domingo, fevereiro 22, 2015

Carnaval

Eu tenho essa pira com máscaras, sabe.

Deve ser coisa de infância, lance nerd, quadrinhos e super-heróis. O Homem-Aranha é um cara fodido, mas quando ele põe a máscara, salta nas alturas, faz piruetas, salva crianças de incêndios, dá surra em pesadelos.

Nunca entendi por que ele tirava a máscara. Por que ele voltava a ser Peter Parker?

Não só ele. O Hulk, o Capitão Marvel, o Super-Homem. Esses usavam máscaras de um jeito diferente. Não sei dizer quem era a máscara, o disfarce. Se era Bruce Banner ou o Hulk. No filme Kill Bill, a segunda parte, tem aquele diálogo final maneiro em que o Bill diz que o Super-Homem era o rosto de verdade e o Clark Kent é que era a máscara.

Máscaras.

Sem as máscaras, quem somos?

Parece bobagem, mas se tiramos as máscaras, que seja o emprego, o trabalho, a família, as noias, a religião, essas coisas que nos dedicamos dia a dia... se tiramos esse disfarce, o que somos?

O Carnaval tem essa coisa, eu acho. Ponha uma fantasia ou tire a fantasia que se usa todos os dias do ano.

Eu viajei esse Carnaval.

Não sou de viajar no Carnaval. Nunca fui. Sempre fui meio isolado, muito protegido quando era criança, nerd na adolescência. Nerd daqueles de senso comum, do tipo tímido, inseguro e muito desajeitado pra relações sociais. Na adolescência, eu andava com os outros como eu e o Carnaval era uma festa que a gente olhava com desprezo. Gente empilhada em salões, multidões se espremendo nas ruas, dançando em cima de mijo, bebendo e fornicando.

Fornicando.

A real é que éramos um bando de gente sozinha que tinha medo do Carnaval, tinha medo de tirar a máscara ou vestir outra. Medo do sexo suado e inesperado, medo de ser rejeitado e não ser considerado bom o suficiente, medo da noite, dos risos, da brutalidade. Medo de uma festa que escancarava nossa própria solidão.

Eu viajei nesse Carnaval. Fui pra um festival de música que rolava em uma fazenda no meio de Santa Catarina.

Lama, chuva, cheiro de esterco. Cinco mil pessoas estavam lá, me disseram. Em barracas. Era camping.

Fui sozinho. O que me conquistou pra ir foi o que um amigo me falou: "é um reset". Resetar a cabeça. Reboot. Reiniciar. Começar de novo.

A vida velha já não dava mais, era preciso começar uma coisa nova. A real é que eu vivia numa bolha e a bolha estourou e já faz muito tempo. Talvez nem era um reset que eu buscava, talvez eu nem buscasse nada. Minha expectativa eram as drogas, sexo e rock'n'roll. Pelo menos o rock'n'roll era garantido.

Mas, daí, lá, perambulando no meio daquela gente, garoa de carnaval, os pés sendo puxados pelo barro a cada passo, eu comecei a pensar em máscaras. Não era questão de vestir uma máscara, mas de tirar uma. Talvez já na entrada do evento, nos portões da fazenda. Tirar a máscara e ver o que sobrava.

Máscaras. Trabalho, obrigações, sentimentos de pertencimento. Deixar tudo na porta da fazenda. Pisar na lama. Dormir em barraca, chuva, desconforto. Mas antes disso, deixar ali na entrada a máscara. E foi engraçado. Foi um lance estranho. Não foi coisa assim de repente. Foi demorado. Começou na confirmação do lugar no ônibus da excursão, na compra do ingresso, da barraca, na montagem da mochila. O tempo todo pensando se era uma boa ideia. E o que me motivava era a ideia do reset. Daí que eu comecei a sacar o lance da máscara. Eu não estava indo lá pra por uma pele de lobo ou um capuz colorido e fingir ser alguma coisa que eu não era. Eu estava indo lá pra tentar tirar a minha própria máscara e tentar reconhecer meu próprio rosto.

Daí, nerd que sou, me vem na cabeça o Predador tirando o capacete no final do filme. Aquele teatrinho que ele faz, sabe? Tirando os fios, o barulhinho de gás comprimido sendo liberado, os chiados. Ele vai desconectando, desprendendo, os dedos longos fazendo gestos lentos, sem pressa. E aquele capacete parece tão pesado.

Tirei a máscara. Tirei as obrigações, as noias, as correntes.

Caminhando no meio daquela gente, a cabeça cheia de álcool, nuvens e ácido. Eu cambaleava na lama, toda aquela lama, no meio de gente que cambaleava também, cada pessoa ali doida, louca, dona de sua própria loucura. Todo mundo com os pés na lama. Era o Apocalipse Zumbi, meu amor, e eu estava do lado dos zumbis.

Aconteciam os shows, maravilhosos shows, nas tendas. Luzes, trompetes, guitarras, sonzeira e parecia que eu estava dentro de um bluray, tudo colorido em alta definição. Dentro da tenda dos shows era como estar em um sonho. Mas os pés sempre estavam na lama. E quando eu saia da tenda era como passear pelos bastidores de um sonho. As figuras, os rostos. Tinha árvores com rostos. Não uma alucinação, o pessoal projetava imagens de rostos na copa das árvores.

Era como caminhar por um quadro de Bruegel, como passear por um shopping center medieval pintado por Bosch. Sem celular, sem internet, sem a menor necessidade de postar algo ou de dizer algo. Sem precisar se justificar pra ninguém.

E acabou.

Voltei de lá.

Estou com minha máscara nas mãos. Ela parece estranha no meu rosto.

E eu fico pensando no Capitão Marvel. Por que ele dizia Shazam pra voltar a ser Billy Batson?

Pra que o Super-Homem precisava se disfarçar de Clark Kent?

Por que o Banner não dava um jeito de ficar pra sempre como Hulk?

Eu uso uma máscara, mas não sou essa máscara. Eu tenho um rosto de verdade.

Dá pra ver ele faiscar no fundo do espelho.


terça-feira, fevereiro 10, 2015

Olhos Grandes

Um filme do Tim Burton que não parece um filme do Tim Burton.

Ok, se você é fã do Tim Burton, pode me xingar, mas achei os últimos trabalhos dele uma auto-caricatura. É como aquele vídeo do College Humor: Johnny Depp, Helena Bonham Carter, cenografia e figurino dark e rocambolesco, trilha sonora do Danny Elfman ("lalala bom bom bombom"), etc.

Enfim.

Grandes olhos não tem Johnny Depp, nem Helena Bonham Carter e é tão comportado que quase não dá pra acreditar que é um filme do Tim Burton. Danny Elfman faz a trilha sonora, mas sem "lalalala, bombom bombom, diglidigli".

A única parte que me fez pensar em Tim Burton foi a abertura do filme, que mostra um conjunto residencial norte-americano dos anos 50. O enquadramento era total Edward Scissorhands.

Mas, pou, não quero falar de Tim Burton e do estilo dele.

Grandes Olhos conta uma daquelas histórias "baseadas em fatos reais". É a dramatização do início da carreira da pintora Margaret Keane. O filme dá a entender que ela foi um Romero Britto de sua época, extremamente popular e xingada por todo mundo que tinha "bom gosto e cultura".

O grande lance do filme é que o marido de Margaret assume as autorias das obras da esposa, pra dar "uma força pra ela". Afinal, ela é mulher, ele é homem, e portanto é muito mais fácil pra ele atingir o sucesso. Se as pessoas pensarem que o autor dos quadros é um homem, há mais chances de sucesso.

Sério, essa é a argumentação do maridão, perfeitamente encarnado por Christopher Waltz, pra assumir a autoria e por a mulher pra trabalhar escondida em um quartinho. A história consegue deixar o espectador perplexo. Pelo menos, eu fiquei perplexo e indignado. Não sei o que era pior: o maridão explorar na cara dura a Margaret ou ela abaixar a cabeça e consentir com esse abuso.

Ela é privada da arte, do reconhecimento de seu talento. É obrigada a pintar escondido da própria filha e mentir pra ela dizendo que os quadros são feitos pelo maridão.

Daí, o amigo do maridão pode dizer: "ah, mas ela não foi obrigada a nada. Ela concordou. E o marido só queria ajudar." E acho que esse é o ponto fundamental do filme: como pode alguém permitir que outra pessoa lhe abuse desse jeito? Por que uma pessoa deixa que outra suba em cima dela e mande e desmande?

Melhor ainda, o que faz com que uma pessoa saia desse circuito de abuso?

No caso do filme Grandes Olhos, é uma ótima maneira de explicar por que existe feminismo. As condições que fazem Margaret aceitar o abuso do marido são as condições impostas à mulher pela sociedade. O papo do maridão sobre ele ter mais chances de sucesso por ser um homem corresponde a uma "verdade" pra muita gente de hoje, 2015, quem dirá pro pessoal de 1950.

Margaret permite ser expropriada de sua expressão e arte porque tem medo de ser deixada desamparada com sua filha, tem uma estima muito baixa e, principalmente, porque é mulher.

Lógico que ela dá a "volta por cima", mas acho muito triste da onde ela consegue apoio pra exigir seus direitos.

Enfim, na minha opinião, Grandes Olhos é um filme ótimo pra começar a entender porque existe feminismo.

E também dá pra entender porque existe machismo.

Numa cena do filme, o maridão de Margaret faz uma exigência completamente absurda pra ela e ela consente. Dá pra ver na atuação do Christopher Waltz que o maridão fica surpreso que ela tenha cedido tão facilmente. No seu rosto, a expressão de surpresa do tipo "sério que você vai deixar eu fazer isso?" é imediatamente substituída pelo sorriso "bom, então vamos ver até onde você vai se abaixar" e ele prossegue fazendo novas exigências, cada vez mais terríveis.

Na cabeça do machista, não existe abuso. A mulher sempre consente. O não consentimento é considerado uma resistência "tola", de alguém de mentalidade infantil, que não sabe das coisas. Porque é assim que o machista enxerga a mulher: um ser de mentalidade infantil, inocente, que às vezes tem umas variações de humor inexplicáveis.

A meu ver, sem diminuir as questões feministas e o peso que uma sociedade machista exerce sobre a mulher, acho interessante perceber que essas questões de abuso se fazem presentes em outras relações. Patrão e empregado, mídia e sociedade, laços afetivos. Parece-me que relações nunca são simétricas e sempre tem alguém que vai acabar montando em cima do outro e achando que está tudo bem.

Daí eu fico pensando se a gente, cada um de nós, tem discernimento pra saber quando está montando, quando está sendo montado, quando parar e quando dar um basta.

Ah, as infinitas possibilidades de relações humanas...


segunda-feira, fevereiro 09, 2015

Sobre mercado de quadrinhos

Tem essa matéria onde o Marcello Quintanilha fala sobre mercado de quadrinhos no Brasil.

Daí escrevi um comentário em uma discussão do facebook e achei legal de postar aqui também:

Eu acho que tem umas boas coisas pra pensar aí.
Primeiro, eu penso que crítica de quadrinhos é uma coisa, estratégias para ampliação de público leitor é outra. Acho que elas até podem se misturar às vezes, mas não são a mesma coisa.
Para ampliação do público leitor, matérias e entrevistas veiculadas em jornais, tv e meios com maior "visibilidade" podem ser muito úteis. Mas quando vejo o pessoal da Globo News falando sobre a criação da Academia Brasileira de Quadrinhos ou mesmo essa matéria da Época Negócios, eu fico com dúvidas se vão despertar em alguém que não tem familiaridade com quadrinhos o interesse por ler alguma obra. 
Quando alguém lança uma obra em quadrinhos e recebe atenção da imprensa, da mídia não especializada em quadrinhos, como é feita a cobertura desse acontecimento? Alguém já viu uma matéria em que o autor ou a autora fala sobre a obra que produziu, sobre por que ela é relevante? Eu não lembro de ter visto algo assim. Geralmente as entrevistas mostram o autor respondendo sobre como quadrinho "não é mais pra criança", sobre o que ele costumava ler quando era criança, sobre quadrinhos e educação e por aí vai. 
Será que isso colabora pra ampliar o público? Eu não sei e tenho muitas dúvidas a respeito. 
Já sobre a crítica de quadrinhos... Quem lê e curte quadrinhos procura resenhas, críticas, fóruns especializados em quadrinhos. Mas é preciso deixar claro que uma mesma obra pode receber qualificações completamente diferentes. Não acredito em uma "ciência exata" da crítica, seja de quadrinhos ou de qualquer outra forma de expressão. Cânones, tendências, regras formais, tudo pode ser rompido de acordo com uma contextualização maior da obra. Por isso, pra mim, crítica deve ser entendida com parte de uma discussão saudável e necessária sobre a produção cultural e não como uma "sentença" que decreta o que é "medíocre", "fraco" ou "genial". Crítica que mereça esse nome não pode ser guia de consumo ou aplicação de rótulos. Tem que ter análise e reflexão. 
Acho que os quadrinhos brasileiros tem duas características basilares: a paixão do leitor e a "camaradagem". 
As pessoas fazem quadrinhos primeiro porque amam quadrinhos. Sim, querem viver disso e fazer disso profissão. Daí precisam produzir em série, constantemente, porque quadrinhos é indústria cultural, consumo de massa. Podem aparecer coisas bem bacanas no meio dessa produção, mas em geral prevalecem as fórmulas narrativas que agradam o público: super-heróis, aventura, romance. Essas fórmulas narrativas facilitam a produção que visa o "sucesso de público". A lógica de trabalho pra produzir em quantidade pra atender demandas de mercado é diferente da lógica de encarar o trabalho de maneira autoral, buscando novas formas e temas que podem não ser sucesso de vendas. 
Daí, acredito que discutir a crítica de quadrinhos é uma coisa, discutir estratégias de divulgação e construção da imagem dos quadrinhos perante o mercado e o senso comum é outra. 
O senso comum ainda vê os quadrinhos como um produto cultural menor e engraçadinho. As matérias ainda usam artigos masculinos pra se referir aos quadrinhos (escrevem "o" HQ, "um" HQ pra uma sigla que é "história em quadrinhos", portanto feminina). 
Soluções pra fortalecer o mercado de quadrinhos eu não tenho nenhuma. Mas acredito que independente de estratégias e vendas, as pessoas vão continuar produzindo seus quadrinhos por aí. Acho que os quadrinhos tem um valor cultural e social que extrapola a lógica de mercado. Daí a importância de eventos como o FIQ, que considera essas dimensões sociais e culturais e não reduz os quadrinhos a um produto de consumo descartável. 
Esse é um assunto muito bacana e, acho que, inesgotável.
O lance é que eu entendo quadrinhos como uma atividade humana, cultural e social, e, portanto, maior que a lógica de mercado. Porque, vamos convir, a lógica de mercado é muito simples: você precisa acumular capital. Não importa como você faz isso. Essa é a medida de todas as coisas: acúmulo de bens, sem fim, sem limites. Acho que, enquanto seres humanos, perdemos um bocado ao reduzir todas as nossas expectativas de realização pessoal ao acúmulo de bens e à tal "competitividade" que isso implica.


sexta-feira, fevereiro 06, 2015

Stand by

Eu decidi esperar.

Não sei bem pelo quê. Se por um grande acontecimento, por uma visita inesperada, um incidente extraordinário. Talvez esperar por alguma coisa que nunca venha, alguma coisa que pudesse dar propósito, sentido pra uma existência. Algo assim, simplesmente espetacular.

De qualquer forma, esperar pra poder jogar em alguma coisa externa essa pesada pretensão de querer que a vida tenha um sentido, uma relevância. Pra poder respirar um pouco dessa obrigação de fazer sentido, de bastar-se pra vida. Amarrar toda essa angústia num pacote de expectativas empolgantes e colocar numa gaveta, no fundo da minha cabeça. E sair pra dar uma volta.

Passear pela praça, curtir a tarde, ver os pombos, talvez pegar um cinema. Ficar acordado de madrugada escrevendo, desenhando. Trabalhando pra fazer um livro. Tirar dias inteiros para ler os autores que quero pra fazer meu doutorado. Ler com calma, mastigando bem as palavras e ideias de Raymond Williams, Frederic Jameson, Bakhtin. Ler muito. Ler bobagens fantásticas. Assistir desenhos animados, filmes, séries. Caminhar bastante. Sem rumo. Com rumo. Inventar horários para cumprir. Mudar os horários a bel prazer. Fazer regras pra descumpri-las quando der vontade.

O caos. A anarquia. A esbórnia. A irregularidade tornando-se rotina.

Enquanto espero.

De boas na lagoa. Cumprindo ordens. Aproveitando calmarias e me lascando quando os prazos e os compromissos pesam a mão no ombro. Sem culpa, sem pretensão, sem angústia, fazendo de cada dia qualquer coisa que eu queira ou que pelo menos não me desgaste tanto.

Esperando.

Expectativas empolgantes e indefinidas dentro de uma gaveta, no fundo da minha cabeça. Embrulhadas em papel pardo.

Será que vou saber quando a espera acabar? Ou descobrir que ela já acabou?

Veremos.


quarta-feira, fevereiro 04, 2015

O lance da fotógrafa de guerra

Hoje foi a vez de assistir Mil vezes boa noite.

Já fazia tempo que eu queria assistir esse filme.

O lance da fotógrafa de guerra que recebe um ultimato da família: largar a profissão ou ser largada.

É um drama bem bacana. Dá pra entender a aflição do marido e das filhas com o risco de morte que a personagem da Juliette Binoche sofre durante suas missões.

Mas também dá pra entender perfeitamente as motivações da fotógrafa. Ela diz que fotografa aqueles que o mundo prefere esquecer e tenta esfregar a realidade sofrida dessas pessoas na cara daqueles que folheiam um jornal ou zapeiam pela web sentados confortavelmente em um café, em casa, no shopping. Achei essa fotógrafa com um quê bem forte de Eliane Brum.

Uma cena que achei bem foda é quando a editora-chefe conta para a fotógrafa que não vai publicar suas fotos sobre as muçulmanas terroristas porque essas fotos faziam as terroristas parecerem "humanas". Daí tem a cena inicial que mostra justamente a fotógrafa acompanhando uma dessas mulheres-bomba e, de fato, o filme não mostra um bando de fanáticas descerebradas, mas trata elas com um respeito surpreendente. Tanto as fotos da personagem quanto a direção do filme mostram a tensão, o desespero e a dor de se despedir de um familiar que está partindo pra um ataque suicida. Não acredito que existam coisas que justifiquem o terrorismo, mas tem coisas que explicam. Além do "fanatismo" religioso, existe um grande desespero e uma total falta de perspectiva para o futuro. O filme aborda essas questões muito bem.

Gostei bastante.


terça-feira, fevereiro 03, 2015

Com amor

Outro dia vi o filme Whiplash.

Um filme sobre obsessão, sobre a vontade de ser perfeito.

Tem esse moleque que quer ser baterista, não apenas um bom baterista, mas o melhor baterista de todos os tempos. E tem esse professor que acha que os gênios surgem da adversidade, que é preciso pressioná-los, e por isso ele torna a vida dos seus alunos um inferno. Fomenta a competitividade a limites praticamente insuportáveis.

Eu acho que música se faz com amor e não com ódio.

O mesmo vale pra literatura, arte, quadrinhos. A ideia de ser o "melhor", a pretensão de se destacar entre os outros humanos e ascender a uma espécie de panteão dos "grandes"... não acho que sejam boas motivações, sabe.

Acho engraçado que essa vontade de se tornar imortal através da arte, de se tornar "importante", relevante.

De certa forma, é parecido com o Birdman.

Sobre o Birdman uma amiga comentou:
Esse filme é sobre implorar, seja lá do jeito que for, pelo amor e pela aprovação dos outros. Nada pode ser mais humano. É o que todos nós fazemos, no fim das contas.
Soma isso com o podcast sobre felicidade que o pessoal da revista Clichê gravou. Um bate-papo bem gostoso que levantou boas ideias. Pra variar, ao falar da felicidade a conversa acabou passando pelo conceito do amor, digamos assim, "romântico". A ideia de que, se encontrarmos a pessoa certa, tudo ficará bem.

Amor e aprovação. Reconhecimento. A confirmação de que somos especiais.

Tem que descobrir um novo jeito de dar sentido pra vida, porque esse daí não funciona. Fazer arte pra ganhar aplausos, arranjar namorado ou namorada pra ser feliz... não é uma boa estratégia. Mas isolar-se numa casca de autossuficiência também me parece um equívoco.

A real é que não conheço nenhuma teoria ou filosofia ou estratégia que dê conta de todo o potencial humano. A gente fala em felicidade e sabe que é um momento, um conjunto de momentos dentro dos quais estamos bem, muito bem, extraordinariamente bem. E a infelicidade é outro conjunto de momentos. Mas a grande maioria dos momentos da vida é nem feliz, nem infeliz. É OK.

O professor do filme Whiplash acha que OK é o fracasso. Você precisa ser mais que OK. Mas a vida não é assim.

E a questão não é como superar os momentos OK, como transcender e chegar ao "olimpo", mas como aceitar esses momentos. Como aprender a nos amar e a curtir essa vida quando não estamos no alto nem no fundo, que é a maior parte do tempo.

A vida não se mede com planilhas e "sucessos".

Ainda não sei direito como viver, como fazer ou trazer sentido pro estar aqui. E talvez nem precise. Talvez seja coisa de só entender que nem sempre podemos ter o que queremos, mas muitas vezes temos o que precisamos. Não é ser acomodado, sabe. Esse papo parece ser conformista, mas não é isso.

Acho que o meu ponto é que temos que entender bem as nossas inquietudes, nossas angústias, e enfrentá-las diretamente e não projetá-las em relacionamentos ou trabalho...

Ando meio angustiado, gente.

E isso é bom.

:-)