e Allan Moore, nesse sentido "histórico" para o gênero super-herói, são muito mais relevantes do que Gaiman. POR OUTRO LADO, é bom lembrar que Sandman começou como uma história de super-heróis no universo DC. Aparecia a Liga da Justiça, o Asilo Arkham e tal. Ele combatia o Doutor Destino (John Dee, da DC) pra salvar o Mundo. Mas depois disso, vêm as histórias curtas "O Som de Suas Asas" e "Contos na Areia" e o grande arco "A Casa de Bonecas". Sandman continua acontecendo no universo DC de super-heróis, mas ele claramente deixa de ser uma história de "super-heróis". Então, essa é uma coisa bem legal pra se pensar: Sandman é o gibi mainstream norte-americano que decide deixar de ser gibi do gênero de super-heróis e se torna um gibi de fantasia e terror. Num mercado onde super-heróis são o gênero predominante, isso significa muita coisa.  
O lance do contexto histórico serve pra balizar as outras questões.  
Por, exemplo, "representatividade" é uma questão muito comentada hoje. Sandman apresenta personagens femininas, homossexuais e transexuais e essas personagens são representadas de forma não estereotipada. Morte, Rose Walker, Thessaly, Barbie, Hipolita Hall e outras são personagens mulheres antes de serem personagens com super-poderes. O cotidiano é fundamental. Vale destacar a minha personagem favorita, Wanda, a transexual de "Um Jogo de Você". Gaiman apresenta essa personagem com naturalidade e muita dignidade. Difícil não se emocionar com o destino dela nesse arco. E, finalmente, Desejo, que muda de gênero de acordo com quem a/o olha. Foi num texto sobre Desejo que vi pela primeira vez o uso dos artigos de gênero ("ele/ela", "a/o") evocando a pluralidade sexual da personagem. Nesse sentido, novamente, Sandman ganha pontinhos de "relevância".  
Uma coisa que me agrada muito é que, talvez por fugir das regras de conflito "herói-vilão", Sandman acaba sendo muito mais surpreendente. "É uma história sobre escrever histórias", já disseram antes. Nas páginas de Sandman vemos referências a folclore, literatura, música, eventos históricos. Além da pesquisa boa que Gaiman faz, ele tem uma prosa muito boa e consegue desenvolver personagens e situações com dramaticidade e humor. A história "Augustus" é sobre um dia que o imperador romano passa disfarçado como mendigo pra esconder seus pensamentos dos deuses. Gaiman usa essa história pra falar de abuso, de responsabilidades, de traumas e do peso dos segredos. É uma história boa pra caralho e essa é a média de Sandman: histórias boas pra caralho. Histórias que surpreendem, que dizem algo mais e que são muito bem escritas.

Fica mais interessante ainda pensar sobre essas histórias quando a gente lê sobre os bastidores, afinal, Sandman era só uma revista de linha e isso implicava em manter uma produção mensal constante. Às vezes um desenhista queria sair no meio do arco (Sam Kieth), às vezes outro desenhista tretava com a editora (Mike Dringenberg e Karen Berger), às vezes um arte-finalista cagava com a arte de toda a edição (George Pratt, quem diria, destruindo a arte de Colleen Doran em "Lua Má Nascente"...). E às vezes também Gaiman estava no meio de um arco e descobria que estava fazendo uma história igualzinha àquele livro de fantasia que tinha saído ano passado e ele ainda não tinha lido. E daí, com o começo do arco já publicado, você tinha que reinventar todo o final pra evitar comparações e ainda manter uma qualidade. Foi assim com "A Casa de Bonecas", cuja história original depois acabou se tornando "Um jogo de Você".

Por fim, o máximo da relevância nos dias de hoje: o sucesso de vendas. Talvez tudo isso que eu tenha escrito acima colabore para que leitores e leitoras nascidos nesse século XXI descubram Sandman e comprem aqueles encadernados caríssimos pra ler sobre personagens que parecem uma banda cover do The Cure. Sandman vende, ainda vende pra caralho. Por tudo isso, na minha opinião, Sandman é relevante sim.

Nunca assisti Firefly.
Abraço!

Pra quem quiser conferir o post e todos os comentários, aqui o link.

:-)

sexta-feira, maio 08, 2015

Animais empalhados

Tipo, agora tou estudando o tal do underground, os quadrinhos underground lá da década de 1960.

Em 1968, Bob Crumb e sua esposa barriguda de nove meses estavam em uma esquina de São Francisco. Tinham um carrinho de bebê e dentro dele os exemplares da Zap Comix, uma revista em quadrinhos totalmente criada por Crumb.

Na introdução da antologia Zap Comix, lançada aqui no Brasil pela Editora Conrad, Rogério Campos escreve: "Carros em chamas. Voam as pedras do calçamento. A polícia descobre, surpresa, que não pode mais avançar sobre as multidões desarmadas com tanta certeza de sair ilesa. Tempo de insurreição".

Nossa, imagina aqueles anos. A década de 1960. A música, as drogas, a revolução sexual, a literatura, o enfrentamento. Os quadrinhos.

O tal "Sistema", o tal "establisment", comprou ou esmagou a contracultura emergente. Ou você virava produto e estava ok ou você era ignorado, sufocado, pisado. De um jeito ou de outro, dava no mesmo: a neutralização da potencialidade para mudança ou para abrir pelo menos uma possibilidade de existência fora do sistema. Não é possível sair. Temos liberdade, mas é uma liberdade cheia de condições impostas.

Nossa, que loucura aqueles anos.

Daí difícil não pensar nos dias de hoje. Não sei se as coisas mudaram muito. No fim, ainda é um monte de gente com pontos de vistas diferentes tentando convencer os outros de que estão certos.

Mas o meu problema mesmo, o meu mimimi da vez, é a sensação de que falar academicamente sobre a contracultura é insuficiente. É como se a sobriedade e objetividade e racionalidade não dessem conta de falar sobre um movimento que era exatamente contra sobriedade, objetividade e racionalidade. Fica faltando algo.

É como olhar animais empalhados.

Preciso achar o que está faltando.


quarta-feira, maio 06, 2015

Tapa na cara

Sabe aquele filme Whiplash, do casal sadomasoquista de bateristas?

Nada contra o sadomasoquismo, acho que havendo consentimento, vale tudo.

Mas tem uma coisa naquele filme que me incomoda de verdade.

É a filosofia do professor que o J. K. Simmons interpreta.

Esse professor torna a vida dos alunos um inferno, porque acredita que os melhores só vão atingir a genialidade se passarem por pressões terríveis. A adversidade, melhor dizendo, a ADVERSIDADE EXTREMA é a pedagogia desse professor. A cena que acho mais absurda é quando ele dá um tapa na cara do aluno.

"Se o fulano não tivesse jogado um prato no beltrano, ele não teria se tornado Charlie Parker", diz o Simmons.

É a violência e a brutalidade que constroem o gênio, na mensagem desse filme. E muita gente aplaude de pé essa ideia.

Daí semana passada o governador Beto Richa, do PSDB, roubou aposentadorias e quando os professores foram protestar receberam tiros, bombas e pancadas.

O PSDB acredita que violência e brutalidade constroem o gênio, por isso vão deixando as coisas cada vez mais insustentáveis pra educação pública.

Violência e brutalidade é a base da fé da "elite" batedora de panelas, que veste a camiseta da supercorrupta CBF pra protestar contra a corrupção.

Nessa lógica, os proprietários de carros blindados, as madames, os empresários, os autoproclamados cidadãos de bem, acreditam que o que o mundo precisa é de porrada.

Pobre passa fome e tem que passar mais fome ainda. Desemprego precisa subir. Tem que acabar com ensino e saúde pública. Tudo o que puder ser transformado em negócio rentável, precisa ser transformado em negócio rentável. O Estado serve apenas pra legislar e garantir os direitos dos grandes empresários, que afinal pagaram bem pra colocar os nobres deputados e senadores lá.

Gente que acredita que pessoas com empregos instáveis e sem garantias "se dedicam mais ao trabalho".

O professor do Whiplash tinha ótimas intenções, mas transformou a vida de seus alunos em um inferno e levou pelo menos um ao suicídio. A galera da camiseta da CBF, os batedores de panelas, o pessoal do PSDB, os grandes empresários, todos eles têm ótimas intenções e também transformam em um inferno a vida de todo ser pensante na face da terra.

O que fazer com os adeptos da pedagogia da violência?

sábado, maio 02, 2015

Primeiro de Maio

Dia do trabalho.

Essa semana foi amarga. O governador Beto Richa, do PSDB, violentou milhares de professoras e professores. Além de terem o dinheiro de suas aposentadorias confiscado, foram atacados fisicamente por uma polícia armada com escudos, bombas e balas de borracha. Uma demonstração clara de força e do quão pouco significa o nosso trabalho.

Por que escolher a carreira de professor, se a cada ano as condições de lecionar, salários, aposentadorias, benefícios, são cada vez mais desfavorecidas? Por que escolher a carreira de professor se uma mídia cria a imagem de que lecionar é para santos abnegados que só devem ganhar o mínimo pra sua subsistência? Por que escolher lecionar se isso é entendido como adestrar pessoas a cumprirem ordens sem questionar? Por que escolher lecionar se o propósito da educação é preparar um bando de desgraçados para servir a um "mercado de trabalho" consolidado na exploração e na desigualdade?

Acho que temos que mudar muito o que se pensa sobre educação e trabalho.

Trabalho não é só servir ao empresário e ao mercado. Trabalho é a atividade na qual nos construímos como seres humanos. Trabalho é algo que fazemos para nós mesmos e para a sociedade. Enquanto trabalhadores, merecemos respeito.

Educação envolve pensamento crítico e senso de coletividade. É preciso entender que somos uma sociedade e não seremos bem-sucedidos enquanto poucos colhem benefícios em cima da exploração de muitos.

Educação é tomar uma posição. Vamos incentivar o individualismo e a competição desmedida ou vamos incentivar a solidariedade e o pensamento coletivo?

Sou professor porque o contato com alunos e alunas, a prática diária, as discussões, me alimentam. Eu me realizo profundamente com a atividade acadêmica. Mas isso não significa que eu tope fazer isso de graça, que eu não queira um bom salário, uma boa casa e uma vida estável. Assim como você ou qualquer outra pessoa.

As discussões políticas em nosso país são carregadas de um moralismo descerebrado. Com apoio de uma mídia parcial, demoniza-se o PT e se faz vistas grossas à política criminosa de PMDB e PSDB. Ignora-se o interesse dos grandes empresários por trás das decisões danosas para a sociedade.

Na construção de um perfeito mundo liberal, a educação tem que ser para poucos, para a elite. Pessoas com menos educação são mais obedientes, disse o Beto Richa.

Educação nunca foi prioridade porque boa educação ensina a pensar. É bem provável que acabem com as universidades e o ensino público no país a médio prazo. Que acabem com direitos trabalhistas e defendam uma filosofia meritocrática de "perdedores" e "vencedores" pra justificar toda a desigualdade e miséria.

Só que o mundo não precisa ser assim.

E se queremos mudar, podemos começar simplesmente não esquecendo e não deixando esquecer de quem vota pra tirar direitos de trabalhador. Podemos começar nunca mais votando nesse sorridente Beto Richa.

Podemos começar assumindo uma posição e lutando por ela. E entendendo que não se trata do "eu" e sim do "nós".

sexta-feira, maio 01, 2015

Quarenta e um

Eu nasci no primeiro de maio.

Nunca encarei a vida como uma série de lutas e conquistas. Sempre me pareceu mais com um passeio pontuado por acidentes. Ou um acidente pontuado por passeios. Um grande acidente. Como as cores de aquarela que fluem e se misturam ou uma queda. Uma longa queda. Tão longa que parece um voo.

Deus do Céu.

A gente passa a vida tentando criar um sentido. Pra uns parece mais fácil. Não sei se essas pessoas são geniais ou obtusas. Sei que me sinto parado, no meio de um lugar qualquer, olhando em volta, sem saber pra onde ir. Mentira. Antes foi assim. Daí simplesmente comecei a caminhar. Escolhi uma direção e vou pra lá. Vou pra lá mas posso mudar de ideia. Mas acho difícil. Pra lá.

Já imaginou fazer um autorretrato sem espelho ou fotografia? Já imaginou como você se desenharia se jamais tivesse se visto? Será que tenho mesmo ideia do que está acontecendo?

Uma cicatriz, uma injúria, um ferimento impossível de dimensionar. E ainda assim eu tento. E se não houver ferimento algum? E se o estrago for maior do que posso perceber? Só dá pra confiar na minha cabeça. Só dá pra dar um voto de confiança na minha cabeça. Que eu saiba compreender o que está lá fora e o que devo fazer ou não fazer. Que eu saiba que o erro é inalcançável. Ou o acerto é inevitável.

My mind is a cage 
That keeps me from dancing with the ones i love

Quarenta e um é um número primo.

Será que ele é especial por causa disso?

Qual tamanho do estrago que uma histórinha pode fazer?

Estrago pode ser sinônimo de mudança?

domingo, abril 19, 2015

Um nome

Por alguma razão ela decidiu ter o bebê.

Logo após perceber que estava grávida.

E perceber que não se importava com a dúvida sobre qual deles era o pai.

Absolutamente.

Ela imaginava, tentava imaginar uma forma de definir isso, essa consciência (ou intuição?) de se comprometer, de se doar, de repousar as suas prioridades das próximas centenas de meses sobre essa coisinha. 

Essa filha. 

Ou filho.

Quando descobriu que seria uma filha, ela lembrou-se daqueles dias de estudos, dos livros velhos, cheios de nomes. Daí ela pensou: será que existia um nome antigo e esquecido? Um velho nome de mulher que não fosse mais usado. 

Existia um nome assim?

É óbvio que ela não o encontrou nos livros, mas em um sonho.

Era de fato um capricho um tanto estranho. Mas ela pensava que nomes deveriam ser especiais e que aquela seria uma boa história para contar. 

E se Beneivolia não gostasse de seu próprio nome,  ela que trocasse quando quisesse. Assim como tudo o mais, ela que decidisse quem queria ser.

Mas ali, naquele momento, ela era a mãe e ela escolhia o nome de seu bebê, então, exatamente 177 anos, 3 meses e 12 dias depois da última Beneivolia ter deixado a face da Terra, Beneivolia chegou ao mundo.

Novamente.

As pessoas amigas a chamavam de Beni.

O nome ele manteve.

E, de fato, ele gostava de contar essa história e ver a cara das pessoas que perguntavam o porquê de seu nome.

Downton Abbey

"Muito bem. Quando terminar, volte para 
cozinha e tente não ser vista."

Downton Abbey, temporada 1, episódio 1.

Palavras chave: luta de classes, desigualdade, exploração, disputas de poder, machismo.

Sensacional.

Sensacional.

domingo, abril 12, 2015

Vai, Demolidor!

Assisti só oito episódios da nova série do Demolidor e, na minha opinião, acho que é a melhor adaptação do gênero "super-heróis" pras mídias audio-visuais.
Acho que o formato de série serve melhor pra construir a relação do espectador com o universo fictício. O ritmo e o uso do tempo no seriado permite um desenvolvimento de narrativa e personagens que acaba servindo melhor ao tipo de história que o Demolidor conta do que o formato de filme padrão hollywood.
Na real, a série tem um monte de sequências, cenas e ideias que já foram utilizadas antes. A briga no cais é igualzinha a de Batman Begins, a luta de um sujeito contra vários à medida que avança por um corredor é a mesma de Old Boy... mas acho que o legal de Demolidor é exatamente isso: ele se assume como história de super-heróis e abraça os clichês.
Acho que o Demolidor é muito mais convincente na tal proposta de ser "realista" do que o Batman do Nolan, porque, apesar de tudo, mantém os pés no chão. O trabalho de Murdock como advogado tem tanto peso na trama quanto suas atividades de vigilante. Ele não vence os inimigos com facilidade nas cenas de luta. Ele sofre pra vencer e se machuca um bocado.
Mas o melhor é que ele levanta ótimas e pertinentes discussões sobre atitudes, sobre regras, sobre as tensões entre o individual e o coletivo. Para Murdock, é óbvia a contradição de lutar contra o crime usando uma máscara e desrespeitando a lei que jurou proteger como advogado. Ele mostra claramente essa tensão e procura se justificar como sendo diferente daqueles que combate porque ele não mata. Mas, como dizem, por quanto tempo ele vai prosseguir sem sujar as mãos de sangue? E quando o fizer, ele não terá se tornado aquilo que queria combater?
O personagem que rouba a cena é o Wilson Fisk. Bruto e ao mesmo tempo frágil. Sinceramente preocupado com o bem-estar da sua cidade e totalmente nocivo com suas atitudes.
E o mais doido é que com todo esse clima de "pé no chão", de "realismo", é uma série que se passa na mesma Nova York que serviu de palco pra batalha entre os Vingadores e os Chitauri. É uma cidade que está se reconstruindo e nessa reconstrução há disputas de poder entre diversos grupos que querem se beneficiar.
Mídia, crime, meritocracia, política, cultura, maquiavelismo, facismo: todo o tipo de discussão que uma história de super-heróis pode proporcionar está muito bem embalada em Demolidor. O trabalho dos atores é ótimo e dão outras dimensões para os personagens. Até o Stick, mentor do Murdock, é extremamente fiel aos quadrinhos, o que só evidencia os absurdos de sua pedagogia militarizante.
No fim das contas, a série do Demolidor não é assim excepcional, uma obra-prima. Ela é apenas o óbvio: pegar tudo o que tem de bom nos quadrinhos, pensar em cima e adaptar pra linguagem da tv. O resultado é a série do Demolidor.


sexta-feira, abril 10, 2015

Geração de Valor

EMPRESA é um conceito que gira em torno da individualidade. A única figura central e motriz da empresa é o empreendedor, o empresário, o dono, o patrão. Ele é a razão de ser da empresa. É a ambição dele, o empreendedorismo dele, a visão, a autoridade dele, que constrói a empresa. O protagonismo é do patrão.
O funcionário entra aí apenas como mais uma peça na linha de produção. Por questões pragmáticas óbvias, é melhor para o empresário que essa peça seja eficiente, barata e facilmente substituível.
Tipo, empresário não "gera empregos" para o bem da sociedade. A sociedade é que deve dispor peças para auxiliar no crescimento do empresário. Os produtos gerados pela empresa também não visam o bem da sociedade. Eles visam preencher uma demanda em troca de dinheiro. Assim, a sociedade, além de dispor peças, também consome os produtos e proporciona lucro para o empresário.
Isto é, a sociedade existe para servir a essas pessoas empreendedoras.
Esse raciocínio individualista se alastra também para a política e cultura.
Daí aparece gente que acredita que o Estado é uma empresa como qualquer outra. Só que não é. Porque enquanto o conceito motor da empresa é o indivíduo, o conceito motor do Estado é o coletivo. O Estado deve atender demandas de toda a população, e não só de uma classe específica. Muito menos deve legitimar as práticas de exploração de uma classe sobre as outras.
O Brasil é um país singular, tem características próprias e muitas tensões sociais. "Tensão social" aqui é um eufemismo gigantesco.
Ao meu ver, o problema é justamente o cerne conceitual dos argumentos: o "indivíduo" e a "coletividade".
Se a base de concepção de visão de mundo privilegia o indivíduo, como é o nosso caso, fica fácil justificar a miséria do mundo como "falta de empreendedorismo e vadiagem" dos pobres e o sucesso dos ricos como "uma conquista merecida por muito esforço e trabalho". A real é que na nossa cultura, na nossa mídia, o pobre é visto como uma criatura singular, o empreendedor de classe média como outra criatura singular. Constrói-se a ideia, ainda que ninguém admita, que há "gente de valor", e por consequência, também há "gente sem valor". E quem define o que é valor? Quem dita as regras?
E, melhor pergunta ainda, que tipo de sociedade que essa visão de mundo produz?

domingo, abril 05, 2015

Depois do ensaio

Hoje fui no teatro.

Festival de Teatro de Curitiba. Sabe como é. Pelo menos uma vez por ano, vou no embalo da galera.

Teatro me deixa nervoso. Ansioso. Sempre fico pensando que o ator vai tropeçar, a atriz vai esquecer a fala. Sempre fico incomodado quando alguém levanta e sai. Sempre tenho medo das atuações serem exageradas ou ruins. Tenho medo da vergonha alheia.

Não tem pause, não é gente projetada na tela, não é palavra escrita no papel. É uma pessoa ali, falando e olhando direto pra você. Ela pode te ver e te ouvir.

Teatro é uma arte para os corajosos.

Quando é ruim, é muito ruim. Mas quando é bom... yeah!

Daí "Depois do Ensaio" é um texto do Ingmar Bergman e a apresentação rolou no bom e velho teatro da Reitoria, lá na UFPR.

Outras emoções do teatro: os sons da platéia. Rangidos das velhas poltronas e eu ficava pensando se montassem uma peça passada nos porões de uma caravela. Navio pirata ou navio negreiro. Aproveitar os sons do ambiente. Um novo tipo de interação com o público.

Muita tecnologia, cultura e educação por parte do público. Só falta aprender a desligar o celular. Por no silencioso já era suficiente. E sempre tem um filha da puta...

Mas a peça foi show. Muito bacana. Amor, amor, amor. Amor não realizado, amor interrompido. Existe algum amor mais marcante que esses? Mais perturbador? Mais digno de ir pro teatro? Pou, quem quer final feliz? Né?

Eu curti. Curti muito. Nada pesado, pelo menos não achei. A gente vive, a gente ama, a gente trai e é traído. E daí a gente fica velho. "Cada dorzinha uma mordida de leve da morte que vai levando a gente de pedacinho em pedacinho".

E, no fim, o que preocupou o velho Henrik foi não ter ouvido os sinos.

É uma boa vida.


quinta-feira, abril 02, 2015

Certeza

As coisas podiam ser mais simples.

Tipo a maçã do Newton.

Mas é tudo muito enganoso. A maçã do Newton parece simples, a gravidade parece simples, mas daí você vai olhando mais perto, mais perto, vai vendo a relação de corpos celestes, vai tentando entender como as coisas se relacionam e vai precisando de cada vez mais cálculos, mais estudo, mais pesquisa. E sempre que a gente resolve alguma coisa, aparece outra. E às vezes aquilo que a gente tinha por certeza se mostra um engano. E, a despeito de todas as nossas conjecturas, esforços, pensamentos e ciências, o Universo permanece. Já estava lá bem antes de tudo isso e continuará depois.

As coisas podiam ser mais simples.

Corpos celestes são fascinantes, mas vamos convir que os corpos terrestres, esses mundanos, que assistem tv e discutem política, futebol e religião apaixonadamente, também são difíceis de entender. Relações de poder, classes sociais, sexo, gênero, ideologias. Amor e seu contrário.

Tudo parece mais pesado, sabe. Por um momento, quero dizer. Há o peso da responsabilidade pelo que dizemos, pelo que assumimos, pelas escolhas que fazemos. Tudo é muito sério, tudo tem consequências.

Por outro lado, às vezes a gente se distrai. Se surpreende. Há muitas coisas fora da time line, que não vão ganhar espaço na pauta. Muitas coisas que estão aí, mesmo que a gente lhes negue relevância.

Não acho que tenha nenhuma teoria, ciência ou pensamento que consiga dar conta de todas essas possibilidades, de todos esses momentos. Contradições, conflitos, tensões tão intensas e cruciais para uma perspectiva e tão sem sentido para outra.

Tem certezas na vida que servem de apoio, que dão sentido, que ajudam a seguir firme numa direção. Mas se a gente olhar bem...

As coisas podiam ser mais simples.

segunda-feira, março 30, 2015

Duas citações

Primeira citação :
"(...) a cultura é a organização simbólica dos significados e valores de uma determinada sociedade, sendo, portanto, patrimônio de todos. A produção cultural é fundamental na reprodução da sociedade e está profundamente imbricada em seus conflitos e lutas, cujas marcas moldam a própria estruturação dos modos de dar sentido à vida, sejam eles obras de elaboração artística densa ou tipos de organizações e instituições sociais. Fazer crítica, mais do que avaliar obras e decidir quais devem ser disseminadas ou esquecidas, é um instrumento de descoberta e interpretação da realidade sócio-histórica inscrita na produção cultural." 
(Maria Elisa Cevasco, prefácio à edição brasileira de "Política do Modernismo", de Raymond Williams, publicado pela editora Unesp em 2011)

Segunda citação:
"We are the Crystal Gems
We'll always save the day
And if you think we can't
We'll always find a way
That's why the people of this world
Believe in
Garnet
Amethyst
and Pearl...
and Steven!" 

(canção tema de abertura da série animada "Steven Universe", composta por Rebecca Sugar, cuja primeira versão foi tocada no episódio "Piloto" que foi ao ar nos EUA em 21 de maio de 2013)

sexta-feira, março 27, 2015

Making sense

Pelas manhãs trabalho na biblioteca.

Agora, nesse momento, atrás de mim, dois estudantes. Falam em limites, valor de x, funções. Matemática.

Eu estou pensando como resumir a história da New Left pra incluí-la na minha tese.

A New Left foi um movimento de esquerda (dããr) que surgiu na Grã-Bretanha depois de 1956. Até 1956 muitos intelectuais britânicos de esquerda se reuniam em torno do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB). Em 1956, eles, junto a cerca de um terço dos membros, abandonam o partido comunista, em protesto e discordância com as atrocidades cometidas pelo governo stalinista e reveladas pelo primeiro-ministro Nikita Kruchev durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Indignados, o pessoal de esquerda decidiu iniciar um novo movimento, a tal New Left.

Sobre a União Soviética, stalinismo e comunismo, o Terry Eagleton escreveu em seu livro Depois da Teoria:

"(...)uma coisa é fazer uma revolução, outra coisa é sustentá-la. Na verdade, para o mais iminente líder revolucionário do século XX, o que deu vida a algumas revoluções foi também o que, em última instância, as levou ao fracasso. Vladimir Lenin acreditava que o próprio atraso da Rússia czarista era o que havia ajudado a tornar possível a revolução bolchevista. A Rússia era uma nação pobre de instituições cívicas que garantissem a lealdade dos cidadãos para com o Estado e, assim, ajudassem a evitar a insurreição política. Seu poder era centralizado, ao invés de difuso; coercitivo, ao invés de consensual. Estava concentrado na máquina do Estado, de modo que derrubá-lo era o mesmo que se apossar, de um só golpe, da soberania. Mas foram essa pobreza e esse atraso que contribuíram para por em perigo a revolução, uma vez feita. Não se podia construir o socialismo num ermo econômico, cercado por poderes mais fortes e politicamente hostis, em meio a uma massa de trabalhadores e camponeses sem capacitação e analfabetos, carentes de tradições de organização social e autogoverno democrático. A tentativa de fazer isso requereu as medidas de força do stalinismo, que acabaram por subverter precisamente o socialismo que se estava tentando construir."
Então.

Em 1956 intelectuais se desligam do Partido Comunista da Grã-Bretanha por causa da grande decepção com a União Soviética. Muitos desses intelectuais, como Raymond Williams, são oriundos da classe trabalhadora e observam a questão das diferenças de classe e exploração da classe operária pela classe burguesa (a velha história que a gente já ouviu e conhece bem...). Mas, mais do que isso, esses intelectuais percebem que o mundo está se reconfigurando e que as disputas de poder podem se revelar em diversas outras instâncias. Talvez além da luta de classes ou talvez exatamente a mesma lógica da luta de classes levada a outras dimensões: questões raciais, questões de gênero, etc.

Mais ainda. Além de todas essas questões, um sistema econômico que dita as regras de praticamente todas as relações humanas do globo. Do macro para o micro. Das relações de soberania entre países que detém diferentes papéis de poder fundados diretamente em torno do capital até as mais inócuas relações amorosas que são pensadas em termos de "custos e benefícios" ("ah, ele/ela às vezes é desagradável, mas trabalha bastante e ganha o suficiente, então compensa e a gente continua junto").

E eu leio essas coisas e penso nas pessoas mortas por decisões políticas na URSS e nos EUA, porque no fim das contas sempre tem alguém com autoridade que vai fazer um cálculo e decidir que certos benefícios justificam sacrifícios humanos.

E atrás de mim os dois ainda estão falando sobre o valor de X.

Não acredito em uma hierarquia de conhecimentos, sabe. Não acho que tenha um conhecimento com mais valor ou mais relevância do que outro. De certa forma, acredito que está tudo conectado.

Mas confesso que, intimamente, fico meio perdido, sem ânimo, sem vontade de fazer nada, porque, quando escuto as pessoas dedicando tanto esforço pra entender as matrizes, limites e funções e quando lembro do tempo que gastei na minha vida estudando exatamente as mesmas coisas, tentando entender lógica e equações e percebo o quanto esse esforço de entender a complexa matemática parece afastar e isolar mentes de entender pessoas e outras lógicas e disputas de poder... quando penso em tudo isso eu desanimo.

Podemos construir prédios extraordinários e fazer máquinas com toneladas de peso ganharem os céus em voo, cruzando distâncias absurdas em horas. Podemos redimensionar o mundo em tempo e espaço. Mas, como humanidade, como totalidade, a maior parte de nós ainda nem tem água encanada.

No meio disso tudo, ainda encontro pessoas que tiveram contato com a miséria e violência, com a diferença brutal de concentração de renda e suas consequências, e que divulgam e endossam com convicção um texto que diz, literalmente, que o capitalismo trouxe luxo aos pobres.

Engenheiros extremamente inteligentes que contam piadas de estupro e acham isso completamente normal. Pessoas que divulgam informações mentirosas para combater a corrupção. Pessoas que não conseguem perceber as contradições entre o que acreditam e o que praticam.

O que eu tenho é essa sensação desgraçada de que tem algo muito errado, de que estou irrevogavelmente comprometido com um projeto de humanidade falido. Terry Eagleton, no mesmo livro, escreve que a esquerda tem uma coleção de derrotas em sua trajetória. Muitos outros intelectuais de esquerda concordam com ele.

Ao meu ver, o pensamento de esquerda é coletivo, inclusivo, preocupado com a humanidade como um todo. Se a maioria de nós vive na miséria, não é por falta de esforço ou por uma superioridade "natural" dos bem-sucedidos. Se a maioria de nós vive na miséria, nosso projeto enquanto humanidade não deu certo. O mundo deveria ser colaborativo e não competitivo. Essa é a utopia, a direção pra onde eu gostaria que caminhássemos.

Obviamente, não tem dado muito certo. Há esquerdistas machistas, racistas, hierarquistas e tão obtusos quanto o pessoal de direita que costumam criticar.

Nas simplificações de nosso tempo, a gente carinhosamente chama reclamações e lamentos de "mimimi". É pra diminuir, pra tornar essas reclamações e suas causas uma coisa menor, inócua, uma bobagem. "Tem miséria demais no mundo". Mimimi. Transforma-se angústias e miséria em mimimi. Bobagem. O mundo é assim.

É só trabalhar duro que tudo vai dar certo. É só ter fé em Deus.

Talvez tudo seja mesmo uma grande bobagem. Uma gigantesca, complexa, terrível e cruel bobagem.