sexta-feira, janeiro 30, 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Eu não consigo colocar em palavras o quanto gostei desse filme, sabe.

Não que ele seja grande coisa, não sei se ele é bom de verdade, nem se é possível uma coisa não ser boa de verdade absolutamente.

Mas ele bateu forte em mim. Uma sintonia muito forte com aquele filme. Pou.

Tipo, essa aflição do personagem Riggan Thomson em ser importante, em ser alguém que vai fazer falta, alguém relevante. Daí o filme leva essa questão da relevância pra várias perspectivas. Relevância no sentido de fama, de reconhecimento vaidoso? Ou relevância no sentido de uma sincera intenção de produzir algo de valor para os outros? Prepotência? Delírio? Solidão? Sei lá, tanta coisa parece estar por trás desse Riggan. Como se quisesse provar a si mesmo e a todo o Mundo alguma coisa que não sabe definir se é futilidade ou algo realmente importante. Ah, essa angústia do tolo, do perdido, do ignorante.

Sabe como?

Ser assombrado por algo que você não sabe se é uma tolice ou algo inestimável?

What We Talk About When We Talk About Love?

É o título da história curta de Richard Carver que o personagem Riggan Thomson quer adaptar pro teatro na Broadway. Então, entenda, é um filme sobre um ator frustrado que quer provar ter real importância reconhecida por pessoas que ele escolheu. Ou pelo Mundo todo. Daí tem o filme, que dá a fantástica ilusão de ter sido filmado sem nenhum corte. Tipo assim, é como se você estivesse lá no filme, em primeira pessoa, andando com os atores pelo prédio do teatro, pela quadra, indo no bar e tals. A impressão é que você ESTÁ DENTRO do filme e daí a "realidade" do filme se mistura com a "ficção" da peça de teatro, que'é real, de verdade, escrita pelo Richard Carver, que não é personagem, é gente de verdade. E daí dá um nó, é como se você estivesse dentro de uma ilustração do Escher e você vê o filme que entra na peça que entra na realidade que volta pra você que entra no filme. E isso se repete com a citação a outros filmes, a outras pessoas reais, a metalinguagem.

Do caralho. Pou, curti demais. Uma impressão de "realidade" fudida, a realidade dos sonhos, ensandecida, e daí tem o sonho dentro do sonho e às vezes o absurdo é nada e às vezes é viral de sucesso na internet. Milhões de views. Assista o filme que você vai entender.

Que coisa mais doida.

E será que a vida não é assim? Um emaranhado de ilusões, interpretações erradas, dimensionamentos equivocados e realidade imensurável? O que faz uma pessoa querer se matar? O que faz uma pessoa querer continuar viva?

Sei lá se esse filme é bom ou não. Sei lá se existe uma régua ou escala pra medir absolutamente o valor de alguma coisa ou de alguém. Sei que achei esse filme alucinante.

E tem o Michael Keaton, pou.

Gung ho!



(Esqueci de comentar: impressionante a quantidade de pessoas sozinhas na sessão. Era sessão das cinco da tarde, tinha pouca gente mesmo, mas as pessoas sozinhas estavam em maior número que as acompanhadas. Achei engraçado ver a quantidade de pessoas com os acentos ao lado vagos. Várias ilhazinhas solitárias.)

Yey!

E hoje é dia do quadrinho nacional!

Uhu!

Uma característica bacana dos quadrinhos é que o acesso à sua produção é bem democrático. Depende de um suporte pra sustentar a página, que pode ter qualquer formato, ser feita no papel ou no tablet. Assim, pra fazer quadrinhos basta ter a vontade.

E isso a gente vê muito na produção nacional de HQs. Muita gente desenhando, escrevendo, contando suas histórias. Uns seguem os modelos importados, a estrutura de histórias e o tipo de personagens. Outros extrapolam, colocam elementos de artes plásticas, falam de temas como racismo, homofobia, machismo. Nesse sentido, a produção nacional de quadrinhos é extremamente rica.

Vale ressaltar o interesse de editoras como a Nemo, a Balão, a Zarabatana, o grupo MSP, que estão construindo um espaço no mercado para os autores e autoras nacionais.  E o trabalho dos jornalistas, blogueiros e fãs que fomentam todo esse interesse com artigos, entrevistas, discussões. Numa perspectiva comercial, ainda tem muito pra ser batalhado, pra que o quadrinho se estabeleça efetivamente como profissão, mas com cetrteza estamos vivendo um período muito animador.

Eu fico muito feliz de fazer parte disso, de conhecer essa galera que produz e curte quadrinhos.

Pra celebrar, quero divulgar essa história curta, que fiz pro álbum Um rock para Caçador.

A ideia era fazer histórias com alguma figura famosa do rock, mas essa história tinha que se passar na cidade de Caçador, em Santa Catarina. Foi uma história feita num período meio complicado pra mim, mas gosto do resultado. Acho que ficou bem honesto.

E aqui está...


quarta-feira, janeiro 28, 2015

Alan Moore vs J.R.R. Tolkien

Uma ideia bem doida pra ilustrar hegemonia, ideologia e a cultura como campo de embate entre diferentes visões de mundo me apareceu enquanto eu escutava o Nerdcast 435, sobre Criação de Mundos. Nossa, tanta coisa me veio na cabeça escutando esse programa...

Primeiro aquela ideia que, por mais distante que um mundo de fantasia pareça do nosso, ele sempre trás em si muito mais coisas da nossa realidade do que elementos realmente novos.

As análises do Jovem Nerd e seus amigos começam justamente pelo Patrono Supremo dos Escritores Fantásticos, o senhor JRR Tolkien. Eles comentam que o universo ficcional de O Senhor dos Anéis é baseado mais em um conceito de religião do que de ciência. A base desse argumento é a de que a Ciência é (mais ou menos) algo construído coletivamente na base da incerteza e na constante comprovação do que se sabe. Ok, a Ciência é algo beeem mais complexo que isso, mas pra efeitos de arguição o que importa aqui é a oposição da Ciência enquanto incerteza com a caracterização da religião como algo ligado com a certeza, a questão da fé e dos dogmas.

Nesse sentido, o pessoal do Nerdcast (acho que o Jovem Nerd) diz que as coisas em O Senhor dos Anéis já são dadas e não há espaço para discordâncias. Todos sabem como o Mundo começou, todos estão felizes e aceitam seu papel. Por exemplo, quando o Aragorn vira rei, todos celebram. Não há dissonância, não há disputas de poder, não há intrigas ou negociações. Pelo menos dentro do que interessa ao narrador e, talvez, ao leitor de O Senhor dos Anéis, problemas como pluralidades e tensões dentro de uma mesma sociedade são irrelevantes. Como diz o Jovem Nerd, não tem nenhum orc que questione sua "natureza má" e queira seguir a vida sossegado no seu canto.

O ponto que me chamou a atenção é esse: em O Senhor dos Anéis, há uma forte questão de escala de superioridade entre os tipos. Elfos são superiores. Os outros são inferiores. Ninguém questiona isso. Tipo, na minha opinião, o raciocínio narrativo de O Senhor dos Anéis parte do conceito de que as coisas tem uma ordem pré-estabelecida, natural, onde cada um ocupa o papel que lhe cabe sem discutir, uns são superiores, outros são inferiores e o que surge para mudar esse quadro, o "diferente", é o "mal", é bruto, nocivo, indigno de diálogo e impossível de conviver. Essa é, pelo menos, uma das lógicas de O Senhor dos Anéis: ele pode ser lido como uma obra conservadora, que prega a manutenção do status quo e considera que todos os que vivem ali estão de acordo e satisfeitos com a ordem das coisas. Lógico que essa leitura é encoberta por todas as outras: o simbolismo da Segunda Guerra Mundial, o companheirismo, o sacrifício para superar desafios, etc. Ainda assim, com base no que o Jovem Nerd falou, eu penso que O Senhor dos Anéis de certa forma simplifica algumas coisas fundamentais da realidade humana, como a diversidade, o convívio e as tensões.

Daí entra a comparação com o mundo fantástico de Watchmen. Apesar de não falar sobre mitologia europeia, a monumental história em quadrinhos de Alan Moore tem em comum com a obra de Tolkien o fato de ser a representação de um mundo fantástico. Moore pega a ideia dos super-heróis e desenvolve um mundo que é muito parecido com o nosso, ainda que totalmente diferente. Na criação de Watchmen, a tal incerteza da Ciência aparece constantemente. Uma sucessão de acasos, de coincidências fantásticas, vai invalidando toda certeza que se faz do mundo.

O extraordinário Dr. Manhattan surge de um acidente impossível. Sua presença muda a ordem mundial, assim como a presença de um ser como o Super-Homem mudaria nosso mundo. A partir das habilidades do Dr. Manhattan surgem mudanças na Ciência, nas artes, na cultura. E a ideia de superioridade não é cristalizada, como na obra de Tolkien. Ainda que considerado praticamente onipotente, Dr. Manhattan acaba sendo sobrepujado por Ozymandias. Em Watchmen, todos as certezas caem por terra: planos complexos e infalíveis saem do controle, a noção de destino e livre-arbítrio são questionadas.

Nesse sentido, acho que a obra do Moore é mais instigante do que a do Tolkien. Não se trata de comparar temas ou tramas ou resoluções dramáticas ou nada assim. Eu acho que Moore é mais instigante do que Tolkien, simplesmente porque Watchmen questiona mais as certezas, está mais em sintonia com um mundo caracterizado por uma diversidade e pensamentos e culturas que não mais se enquadra na visão simplista de ordem estabelecida em O Senhor dos Anéis. 

A obra de Tolkien é muito foda, mas eu acho incrível como ela é conservadora e como ela acaba reforçando as ideias de que o status quo é bom, que ocupamos os lugares que devemos, que estamos todos satisfeitos, que tudo está certo e que o que for diferente pode (e provavelmente será) uma ameaça. Já Moore mostra o diferente e as tensões como inevitáveis, questiona autoridades, apresenta uma pluralidade de pontos de vista.

Daí vem a coisa que me incomoda com o Tolkien: sua influência. Uma galera que escreve fantasias que se passam em mundos europeus, com criaturas fantásticas que pertencem a culturas que nos colonizaram e dominaram. Não é só a iconografia dessas fantasias europeias, mas a naturalização do discurso de seres superiores e inferiores, de deslegitimação do diferente, de imposição de uma ordem, da reafirmação de uma ideologia baseada em valores que trazem implicitamente racismo, machismo, conformismo e outros conceitos que reforçam a manutenção do status quo.

A real é que repetir e repetir certas ideias, certos papéis, certos contos de fada, ajuda a construir um sentimento de certeza. Mesmo que seja um mundo mágico, escapismo puro, vamos construindo uma certeza sobre sentimentos de justiça, sobre simplificações, sobre romantismos e relações entre homem e mulher, entre o personagem que nos "representa" e o personagem que representa "o outro".

Apesar de tudo, somos "religiosos", queremos ter certeza de como as coisas são. Nossas histórias favoritas, nossos livros, filmes, quadrinhos, novelas e todas as bobagens queridas, elas nos ajudam a ter certeza. Ainda que não saibamos bem do que.

E aqui estamos nós.

segunda-feira, janeiro 26, 2015

Apostas

O Érico Assis divulgou hoje, no site A Pilha, mais uma leva de quadrinistas e seus planos pra 2015.

Entre eles, estou eu.

Mandei uma arte com os dois protagonistas da nova história, Christian e Sabine.

O texto que enviei pro Érico:
Estou produzindo um álbum que deve estar pronto em setembro. Em conjunto com a publicação, pretendo lançar a mesma história em capítulos como um webcomic. Minha intenção é experimentar esse formato e tentar alcançar um número maior de leitores. Vamos ver se funciona. Essa nova história segue o estilo do meu primeiro álbum, As coisas que Cecília fez, mas não será uma continuação nem terá os mesmos personagens. Será um álbum com mais páginas e a trama se passará especificamente no inesquecível ano de 2014. Ainda não tenho um título para o trabalho, o roteiro não está completamente fechado, mas a história já está sendo desenhada. Na imagem, os dois protagonistas: Christian e Sabine.
É tudo muito simples.

É só escrever e desenhar tudo e mandar imprimir e por no site. Simples. É só fazer.

Vambora.

(Na verdade, é bem mais fácil do que parece. É trabalhoso, muito trabalhoso, mas é mais fácil do que parece. Então, por que tenho essa sensação de que estou topando um desafio assustador? Por que tenho esse medo, esse receio, como se estivesse me comprometendo a construir sozinho uma muralha de pedras em torno da cidade? Medo, preguiça, noção do tipo de comprometimento que um projeto desses requer? Meses desenhando, pesquisando, esboçando, pintando. Um prazo estabelecido e ainda nem tenho certeza de quantas páginas o projeto realmente vai ter. Algo entre 80 e 120, imagino. O que aprendi sobre lidar com ansiedade e insegurança é basicamente não pensar muito. Fazer, fazer, trabalhar feito um louco, encher a cabeça de podcasts e música e tentar conciliar isso com o projeto do doutorado. Tudo é mais simples do que parece, a gente só precisa seguir em frente, manter um ritmo, saber parar pra descansar. Não é tão difícil. Dá pra conseguir. Pode ser feito. Eu já fiz uma vez. Vamos lá. Vamos lá. Eu consigo.)

sábado, janeiro 24, 2015

SAGA

O lance desse quadrinho é fantasia. Ou ficção científica.

Mas acho que tá mais pra fantasia. Alienígenas, guerras interplanetárias, magia.

Na real, o grande lance desse quadrinho é família. Tipo, como constituir família em condições extremamente adversas.

Daí tem esses dois personagens super-queridos, o Marko e a Alana. Ele com aqueles chifres de carneiro e ela com as asinhas de fada. A história começa com o nascimento da pequena Hazel, a primeira filha do casal. O problema é que esse casal é formado por desertores de dois exércitos envolvidos numa guerra de décadas.

O que o bom e velho Brian K. Vaughan faz é uma trama que seria como se uma soldada israelense se apaixonasse por um palestino no meio da faixa de Gaza. Pegue isso e jogue num universo ficcional muito parecido com Star Wars, mas muito mais colorido e doido, cheio de árvores que são naves espaciais e puteiros cósmicos.

Saga é de encher os olhos e o coração.

Tramas e personagens carismáticos à parte, o que me fascina em Saga é que a grande aventura é, no fim das contas, constituir uma família.

Acho que juntar-se com um companheiro ou uma companheira é algo muito ousado.

Porque as pessoas mudam. Elas crescem, deformam-se, trocam de cheiro. Todas as pessoas fazem isso. E ter um filho então. Colocar uma criança nesse mundo insano, bruto, malvado.

Precisa ter muita coragem pra fazer isso.

Acho que famílias funcionam quando as pessoas querem que funcione. É um trabalho de duas pessoas. Não é só amor, precisa ter decisão, precisa ter trabalho, boa vontade.

Ainda assim, amor é fundamental.

Amor é uma coisa muito louca. Se eu fosse definir, diria que amor é ter liberdade total pra sair quando quiser e obrigação nenhuma de ficar e, ainda assim, permanecer. Acho que uma família se constrói com isso.

É irracional, eu sei. Pragmaticamente falando, não faz sentido nenhum. Não num mundo em que precisamos nos valorizar, construir nossa identidade, estabelecer nosso futuro, tornarmo-nos plenos como seres humanos, principalmente no plano individual.

Ter um emprego, uma carreira, uma obra, lutar por reconhecimento político de um grupo social, sobreviver dentro desse sistema de trocas. Ser autossuficiente. Isso tudo não é incompatível com partilhar a vida com alguém e apostar em uma família, conceito que, como várias outras instituições humanas, carrega um ranço de opressão.

Esse é  o mundo onde acho que estou vivendo. É a minha percepção. Um mundo de incertezas e exigências implacáveis, sem muito espaço pra empatia e gentileza. Posso estar errado, mas pensar em ter família nesse meu mundo é um ato muito corajoso, arriscado, imperfeito e assustador. E, acima de tudo, fascinante e inestimável.

Uma verdadeira Saga.

Quem sabe um dia?


sexta-feira, janeiro 23, 2015

Óleo fervente em gravidade zero

Óleo fervente em gravidade zero. Já fizeram isso? Eu não lembro.

Alguém deve ter feito. Imagino que ia ser uma cena muito legal. Se eu fizesse alguma ficção científica ou fantasia, ia tentar meter uma cena dessas.

Adoro essas coisas, esses escapismos maravilhosos. Os meus favoritos são Doctor Who, Star Trek, Blade Runner, Luke e sua turma. Gosto muito.

Mas quando sento pra escrever, eu prefiro fazer coisas no mundo real. Porque eu acho que criar mundos fantásticos realmente convincentes e detalhados dá muito trabalho. É um desgaste a mais. E acho que é muito difícil fazer alguma coisa a altura do que muita gente anda fazendo por aí. Sei lá. Não me acho capaz, tenho medo de tentar.

Só que quando eu escrevo minhas histórias aqui no nosso mundo real, eu tento me prender bem a ele, sabe. Eu quero aproveitar esses detalhes do cotidiano, do meu cotidiano e talvez de todos nós. Quero meio que fazer um diário gráfico, um desenho de observação desses objetos, formatos, inquietações, e a partir disso tentar jogar um pouco daquela fantasia de Doctor Who e etecéteras. Jogar nas entrelinhas, nas sutilezas, não referências à uma série ou filme específico, mas um tipo de estrutura de sentimento que caracteriza essas obras.

As tais canções com sabor de madrugada da Cecília.

Uma despedida na rodoviária, caminhar na rua no fim da tarde, beijar na boca, rir sentado no meio-fio comendo um dógão, sentir o zumbido súbito do silêncio ao ar livre e a memória da sonzeira ainda tão viva. Como despertar de um sonho gostoso, mágico e saudoso que deixa um gosto bom na alma.

Na minha cabeça tudo parece intenso, verdadeiro. Será que consigo por isso no papel? Será que dá pra transformar esse barato todo de sensações e angústias em alguma coisa digna de ser partilhada? Compreensível? Afinal, como desenhar essas coisas que nem consigo definir? Tenho vergonha dessa pretensão toda, tenho vergonha de confessar essas coisas.

É como se tivesse um filme de sonho indefinido e muito, muito bem intencionado dentro da minha cabeça e eu tivesse vontade de transformá-lo em realidade e medo de ver que o resultado não vai ser lá grande coisa. A boa e velha tensão "expectativa versus realidade".

Tento baixar as expectativas e elevar a realidade.

Mas posso dizer que estou dentro do jogo.

Bem ou mal, já escrevi um livro.

;-)



(Essa pira veio assistindo o desenho Titan A.E. no Netflix. Lá quase tem uma cena de óleo fervendo em gravidade zero. Já a imagem é do episódio Gotcha! de A hora da aventura. Gostei muito desse episódio. )

quarta-feira, janeiro 21, 2015

Doido, doido, doido

Sonhos de poder, sonhos de loucura, sonhos de morte.

Hoje eu li uma biografia do Freud em quadrinhos. Olha, não conheço nada do Freud. Ou conheço pouquíssima coisa, praticamente o senso comum. Então, esse gibi me pareceu bem legal. Não porque tenha informações corretíssimas, mas porque é bem informal, bem sucinto e bem despretensioso.

As autoras Corinne Maier e Anne Simon brincam com a linguagem dos quadrinhos, criam umas páginas bem bacanas mais pra apresentar as ideias e os conflitos do que apresentar uma trajetória biográfica convencional. Com isso, a impressão é que estamos vendo um sonho. Gostei.

Eu não tenho uma opinião formada sobre o Freud, mas acho muito bacana que ele tenha emplacado a ideia de estudar a mente humana, de encarar e tentar sistematizar, ainda que sabendo ser impossível, essas coisas intangíveis que nos regem, esses ciúmes, esses ódios e desejos.

"De qualquer modo, de qualquer modo que se aja, sempre agimos mal", diz o Freud na hq.

O que me faz pensar noutra coisa que vi hoje, um vídeo daqueles TED talks com um mágico, que dizia que o mágico é a profissão mais honesta, porque ele te diz que vai te enganar e efetivamente te engana, te ilude. (É um video bem bacaninha, vale assistir).

Outra profissão que promete te enganar é a de contadores de histórias. Escritores, cineastas, quadrinistas. Contar histórias é uma coisa doida porque a história em si é uma história, uma narrativa, um sonho. Romeu e Julieta não morreram, o Batman nunca existiu, a vida de Freud não foi aquilo que está no gibi. Ainda assim, essas coisas todas não são mentiras.

Verdade é outra coisa engraçada.

Eu gosto da galerinha da Ciência, gosto de assistir Cosmos, de ver os amigos que piram postando notícias sobre a engenhosa engenhoca que pousou no cometa no dia 12 de novembro passado (muitas coisas  extraordinárias aconteceram num 12 de novembro). E realmente, é tudo muito extraordinário.

Olhar para o céu e tentar entender o universo, trabalhar em conjunto, gerações de curiosos, até descobrir que os planetas dançam dentro de órbitas, que existem buracos negros, que somos feitos da poeira de estrelas. Um trabalho gigantesco de esforço intelectual e pesquisa pra codificar o desconhecido em algo compreensível.

Tudo é verdade e tudo são histórias e tudo é uma tentativa de entender esse universo, essas mortes, essas breves existências. A gente quer entender, a gente quer construir um sentido.

Ainda assim, com ou sem o entendimento, as coisas continuam acontecendo. E além da dança dos planetas e estrelas, tem a dança dos desencontros, da solidão, das mágoas e esperanças. Tanta coisa pra ser mapeada, tanta coisa pra ser entendida, tanta coisa pra virar história.

Se sumíssemos da face da terra, se o mundo ficasse só para os castores, golfinhos e demais bichinhos e florestas e tals, ainda assim as galáxias continuariam seus movimentos. Nós transformamos as coisas em histórias, mas se não existíssemos essas coisas continuariam sendo elas mesmas?

Gosto de pirar, gosto de viajar sem rumo por aí, sabe. Não acho que a gente seja insignificante ou que as coisas não tenham um sentido. Só acho que as coisas talvez não tenham apenas UM sentido.

Quem sabe?

Who knows?

Who nose?

terça-feira, janeiro 20, 2015

Saudade

Saudade é uma coisa muito lazarenta.

Você tá ali de boas e de repente vem do nada a lembrança de um jeitinho de falar, um jeitinho de bater na porta, uma voz, um cheiro, um toque, uma franjinha caída sobre o olho.

Primeiro vem a lembrança, logo atrás vem a ausência e daí a certeza vem pesada com os dois pés no peito. A certeza de que nunca mais vai se ouvir a voz, sentir o toque.

Certeza de que nunca mais. Isso é muito doído. Jesus, isso dói pra caralho. Como dói, meu Deus.

Nunca mais é muito tempo pra uma vida tão curta.

Nunca mais não cabe nessa vida, arregaça a alma, fode com a cabeça.

Daí a gente fica quieto, deixa a saudade correr pelos olhos, respira.

(Respira. É importante.)

E segue em frente.




domingo, janeiro 18, 2015

Poder da expressão







Esse material foi divulgado pelo facebook do meu querido Neil Gaiman, que é o autor das palavras. A arte é de Chris Riddell.

Concordo muito com o que ele diz em seu credo. Numa tradução livre:

Eu acredito que reprimir ideias espalha ideias
Eu acredito que pessoas e livros e jornais são veículos para ideias, 
e acredito que queimar essas pessoas será tão inútil quanto explodir os arquivos dos jornais.
É tarde demais.
É sempre tarde demais.
As ideias estão soltas, escondidas atrás dos olhos das pessoas, esperando em seus pensamentos.
As ideias podem ser sussurradas
Podem ser escritas nos muros na calada da noite
Podem ser desenhadas
Eu acredito que na batalha entre armas e ideias, as ideias irão eventualmente vencer.
Porque ideias são invisíveis
e elas persistem
e, às vezes, elas até são verdade
mas ela se move

Mas eu também acredito em outras coisas sobre ideias.
Ideias podem matar.
Ideias trazem em si disputas de poder.
Ideias podem desencadear revoluções e oprimir gerações.
Ideias podem transfigurar pessoas de maneira brutal.

A gente fala muito em liberdade de expressão, mas pensa pouco no poder da expressão.
Não foram as charges do Charlie Hebdo, mas provavelmente a maneira como as ideias foram conduzidas pela imprensa que levaram pessoas a pichar a Mesquita Brasil em São Paulo e a cuspir e jogar pedras em muçulmanas, conforme o texto de Anna Virginia Balloussier na Folha.

(Se você reparar no relato de Balloussier, vai perceber que os atos de violência citados são de homens contra mulheres, então coloque misoginia na sua lista de ponderações).

A real é que fica a ideia de que os todos muçulmanos são maus. Mataram os desenhistas por causa de desenhos e por isso todos os muçulmanos são maus, fanáticos, ignorantes. O Islã é mau. E daí aparecem os vídeos e links mostrando as maiores atrocidades, todas cometidas por muçulmanos, e o raciocínio do amigo só pode ser um: indignação e vingança.

E as ideias se espalham, feito fogo em mato seco. E vai lá o homem de bem defender a liberdade de expressão cuspindo e jogando pedras em muçulmanos.

Mataram os artistas do Charlie Hebdo, isso é inaceitável. Tão inaceitável quanto qualquer outro crime, como os crimes religiosos na Nigéria, que ocorreram praticamente junto com o atentado ao Charlie Hebdo, mas, afinal eram 2000 negros mortos num país africano e é mais interessante falar do atentado contra a liberdade de expressão de artistas da França. Falando assim, parece estupidez, mas é a tal verdade, a tal ideia: na nossa mídia, a vida dos brancos vale mais que a dos negros. A expressão dos brancos vale muito mais do que a dos negros. As ideias dos brancos, europeus, ocidentais, valem muito mais do que as ideias de mulheres, muçulmanos, negros e qualquer um fora de um circuito muito bem estabelecido pela hegemonia.

É um turbilhão de desigualdades, de assimetrias e de detalhes e nuances que precisam ser pensados com calma, sem pressa e, principalmente, sem bílis.

Mas não é o que acontece.

O que nos interessa é mostrar o dedo médio, é chamar o outro de estúpido pelo que ele acredita. É dizer que ele não tem o direito de se ofender, porque nós sabemos e decidimos aquilo pelo que vale a pena se ofender ou não.

Ideias não são inocentes e algumas podem ser inacreditavelmente devastadoras.

Não existe como proibir a liberdade de expressão porque é impossível controlar e cercear todas as formas de expressão e ideias. Mas seria legal a gente começar a se ligar também no poder de expressão, nos efeitos que nossas expressões podem ter.

Resumindo, não custa nada pensar um pouquinho antes de abrir a boca e dar nossa opiniãozinha de merda.


I don't want to go

Assisti An adventure in space and time, um filme que conta o início da série Doctor Who, lá em 1963.

Além de dramatizar os bastidores, os esforços da produtora Verity Lambert em emplacar a série apesar das adversidades, os problemas de produção e tal, o filme me encantou principalmente pela história do ator William Hartnell, o primeiro Doctor.

Sentindo o peso do stress das gravações da série e os primeiros sintomas de arteriosclerose, a solução encontrada para remover Hartnell e prosseguir com a série foi a ideia de "regeneração", um truque bem engenhoso para manter a série renovando-se pra sempre. Sai um ator, um "Doctor", e surge um novo, como nova interpretação, novo rumo, mas ainda o mesmo personagem.

Achei comovente a dor de Hartnell ao ser substituído. Ao ver Verity Lambert sair do show pra seguir com outros projetos e consolidar sua carreira. As pessoas mudam, vão embora. Em uma determinada parte do filme, alguém repara que o personagem de Hartnell tem dificuldade de dizer adeus.

Eu tenho uma dificuldade danada em dizer adeus.

Tive que dizer um adeus ano passado e hoje morro de medo de reencontrar a pessoa, de olhar nos olhos dela e ver que eu morri. Eu queria poder fazer diferente. Queria fazer melhor. Mas não consigo.

A vida continua e eu odeio despedidas e não consigo lidar com ausências.

É pior do que parece.



sexta-feira, janeiro 16, 2015

A Vida

A vida é linda, sensacional, maravilhosa, cheia de frescor, infinita de possibilidades empolgantes, instigante, colorida, única, inesquecível.

Às vezes.

Tipo assim, bem de vez em quando.

Tem os dias ruins. Mas vamos convir, os dias ruins, ruins de verdade, também são raros. Um dia ruim se destaca, grita na memória, e quem viveu sabe que dias ruins de verdade são especiais, não acontecem o tempo todo, são até bem escassos, embora muitas vezes durem muito mais do que um dia, seguindo noites adentro.

Lógico, estou falando aqui da minha vida. Meu caso particular. Sei lá se a sua vida é bacana, se a minha é monótona e a da vizinha é um inferno. Cada caso, um caso.

Mas acho que na média, a grande massa dos meus dias formam um tom pastel, nada intenso tampouco particularmente desagradável. Nada memorável. Nada interessante.

Daí que essa minha ideia de escrever um post todo o dia desse ano aqui no blog, além de ser um exercício bom de escrita e de me estimular a pensar, selecionar e editar outros assuntos do meu interesse, também abre espaço pra eu considerar um tema: a monotonia. Talvez o ritmo da vida, talvez o ritmo daquilo que eu tenho por vida.

Metalinguagem é uma boa desculpa pro texto de hoje e prometo a mim mesmo não me agarrar nessa de novo, mas é engraçado propor-se a produzir um texto por dia assim de graça, sem um propósito. Faz pensar em desenvolver uma linha, um projeto que conduza os textos, que dê a ideia de uma narrativa coerente. Trazer um sentido pra coisa toda.

Por outro lado, o problema talvez seja pensar em tudo como um produto, que tem que ter um objetivo, uma meta, um começo e um fim bem definidos. Talvez a gente pense e entenda tudo na nossa vida, inclusive a nossa vida, não mais como um processo, mas um produto, que precisa ser bem definido pra ser consumido, avaliado e julgado por outros consumidores como nós.

Não há espaço para a coisa que simplesmente é. Espera-se que a coisa se justifique por sua existência, enquadre-se em padrões que permitam a avaliação em "fracasso", "sucesso" ou "mediocridade".

A vida é essa coisa assim que é. E eu, sabendo disso, fico aqui, tentando abraçar essa coisa intensa, gigante, indefinida, que vai seguindo indiferente a planos, cronogramas, planilhas e expectativas.



quinta-feira, janeiro 15, 2015

Devagar e sempre

Hoje eu comecei a refazer a primeira página da história em quadrinhos.

Na real, eu já tinha começado uns quatro dias atrás. Fiz a perspectiva de um prédio e eu não fiquei satisfeito com o resultado.  Eu tinha feito a primeira arte-final à mão livre com o pincel e não curti. Ficou irregular demais.

Quando comecei a fazer histórias em quadrinhos, uma das coisas que tive que contornar foi a minha relação com o desenho. Eu me considero um desenhista bem limitado. Outra questão é que, ao contrário dos meus amigos desenhistas de verdade, eu me preocupo mais com o resultado final do que com o processo. Essa é uma maneira equivocada de abordar o desenho, porque se você se preocupa demais em atingir certo resultado, você poda a espontaneidade, fica um desenho duro e a frustração sempre vem. E, a pior parte, a diversão e o prazer de desenhar somem.

Na época que fiz a Cecília eu fiz um acordo comigo mesmo que não ia pegar no meu pé quanto a detalhes. Ia tentar ser mais espontâneo e aceitar minhas limitações. Bem ou mal, o gibi saiu.

Agora tou aqui refazendo essa perspectiva, com esquadro, ponto de fuga, régua. Porque dessa vez vou fazer o contrário. Dessa vez, pelo menos nesse painel, vou dar uma de obsessivo e me preocupar em fazer linhas e estruturas que provavelmente vão sumir na arte-final.

Eu falei que o prazer e a diversão somem quando a gente fica mais obcecado com o controle de detahes, mas na real o que acontece é que certas coisas tomam mais tempo. O prazer e a diversão ganham uma nova dimensão, dentro desse tempo maior.

Sei que estou ficando mais feliz com os resultados.

Vamos ver onde isso vai parar.

Só pra registrar, a arte rejeitada.



quarta-feira, janeiro 14, 2015

O tempo de cada um

Engraçado, tava lendo aqui o livro Eisner/Miller, no qual os dois criadores veteranos conversam sobre quadrinhos. Tem um bocado de coisa interessante, mas também tem uma ou outra coisinha que me soa estranha. Talvez algum problema de tradução, sei lá.

Enfim, Eisner e Miller, Os Caras, expõem suas ideias sobre trabalho autoral, mercado, direitos do artista e tal. E lendo esses caras eu me liguei que o papo mais interessante que ouvi sobre quadrinhos ultimamente foi com dois guris de 19 anos.

Foi no finalzinho do ano passado, num daqueles lançamentos maravilhosos que costumam acontecer na Itiban. Eram Felipe Nunes e Pedro Cobiaco. O primeiro estava lançando seu álbum Klaus, o segundo vinha de acompanhante, mas já tinha na bagagem o Harmatã, entre outras hqs fodas. Na real, dois guris que mandam bem pra caralho.

Quando eu tinha 19 anos lia gibis, Edgar Allan Poe, Stephen King. Não existia internet e pra ver filmes a gente dependia de locadora (de VHS) e cinemas. Só.

E eu pensava em escrever quadrinhos, desenhar, mas não me achava bom o bastante. Achava que ainda não tinha o que dizer. Que precisava amadurecer mais. Na real, ainda penso um bocadinho assim.

Daí apareceram esses meninos de 19 anos com trabalhos muito bacanas publicados. E eu tou com 40 agora.

E tou percebendo como não faz sentido falar dessa coisa de idade quando se trata de criar. No papel, acho que todos temos a mesma idade, a idade das ideias. Você pode dizer coisas interessantíssimas tanto aos 19 quanto aos 40.

Você sempre vai ter um ponto de vista único, interessante,um repertório, uma experiência que é só sua e que você provavelmente só terá nesse momento da vida. Por que a gente sempre está mudando,sempre está crescendo.

Todo mundo, se tiver sorte, chegará e passará dos 40 e ninguém será igual. Possibilidades infinitas.

Acordei pensando nisso hoje. Bom pensamento pra começar o dia.

:-)


terça-feira, janeiro 13, 2015

Neverland

Em 2014 a editora Nemo publicou aqui no Brasil uma série chamada Peter Pan, do francês Régis Loisel.

Usando as palavras do autor, trata-se de um quadrinho "muito livremente inspirado nos personagens de Sir James Matthew Barrie".

Vou pedir desculpas por usar essa palavra horrível aqui, mas na minha leitura, essa história em quadrinhos é um prequel da história contada por Barrie. É o Peter Pan Begins, digamos assim, ainda que soe meio ruim.

A bronca que eu tenho com prequels é a preconceituosa opinião de que são, na maioria das vezes, uns caça-níqueis sem-vergonha.

O que, obviamente, não é o caso desse Peter Pan do Loisel.

Quem era Peter Pan? Da onde ele saiu? Como chegou a Terra do Nunca? Por que ele não quer crescer?

Respostas nessa série.

Então, queridas pessoas, se vocês tiverem interesse de ler e descobrir essa obra maravilhosa por si mesmas, parem de ler por aqui, por que a partir daqui rola spoilers.

Ok.

Li e fiquei assombrado.

Porque o Peter é um garoto da Londres vitoriana. Tem uma vida miserável e uma relação complicadíssima com a mãe, alcoólatra e violenta. O pai ele não conhece.

Daí um dia aparece uma fada, que faz um barulinho engraçado e passa a ser chamada Sininho pelo menino. De um jeito misterioso, ela o leva para uma ilha distante, povoada por seres fantásticos. Um paraíso infantil, onde o tempo não passa. As pessoas não crescem.

A ilha não recebe um nome, mas sabemos que é a Terra do Nunca.

Aliás, acho que essa história é tanto sobre a Terra do Nunca quanto sobre Peter Pan. Porque o preço que a Terra do Nunca cobra por não existir um amanhã, é não ter um ontem. Aos poucos as lembranças, boas e ruins, sempre se perdem. Quem vive na Terra do Nunca esquece tudo o que perdeu, toda a dor e talvez algo de inestimável de si mesmo.

Me assombrou.

Nas mãos de Loisel, que escreve e desenha muitíssimo bem, são apresentados personagens cativantes que morrem de maneira brutal. Tipo um Game of Thrones, mesmo sabendo que a morte de uma personagem é inevitável,  afeiçoamo-nos e sofremos por ela. Até aí, parece que nenhuma novidade, mas foi o esquecimento completo da existência dessas personagens pelas que sobrevivem que me chocou. Talvez isso seja o mais triste e brutal desse Peter Pan. O esquecimento.

Ao contrário da vida real, em que há um luto, uma saudade, uma memória do que se viveu, na Terra do Nunca tudo se perde. É como se a pessoa nunca tivesse existido.

Ou, talvez, o que tenha me assustado mesmo é que a vida real não é muito diferente disso. Na vida real, a gente precisa meio que esquecer, deixar pra trás, pra seguir em frente. Peter Pan explora esse lance do esquecimento, da razão do luto e do sofrimento. Esquecer parece ser bem pior do que sofrer com a ausência.

Além disso, tem toda uma série de questões sobre maturidade sexual e emocional, nas relações de Peter com sua mãe, com Sininho, com as prostitutas, com a pequena Rose, com as sereias. Crescer é doloroso e acho que é por isso que Peter não quer crescer.

Peter é um destroço emocional e dá pra entender perfeitamente que ele prefere esquecer o que aconteceu, mas ao esquecer, ao mesmo tempo em que se livra da dor, Peter se livra de uma parte, talvez essencial, de si mesmo. Daí ele não cresce. Sua inocência é de certa forma preservada, mas aos meus olhos de leitor isso é muito triste. É como se aquelas pessoas tivessem morrido em vão. Sei lá...

Isso me deixou bolado.

Esquecer é como abandonar completamente.

Perder de vez, para sempre.


segunda-feira, janeiro 12, 2015

Bach

Hoje teve:

JOHANN SEBASTIAN BACH
Musikalisches Opfer - a oferenda musical

Uma coleção de cânones, fugas e outras peças escritas em 1747 por Bach e dedicadas ao rei Frederico II da Prússia –, participam os músicos Rachel Brown (flauta), Diego Nadra (oboé), Tomasz Wesolowski (fagote), Nicholas Robinson e Rodolfo Richter (violinos), Claire Fahy (viola), Juan Manuel Quintana (viola da gamba), Paolo Zuccheri (violone) e James Johnstone (cravo).

Dizia o programa da apresentação que Bach, ao visitar o rei Frederico II da Prússia, recebeu um desafio. Disse o rei para Bach: "ó, tô sabendo que  tu sabe improvisar, mas duvido que tu faça uma fuga em cima desse meu tema aqui (Thema Regium - o tema do Rei)". Era uma paradinha musical sinistra, cheia dos paranauê, difícilima. Daí contam que o Bach resolveu uma amostra ali na facilidade, impressionou todo mundo e soltou "é que tou cansado da viagem. Deixa eu descançar que apresento uma coisa decente". E 15 dias depois voltou com o tal tema do rei que tinha sido proposto como desafio virado num conjunto de peças e tals.

O lance é que eu tava ali no teatro do Paiol curtindo essa apresentação. Pra quem não conhece, o teatro do Paiol é um espaço bem apertadinho, abafado, mas que oferece um contato muito próximo com os artistas. No meu caso, sentado na primeira fileira, eu podia literalmente esticar o braço e tocar nos músicos. Literalmente.

E daí veio a apresentação, os caras tocando, eu nunca tinha visto um cravo, e aquele som das cordas e eu ficava imaginando como ia ser legal ter um aparelho de som maneiro, arranjar aquelas músicas e ouvir enquanto trabalho.

Coisa besta, né? Tipo, a vida acontecendo ali na frente e eu pensando em um jeito de guardar, possuir aquilo comigo.


domingo, janeiro 11, 2015

O Velho e o Mar

Domingo, dia de almoçar com a família querida e depois morgar no sofá assistindo uns filmes com o pai. E hoje tava passando O Velho e o Mar.

Eu nem sabia que tinha um filme disso. Quer dizer, já imaginava, né? Mas não conhecia o filme de 1958, com o Spencer Tracy. Não foi difícil perceber que era O Velho e o Mar. O sujeito no barquinho, agarrando com a mão a linha, tentando vencer o marlim de cinco metros.

E comecei a assistir e reparar como era isso de fazer um filme antes da computação gráfica, quando tinha que se filmar certas coisas pra valer, como tubarões sendo perfurados por arpões. Uma brutalidade fascinante, os bichos nadando e deixando pra trás uma nuvem de sangue enquanto eu ficava pensando se aquilo era material de alguma outra filmagem ou se eles tinham feito especialmente pro filme.

Então minha irmã, que tinha acompanhado uns minutos o filme e percebido que se tratava de um velho que sofria um bocado pra tentar pegar um peixe, perguntou:

"Mas por que ele simplesmente não desiste e deixa o peixe em paz?"

Como assim? Que raio de pergunta é essa? Essa foi minha primeira reação. Daí fui tentar explicar que é a obra do Ernest Hemingway e que tem um lance de significados, o peixe representa superação e tal... e daí percebi que eu não estava convencendo a minha maninha das razões pra sofrer por três dias tentando pegar um marlim. Na real, eu não estava convencendo nem a mim mesmo.

Peraí, afinal, porque esse filho da puta não desistiu?

E o filme terminava citando o sonho de Santiago, o pescador derrotado (?), com os leões na praia.

Acho que eu li O Velho e o Mar pelo menos umas duas vezes e a última já tem uns dez anos. Cheguei em casa e fui procurar meu exemplar. Numa breve folheada, comecei a relembrar algumas coisas sobre Santiago.

Ele era um velho, viúvo, solitário, que vivia da pesca. Na sua aldeia, tinha ganho a fama de azarado por ter entrado no mar por 84 dias seguidos e não ter conseguido pescar nem uma sardinha. Na narrativa de Hemingway, dá pra perceber que Santiago vivia em condições muito humildes, assim como outros pescadores da vila.

Hemingway escreve sobre coisas como orgulho e humildade de uma maneira assombrosa.

Em um primeiro momento, revisitando O Velho e o Mar, eu temi que por uma ode à meritocracia, tipo, o empreendedor que vai e vence seus obstáculos e aquela conversa de merda de sempre. Mas O Velho e o Mar não é sobre vitórias e derrotas.

Acho que o livro de Hemingway é justamente sobre a falta de sentido de se falar em vitórias e derrotas.

Santiago realmente se sacrifica para apanhar o marlim. Ele não maldiz o peixe, não o vê como inimigo, conversa com ele, chama-o de irmão. Há uma cumplicidade. E no fim, todos os esforços e sofrimento de Santiago parecem ser compensados. Ele pega o seu peixe.

E na volta para casa o perde para os tubarões.

Esforço, sacrifício e trabalho duro não são garantia de recompensa.

Santiago fala da sorte. Santiago conhece suas habilidades e conhece os peixes do mar, mas ainda assim há coisas que o homem não controla. O homem tem limites. As coisas podem não dar certo. Muitas vezes, as coisas não dão certo.

Então por que não soltar a linha? Por que simplesmente não desistir? E se a gente desiste, daí vai fazer o quê?

Acho que cada um, cada uma precisa achar as suas respostas.

Talvez O Velho e o Mar seja justamente sobre isso.

Vou reler e buscar nas entrelinhas a minha resposta.



sábado, janeiro 10, 2015

Notas

Pra fazer uma história em quadrinhos, deve-se começar de dentro para fora.

No começo, sem palavras nem imagens. Só coisas indizíveis, inquietas. Sons estranhos, sensações no fundo do peito. Daí o remoer essas coisas. Um processo de remoer e remoer. E ver que imagens e sentenças nascem daí.

E elas vão brotando.

Tipo um grande campo, que a gente ficou revirando e revirando até cansar, e daí, quando tudo começa a ficar quieto, as coisinhas vão saindo do fundo. Virando sentenças e imagens. Daí a gente coleta. Anota, cataloga. Vai achando tanta coisa estranha que vai brotando. Algumas fazem sentido só pra gente. Essas dificilmente sobrevivem. E uma coisa pode ir se conectando com outra, se enroscando, virando outra.

De dentro pra fora.

E a gente vai mapeando as coisas indizíveis,  tentando entender, vendo coisas se juntarem, ouvindo o que vem do fundo. E tomando nota.

Daí um monte das coisas acaba se perdendo. Se perde. E o que vai se registrando vai mudando no papel, nas refações, num novo tipo de remordimento. Ruminando. Ruminando.

Daí começa a cristalizar. A se fechar numa forma limitada no papel, muito mais pobre e sem graça, mas talvez ainda contendo em seus traços, nas suas entrelinhas, nas suas entranhas, um pouco do assombro, da energia das tais coisas indizíveis. Precisa ter um bocado de sorte e uma desavergonhada (porém honesta) pretensão.

Porque é mais uma questão de sorte do que de controle, de precisão. No fim de tudo, é um jogo de improviso. Em cima de uma inquietação, de um fantasma, de um limite, a gente trabalha. A gente vai tocando. Vai vendo o que se oferece. Tenta conduzir da melhor maneira possível.

E precisa daí saber prestar atenção na vida. Precisa deixar se levar e tentar conduzir. Se possível, apreciar o passeio.

E um dia, tudo ganha uma nova dimensão. Todas aquelas coisas viram um livrinho. A gente fecha histórias, pra começar outras. Ou talvez, pra começar a viver, em vez de narrar.


******

Outra opção é ler o Desenhando Quadrinhos do Scott McCloud e começar a desenhar.




sexta-feira, janeiro 09, 2015

Fechando a pauta

Como se definem essas coisas? A pauta do dia?

Quem decide no que eu vou pensar hoje? Qual a nóia do dia?

Uma galera comentando, discutindo, dando opinião. Falando sobre liberdade de expressão, sobre o Islã, sobre xenofobia, sobre esquerdas e esquerdas. Nada parece muito claro. Tudo está muito intenso.

Só que, como lembrou um amigo, enquanto muito se fala sobre as doze mortes na França, pouca atenção é dada às centenas de mortes na Nigéria.

Daí apareceu essa página onde o Joe Sacco faz os comentários com os quais eu concordo muito:



"Na verdade, quando nós desenhamos uma linha, nós muitas vezes estamos ultrapassando um limite também. Porque linhas no papel são uma arma e a sátira é aquela lâmina que te corta até o osso. Mas o osso de quem? Quem é o alvo? Talvez, quando a gente cansar de mandar o outro tomar no cu, dê pra tentar pensar por que o mundo está do jeito que está e o que é que há com esses muçulmanos, desse lugar e dessa época, que são incapazes de rir de uma piada."

O mundo tá tão sério, tão triste.

Tou com uma impressão de desolação, sabe. Não tem mais espaço pra se sentir leve. Parece que se sentir leve é errado. Dá culpa de se sentir bem, quando a gente pensa no outro, no quanto ele deve sofrer, no quanto tudo isso é errado e no quanto a gente é impotente.

O mundo não dá trégua pra ninguém, não para de exigir de ninguém. A não ser talvez dos bobos, os palhaços, os jokers, os ingênuos.

Sabe, acho que não quero ser assim tão sério. Acho que não quero deixar de perceber outras coisas na vida, as pequenas bobagens, as fantasias, a hora de aventura. Acho que a gente precisa de fantasias pra levar a vida. Um namoro, um projeto, uma viagem, um filho, alguma coisa com qual a gente possa se encantar, que possa nos dar refúgio, um centro pra nos lembrar de nós mesmos. Tem gente que acha isso em Deus. Somos tão diferentes. Devíamos olhar um para o outro mais como um inocente do que como um juíz. Devíamos nos permitir maravilhar com aquela diferença, com aquela visão de mundo, aquela escala de valores que é tão diferente da nossa. Uma pessoa que é tão diferente de nós. A gente devia se alegrar e sentir carinho pelo outro e não escarnecê-lo ou condená-lo.

Isso é inocência. Isso é querer acreditar numa utopia.

Ousar acreditar na utopia é um outro passo.

Que tempos para viver, minhas pessoas.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

Liberdade de expressão

Ainda no calor do Charlie Hebdo.

Muita calma nessa hora.

Primeiro lugar, nenhum insulto vale a vida de uma pessoa. Vamos concordar nisso?

Tipo, se alguém xinga a sua mãe, caga em cima da bandeira do seu time de coração, faz uma caricatura da sua irmãzinha de quatro anos numa posição indecente fazendo algo abominável, enfim, se alguém comete atos realmente OFENSIVOS, por mais ultrajado que você esteja, você não tem o direito de matar esse alguém.

Concorda?

Mais ou menos, né? Talvez você tenha imaginado algumas situações e lá no fundo da tua cabeça a Grande Serpente Peçonhenta da Ira se moveu. Ofensas são uma coisa foda. É fácil minimizar quando não é com a gente, quando não significam nada pra gente.

Ainda assim, ira descontrolada, ultraje desmedido, não justificam um assassinato. Deve ter uma lei para os casos de ofensa. Deve ter um limite. Sim, já existe essa lei, mas será que ela cobre todas as possibilidades de ofensa? E será que queremos uma lei que cubra todas as possibilidades de ofensa? Melhor ainda, precisamos de uma lei assim?

Quando se fala em limites pro jornalismo, pro humor, pra expressão em geral, muitas pessoas imediatamente associam com censura. E novamente alguns vêm reclamar da "Polícia Politicamente Correta."

"Mundo mais chato! Não dá mais pra fazer nem piadas com estupro!", dizem. Ok, eu nunca escutei ninguém reclamar que não podia fazer piadas com estupro, mas sempre ficou claro nas entrelinhas que alguma pessoas ficavam mordidas por isso. Por terem limites.

E, afinal, quem define os limites? Quem decide o que ofende ou não?

Um dos nossos problemas é que somos binários. Acreditamos em certo e errado, bem e mal, zero e um, etc. A nossa cabeça funciona assim. Acho que é pra simplificar o mundo. É mais fácil lidar com "sim" e "não" do que com "talvez" e "depende".

"Talvez" e "depende" são vistos com muitos maus olhos.

Entretanto, "talvez" e "depende" ajudam muito a entender os seres humanos.

Veja, algumas pessoas se ofendem com coisas que não fazem o menor sentido pra outras. E muitas pessoas simplesmente não se importam se estão ofendendo outras ou não. Aliás, muitas pessoas querem ofender, porque a ofensa é uma maneira muito eficaz de se fazer ouvir (mas não é  a melhor pra se dialogar).

E outras pessoas se preocupam com isso de ofender, mais que isso, enxergam nas ofensas, no discurso que menospreza o outro, seja através de "humor" ou de "jornalismo isento", uma disputa de poderes e um jogo de opressão muitas vezes nada sutil.

Agora a pouco eu estava assistindo um programa da Globo News (ah, a Globo...) e um dos comentaristas falou que acha um absurdo que alguém proponha uma regularização da mídia. Porque a mídia tem que ter liberdade absoluta pra abordar e tratar qualquer tema como bem entender. Pouco antes, esse mesmo comentarista contou que foi a um evento e ficou surpreso porque todos tinham uma opinião política diferente da dele e,  portanto, "errada".

A verdade é que não existe isenção e nós sempre vamos transmitir uma informação colocando nela nossos valores e visões de mundo. Sempre. A ideia de discurso isento, racional e objetivo é um bocado traiçoeira, sabe...

E quando se fala em "liberdade de expressão", "politicamente correto" e "humor" as coisas são bem mais complicadas do que parecem. Muito mais. Cheias de "depende" e "talvez".

E nessa de liberdade de expressão, eu vou dar uma opinião. Na verdade, não é minha opinião. É a opinião de um amigo meu. Diz o Matias:

"As pessoas reclamam do politicamente correto porque são preguiçosas".

Assim, o "humorista" reclama que não pode fazer piadas com islâmicos, judeus, negros e gays porque é incapaz de fazer piada de qualquer outra maneira. Ou melhor, tem preguiça de pensar em outra maneira.

A pessoa reclama que está sendo censurada quando recebe reações negativas por produzir um trabalho que foi pensado primeiro para provocar (ofender) e depois para criticar ou provocar alguma reflexão. Isso quando o trabalho provoca alguma reflexão, né? Porque vamos convir que muita gente por aí procura ofender por ofender. Apenas.

Outra coisa nossa: crítica é ofensa. É assim que muita gente entende a palavra crítica. Como ofensa. Mas a crítica não precisa ofender. E acho que nem deveria.

Mesmo assim, se o "humorista" faz o seu trabalho e depois é chamado de racista ou machista, ele se sente "ofendido" e "perseguido" pelo pessoal da Patrulha do Politicamente Correto. Muito embora ele tenha feito efetivamente piadas racistas e machistas.

E daí você vem e me pergunta: mas afinal, o que você propõe? Dá pra agradar todo mundo? E eu respondo: depende e talvez.

Voltando ao comentarista da Globo News que eu falei antes, o sujeito reclamou que com essa "patrulha" as pessoas vão se sentir intimidadas e vão pensar antes de usar sua liberdade de expressão. Ele acha isso ruim.

Eu acho isso ótimo.

Porque se tem uma coisa que a gente está precisando é pensar antes de usar a tal liberdade de expressão. Pensar no que queremos dizer, pra quem queremos dizer. Fugir das ideias óbvias, elaborar melhor nosso pensamento, nossa mensagem. E considerar se nós realmente queremos ofender alguém. Se é necessário ofender para o trabalho fazer sentido.

No fim das contas, cada um decide e é responsável pelo que vai escrever, desenhar, falar. Mas seria legal pensar um pouco antes de soltar algumas coisas no mundo. Seria legal também ser um pouco mais flexível e quando receber respostas negativas saber ouvir e avaliar.

É um processo completamente inexato e pede mais bom senso, sensibilidade e empatia do que objetividade e pragmatismo. Por isso se chama Ciências Humanas e não Ciências Exatas.

Em um cartum que vi hoje, o sujeito dizia que iria apresentar uma piada politicamente correta, que não iria ofender ninguém, e apresentava um quadro em branco. Ele não foi original e já vi muita gente dizendo que não dá pra fazer humor sem ofender.

Eu não sei se dá pra fazer humor sem ofender.

Pergunta pro Quino.


Atualização: um texto bem bacana pra pensar sobre o Charlie Hebdo aqui.

quarta-feira, janeiro 07, 2015

Eu sinto muito.

Quando eu for relembrar o ano de 2015, lá no final, preciso colocar isso no balanço.

Hoje eu acordei, coloquei roupa pra lavar, escrevi uns pedaços do roteiro da HQ, peguei uns textos no xerox e recebi a visita pro almoço de uma das amigas mais queridas. Demos voltas e acabei encontrando outro amigo querido. Um clima gostoso, tranquilo. Ver pessoas que gosto, conversar com elas, aprender com elas.

No celular, outra amiga me manda mensagem: "Wolinski morreu".

Quem é Wolinski? 

(Desculpe, meu repertório realmente não é essas coisas.)

Ela manda o link, mas estou no meio de andanças e amigos e não vejo.

Mais tarde, tomando um cafezinho, meu amigo comenta "que horror esse atentado na França".

Que atentado?

"No Charlie Hebdo".

O que é isso?

Bem, chega de ostentar minha ignorância. A essa altura você já está sabendo. Ou talvez já tenha esquecido, dependendo de quando estiver lendo isso. Pra relembrar, clica aqui.

E meu amigo me contou que os caras dos fuzis chamavam a vítima pelo nome e atiravam. Eles sabiam em quem estavam atirando. E meu amigo contou que um dos cartunistas falou que preferia morrer em pé, do que de joelhos.

O que é isso?

O que é alguém que você não conhece te chamar pelo nome e te dar um tiro? O que é morrer nas mãos de uma pessoa que te conhece pelo nome? O que se faz de tão ruim pra merecer ser morto?

Um desenho, uma piada, uma provocação. Uma crítica.

Não se tratava de impor alguma coisa, mas de tirar sarro de uma coisa já imposta. Imposição é isso: te matarem se você não se curvar. Te matarem de verdade. Bang. Bang. Na cabeça.

Curiosamente, algumas vezes nesse fim de semana, em comentários e discussões efêmeras de facebook, li pessoas reclamando da "ditadura do politicamente correto". Pessoas reclamando do "cerceamento de liberdade de expressão". Da "opressão" que vem de ativistas negros que pedem pra retirar obras com teor racista, como As caçadas de Pedrinho, da lista de livros do PNBE.

"O mundo está mais chato", dizem. Não se pode mais fazer piadas com negros, com gays, com mulheres, que as pessoas se ofendem. 

Eu imagino que algumas dessas pessoas que acham que há uma ditadura do politicamente correto, que há um princípio de totalitarismo nos protestos de grupos que sempre foram oprimidos, provavelmente vão tomar o caso de Charlie Hebdo pra ilustrar seus argumentos.

Essas pessoas vão fazer isso porque são incapazes de articular a complexidade do mundo. Vão relacionar a ação de um grupo de assassinos com a resistência de grupos oprimidos. Elas não vão conseguir jamais perceber ou admitir que são racistas, machistas, homofóbicas.

O problema do mundo é um grande mal-entendido. É um grande texto mal redigido que amplifica uma extraordinária incapacidade de interpretação.

Se o teu vizinho tá dizendo que tua brincadeira ofende, que custa você sentar e conversar com ele e tentar entender o que incomoda ele e tentar respeitar? Imagina sentar e conversar. Imagina chegar a um acordo. Imagina conviver pacificamente.

Eu escrevo isso e sei que sou um ingênuo. Sei que há visões de mundo que são irreconciliáveis. Ainda assim, será que não poderíamos tentar conviver de boas? Não dá pra conversar? Não dá pra entender que uma coisa é fazer uma piada racista e outra é fazer uma charge que critica um sistema opressor? 

Eu escrevo isso e sei que a coisa é bem mais complexa do que estou traçando aqui. Sei que estou misturando duas coisas completamente diferentes. Há pormenores, há casos específicos. Não há uma única solução, uma única visão. 

Mas eu queria que tudo se resolvesse sentando numa mesa pra tomar chá e conversar de boas.

Eu não queria ver ninguém tomando um tiro só por causa de diferenças de visão de mundo.

Eu realmente acho que isso seria um ótimo começo. 

E eu sei que não vai rolar.

E eu sinto muito.


terça-feira, janeiro 06, 2015

Mundo, mundo, vasto mundo

Finalmente li Corto Maltese: as Célticas.

Eu nunca tinha lido Corto Maltese e ele é tipo um clássico das histórias em quadrinhos. No naipe de Asterix ou Tintim. Tipo, leitura obrigatória pra quem diz gostar de quadrinhos, saca? 

E eu tinha o álbum aqui em casa fazia uns bons anos, mas nunca tinha lido por preguiça, por preconceito, por achar que se tratavam de histórias em quadrinhos antiquadas e desinteressantes. Erro meu. Erro crasso. 

Corto Maltese é um marinheiro, um aventureiro, um homem livre, leve e solto, que viaja pelo mundo sem se prender a nada. Essencialmente um romântico. Faz pose de bonachão insensível, mas tem um coração de ouro e sempre se mete em encrencas, ora por dinheiro, ora por simpatizar com certas causas.

Ele é, talvez, a criação máxima de Hugo Pratt, um italiano que viajou um bocado pelo mundão, passando inclusive aqui pelo Brasil. Acho que o Pratt é tipo o Ernest Hemingway dos quadrinhos, uma vez que, com certeza, é a biografia mais aventureira que já trabalhou com nanquim. Criou o personagem Corto Maltese em 1967 e já produziu diversas histórias contando as andanças do marinheiro pelo mundo do começo do século XX.

As Célticas apresenta seis histórias curtas contando as andanças de Corto Maltese pela Europa durante a Primeira Grande Guerra Mundial. São histórias de aventura, espionagem, drama e rola até misticismo. O que me surpreendeu foi que os roteiro iam bem além da contação de aventuras padrão. Rola umas histórias realmente emocionantes, às vezes comoventes, boas surpresas, ótimos diálogos.

Quando escreve sobre povos e culturas diferentes, Pratt o faz com a experiência de quem vivenciou cada uma dessas coisas. Ou com a habilidade pra fazer a gente acreditar nisso, o que dá praticamente no mesmo.

Corto Maltese me fez lembrar e acreditar que há um mundo extraordinário lá fora e é um privilégio poder percorrê-lo.

Toda viagem, por mais maravilhosa que seja, chega a um fim. Então, precisamos embarcar em outra.

Em movimento, sempre.




segunda-feira, janeiro 05, 2015

Hey, Jake, presta atenção

Daí tem esse episódio de Hora da Aventura que sequestram o Finn e o Jake parte em resgate, mas a cada dois minutos acontece alguma coisa que o distrai da busca. Ensinar um besouro a dançar, contar piadas pra sereias, conversar com uma cabeça-de-lobo-com-boné-que-é-um-deus-da-festa. Qualquer coisa faz ele se distrair da busca. E enquanto isso o pobre Finn é torturado por duendes subterrâneos.

A história termina bem, o Jake salva o Finn, não se preocupe.

Mas é no Jake que eu penso quando tenho que ler textos como Pós-Modernidade: a lógica cultural do capitalismo tardio, de Frederic Jameson... Eu leio um parágrafo e de repente percebo que passei os últimos 10 minutos olhando pra parede pensando em whatever. Volto pro texto, retomo a leitura, releio o parágrafo e linhas depois o processo repete.

Não que o livro seja chato.

Talvez um pouco.

Mas é aquela coisa da dispersão de atenção. Força de vontade, disciplina, rotina, blablablá. Sim, eu sei. Tou tentando. Juro que tou tentando.

Vamos tentar de novo amanhã.

E assim foi a primeira segunda-feira do ano.

Vai 2015, vai!


domingo, janeiro 04, 2015

93 horas e tudo bem

E aí, 2015?

Como vai ser?

Vai ser um ano bom pra caramba? Vai ser um ano fantástico?

Eu não tenho planos. Quero dizer, planos detalhados. Tenho uma boa ideia de pra onde eu quero ir e do que preciso fazer.

O resto vou improvisando dia a dia.

Improvisar não é só uma arte, é uma estratégia de sobrevivência.

Hoje era pra ter visto um filme, mas a companion quis ver outro. Sem crise. Era um filme que eu já tinha visto, o argentino Relatos Selvagens.

Gostei tanto quanto da primeira vez que vi.

Tem o Darín, como qualquer filme argentino que se preze. E vendo pela segunda vez, deu pra perceber bem que na maioria das vezes as cagadas das histórias eram por causa de gente que não tem senso de dimensionamento. As pessoas exageram. Tipo na vida real, sabe.

E quem nunca exagerou?

Eu exagero às vezes.

Ah, Deus, como eu exagero.

Uma vez um velho amigo da minha família me falou "tudo que é em excesso faz mal".

Tem uns anos já que ele morreu de câncer.

Nunca esqueci. Tudo que é em excesso faz mal.

Ainda assim, às vezes eu exagero.

Mas, afinal, se não fossem as cagadas, qual seria a graça das histórias?


sábado, janeiro 03, 2015

2015

Despretensiosamente, muito despretensiosamente mesmo, vou tentar retomar as publicações no meu blog.

Repare, isso é quase um pedido de desculpas.

Porque não vou escrever isso aqui pra te agradar, nem pra te incomodar. Vou escrever pra deixar, pra mim mesmo, um rastro de pão nesse ano de 2015. Pra eu tentar não me perder, como aconteceu em 2014. Então, isso aqui vai servir mais pra mim do que pra você. Isso aqui não é será feito pensando em te entreter ou te enriquecer culturalmente ou qualquer coisa assim, embora isso possa acontecer eventualmente, desculpe mais uma vez.

É pra eu não me perder. É pra eu ter uma noção de que ainda existo. Tipo uma selfie que a gente bate quando viaja sozinho e põe no face e tem as curtidas e a gente se sente menos largado no mundo. Se bem que a gente nunca viaja viaja sozinho e largados no mundo estamos todos e todas nós, pessoas.

Ah, então. É um rastro de pão, estamos entrando no bosque 2015 e queremos experimentar as trilhas, ver paisagens bonitas, conversar com pessoas legais e chegar relativamente ilesos do outro lado. Temos dois passeios bem bacanas pra fazer, do tipo que toda a família vai se divertir, incluindo seu tio solteiro, sedentário, excêntrico e quarentão.

A primeira opção de passeio é chamada "O Quadrinista Amador". Acompanharemos a trilha da criação de uma história em quadrinhos, nada muito sério nem pretensioso. Apenas tinta no papel, que scaneado vai virar pixels na internet. O homem planeja e Deus ri, ainda assim, o quadrinista amador, que sou eu, pretende concluir e publicar nas uéb uma história em quadrinhos. Será que vai ser boa? Não. Não é essa a pergunta. A pergunta é "será que sai?".

("Será que sai?" é uma ótima pergunta. Gostaria de parecer confiante e seguro, mas, entenda, confiança e segurança não cobrem terremotos, atentados à bomba, ataques Dalek, crises de depressão e prazos pra cumprir o doutorado. O que nos leva ao segundo passeio.)

"Um doutorado sobre quadrinhos" ou "quero minha Tardis" é outro passeio bacana, cheio de voltas e trilhas que acabam se interseccionando com "o quadrinista amador". No momento, estamos aguardando a resposta da querida orientadora sobre a primeira versão da tese, que já não atingiu o nível de páginas solicitado. Nada inesperado. Enquanto a resposta não vem, o serelepe pré-Doutor escreve o roteiro de sua história em quadrinhos e toma coragem para começar a ler e fichar a montanha de livros.

Vale contar com a possível viagem e estadia por longo prazo em um país estrangeiro ainda não definido, afinal, pode rolar um intercâmbio chamado, sabe-se lá por que, de "doutorado sanduíche". Estou tão empolgado com essa possibilidade que não consigo descrever.

(Mentira, não estou. Estou em pânico pensando pra onde vou e como vou fazer pra pagar o aluguel. Será que vou ter que entregar meu apartamento? Onde vou deixar as coisas? E como faço pra ir no FIQ? Vai ter dinheiro pra passagens, aluguel, impressão de quadrinhos, comida e ansiolíticos?)

Oras, vai ser divertido, não? Sei que mal posso esperar.

Allonz-y!