segunda-feira, março 30, 2015

Duas citações

Primeira citação :
"(...) a cultura é a organização simbólica dos significados e valores de uma determinada sociedade, sendo, portanto, patrimônio de todos. A produção cultural é fundamental na reprodução da sociedade e está profundamente imbricada em seus conflitos e lutas, cujas marcas moldam a própria estruturação dos modos de dar sentido à vida, sejam eles obras de elaboração artística densa ou tipos de organizações e instituições sociais. Fazer crítica, mais do que avaliar obras e decidir quais devem ser disseminadas ou esquecidas, é um instrumento de descoberta e interpretação da realidade sócio-histórica inscrita na produção cultural." 
(Maria Elisa Cevasco, prefácio à edição brasileira de "Política do Modernismo", de Raymond Williams, publicado pela editora Unesp em 2011)

Segunda citação:
"We are the Crystal Gems
We'll always save the day
And if you think we can't
We'll always find a way
That's why the people of this world
Believe in
Garnet
Amethyst
and Pearl...
and Steven!" 

(canção tema de abertura da série animada "Steven Universe", composta por Rebecca Sugar, cuja primeira versão foi tocada no episódio "Piloto" que foi ao ar nos EUA em 21 de maio de 2013)

sexta-feira, março 27, 2015

Making sense

Pelas manhãs trabalho na biblioteca.

Agora, nesse momento, atrás de mim, dois estudantes. Falam em limites, valor de x, funções. Matemática.

Eu estou pensando como resumir a história da New Left pra incluí-la na minha tese.

A New Left foi um movimento de esquerda (dããr) que surgiu na Grã-Bretanha depois de 1956. Até 1956 muitos intelectuais britânicos de esquerda se reuniam em torno do Partido Comunista da Grã-Bretanha (CPGB). Em 1956, eles, junto a cerca de um terço dos membros, abandonam o partido comunista, em protesto e discordância com as atrocidades cometidas pelo governo stalinista e reveladas pelo primeiro-ministro Nikita Kruchev durante o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética. Indignados, o pessoal de esquerda decidiu iniciar um novo movimento, a tal New Left.

Sobre a União Soviética, stalinismo e comunismo, o Terry Eagleton escreveu em seu livro Depois da Teoria:

"(...)uma coisa é fazer uma revolução, outra coisa é sustentá-la. Na verdade, para o mais iminente líder revolucionário do século XX, o que deu vida a algumas revoluções foi também o que, em última instância, as levou ao fracasso. Vladimir Lenin acreditava que o próprio atraso da Rússia czarista era o que havia ajudado a tornar possível a revolução bolchevista. A Rússia era uma nação pobre de instituições cívicas que garantissem a lealdade dos cidadãos para com o Estado e, assim, ajudassem a evitar a insurreição política. Seu poder era centralizado, ao invés de difuso; coercitivo, ao invés de consensual. Estava concentrado na máquina do Estado, de modo que derrubá-lo era o mesmo que se apossar, de um só golpe, da soberania. Mas foram essa pobreza e esse atraso que contribuíram para por em perigo a revolução, uma vez feita. Não se podia construir o socialismo num ermo econômico, cercado por poderes mais fortes e politicamente hostis, em meio a uma massa de trabalhadores e camponeses sem capacitação e analfabetos, carentes de tradições de organização social e autogoverno democrático. A tentativa de fazer isso requereu as medidas de força do stalinismo, que acabaram por subverter precisamente o socialismo que se estava tentando construir."
Então.

Em 1956 intelectuais se desligam do Partido Comunista da Grã-Bretanha por causa da grande decepção com a União Soviética. Muitos desses intelectuais, como Raymond Williams, são oriundos da classe trabalhadora e observam a questão das diferenças de classe e exploração da classe operária pela classe burguesa (a velha história que a gente já ouviu e conhece bem...). Mas, mais do que isso, esses intelectuais percebem que o mundo está se reconfigurando e que as disputas de poder podem se revelar em diversas outras instâncias. Talvez além da luta de classes ou talvez exatamente a mesma lógica da luta de classes levada a outras dimensões: questões raciais, questões de gênero, etc.

Mais ainda. Além de todas essas questões, um sistema econômico que dita as regras de praticamente todas as relações humanas do globo. Do macro para o micro. Das relações de soberania entre países que detém diferentes papéis de poder fundados diretamente em torno do capital até as mais inócuas relações amorosas que são pensadas em termos de "custos e benefícios" ("ah, ele/ela às vezes é desagradável, mas trabalha bastante e ganha o suficiente, então compensa e a gente continua junto").

E eu leio essas coisas e penso nas pessoas mortas por decisões políticas na URSS e nos EUA, porque no fim das contas sempre tem alguém com autoridade que vai fazer um cálculo e decidir que certos benefícios justificam sacrifícios humanos.

E atrás de mim os dois ainda estão falando sobre o valor de X.

Não acredito em uma hierarquia de conhecimentos, sabe. Não acho que tenha um conhecimento com mais valor ou mais relevância do que outro. De certa forma, acredito que está tudo conectado.

Mas confesso que, intimamente, fico meio perdido, sem ânimo, sem vontade de fazer nada, porque, quando escuto as pessoas dedicando tanto esforço pra entender as matrizes, limites e funções e quando lembro do tempo que gastei na minha vida estudando exatamente as mesmas coisas, tentando entender lógica e equações e percebo o quanto esse esforço de entender a complexa matemática parece afastar e isolar mentes de entender pessoas e outras lógicas e disputas de poder... quando penso em tudo isso eu desanimo.

Podemos construir prédios extraordinários e fazer máquinas com toneladas de peso ganharem os céus em voo, cruzando distâncias absurdas em horas. Podemos redimensionar o mundo em tempo e espaço. Mas, como humanidade, como totalidade, a maior parte de nós ainda nem tem água encanada.

No meio disso tudo, ainda encontro pessoas que tiveram contato com a miséria e violência, com a diferença brutal de concentração de renda e suas consequências, e que divulgam e endossam com convicção um texto que diz, literalmente, que o capitalismo trouxe luxo aos pobres.

Engenheiros extremamente inteligentes que contam piadas de estupro e acham isso completamente normal. Pessoas que divulgam informações mentirosas para combater a corrupção. Pessoas que não conseguem perceber as contradições entre o que acreditam e o que praticam.

O que eu tenho é essa sensação desgraçada de que tem algo muito errado, de que estou irrevogavelmente comprometido com um projeto de humanidade falido. Terry Eagleton, no mesmo livro, escreve que a esquerda tem uma coleção de derrotas em sua trajetória. Muitos outros intelectuais de esquerda concordam com ele.

Ao meu ver, o pensamento de esquerda é coletivo, inclusivo, preocupado com a humanidade como um todo. Se a maioria de nós vive na miséria, não é por falta de esforço ou por uma superioridade "natural" dos bem-sucedidos. Se a maioria de nós vive na miséria, nosso projeto enquanto humanidade não deu certo. O mundo deveria ser colaborativo e não competitivo. Essa é a utopia, a direção pra onde eu gostaria que caminhássemos.

Obviamente, não tem dado muito certo. Há esquerdistas machistas, racistas, hierarquistas e tão obtusos quanto o pessoal de direita que costumam criticar.

Nas simplificações de nosso tempo, a gente carinhosamente chama reclamações e lamentos de "mimimi". É pra diminuir, pra tornar essas reclamações e suas causas uma coisa menor, inócua, uma bobagem. "Tem miséria demais no mundo". Mimimi. Transforma-se angústias e miséria em mimimi. Bobagem. O mundo é assim.

É só trabalhar duro que tudo vai dar certo. É só ter fé em Deus.

Talvez tudo seja mesmo uma grande bobagem. Uma gigantesca, complexa, terrível e cruel bobagem.

quarta-feira, março 25, 2015

Pequenos dilemas

Assim, você já pensou que pode se tornar aquilo que você combate?
Por exemplo, você combate a corrupção e pra isso propaga informações mentirosas sobre corruptos. Você já parou pra pensar que isso te torna corrupto também?
Você pode justificar dizendo qualquer coisa. Mas consegue perceber que pra combater a corrupção você está sendo corrupto? Você, que acha a corrupção indefensável?
Você defende a liberdade de expressão, mas defende o retorno de um regime que se propõe a matar aqueles que tem opinião diferente da sua. Consegue perceber a incoerência?
Se diz cristão e usa a bíblia pra oprimir e dominar as pessoas. Acha que se Jesus voltasse hoje, ele ia ficar do lado de latifundiários contra os sem-terra.
O meu dilema é que antes eu achava que isso era problema cognitivo ou uma construção cultural. Que com diálogo, informação e boa conversa tudo podia se resolver e podíamos construir juntos uma sociedade.
Mas ultimamente percebi que não é bem assim. Tem pessoas que conscientemente são homofóbicas, racistas, machistas. Tem pessoas inteligentes e completamente funcionais que realmente não se importam se há uma maioria que vive em condições de miséria. Aliás, que fazem questão que as coisas continuem assim. Conscientemente e convictamente.
E aí? Como faz com essas pessoas?
Como construir uma sociedade inclusiva e pelo menos um pouco menos injusta sem incluir a parcela de pessoas que abraça de coração o preconceito e a hostilidade?

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Essa foi outra postagem que fiz no facebook.
Como diz uma amiga minha, "tá foda viver".

sexta-feira, março 20, 2015

Envelopar e enviar

"Vou escrever uma história de fantasmas agora", ela datilografou.
"Uma história de fantasmas com uma sereia e um lobo", datilografou mais uma vez.
Eu também datilografei.

A menina submersa, de Caitlín R. Kiernan. Vencedor do prêmio Bram Stoker.

Fiquei brigando com esse livro... seis, sete meses?

Eu desistia, voltava, desistia, voltava. Me perdia. Lia tudo de novo. Sempre achava que tinha algo ali, nas entrelinhas, nas múltiplas narrativas, nas dúvidas sobre a realidade/delírio da India Morgan Phelps, a Imp, narradora, esquizofrênica, lutando com seus demônios e aquela coisa toda.

Eu desistia do livro e voltava e começava de novo e tentava rastrear, mapear, organizar tudinho igualzinho à Imp com as sementes de mostarda.

Mas no meio desse livro tem essa ideia deliciosa sobre o ato de escrever. Escrever enquanto auto-exorcismo, assombração criptografada, envelopada e enviada. Tipo a fita VHS da Samara Seven Days.

Essa é uma característica dos fantasmas, uma característica muito importante: você tem de tomar cuidado porque assombrações são contagiosas. Assombrações são memes, em particular, transmissões de ideias perniciosas, doenças sociais contagiosas que não precisam de hospedeiro viral nem bacteriano e são transmitidas de milhares de modos diferentes. Um livro, um poema, uma canção, uma história de ninar, o suicídio da avó, a coreografia de uma dança, alguns quadros de filme, um diagnóstico de esquizofrenia, o tombo fatal de cima de um cavalo, uma fotografia desbotada ou uma história que você conta para sua filha.
Ah, no final fiquei decepcionado. Sei lá, acho que o mistério era melhor do que sua solução. Por outro lado...

Eu gostei dessa ideia. Prender fantasmas em uma pilha de páginas.

Melhor ainda.

Fazer as pazes consigo em uma pilha de páginas.

Imagine.


O Momento

Sonho: estou no meu apartamento do 2o andar, olho pela janela e vejo meu filho de 4 anos brincando no parquinho. Daí percebo que ele tem uma granada nas mãos. Ele puxa o pino.
Acordo.
Imagine.
Ui.

quarta-feira, março 18, 2015

Democracia & corrupção

A gente defende liberdade de expressão pra uma multidão ir pras ruas protestar e pedir a volta de um regime que proibia manifestações e que punia com tortura, morte e sumiço do corpo qualquer um que tivesse uma opinião diferente. 
A gente defende o direito de manifestação de uma parcela da população que chama de burro quem não vota em seus candidatos e elege em primeiro turno animais que cagam epicamente com a educação, o fornecimento de água, o urbanismo. 
Pelo amor de Deus, gente que compartilha posts do Álvaro Dias! 
Gente que acha que militares armados são o suprassumo da civilização. Gente que lê a Veja e tem muito orgulho disso. Gente que é contra a corrupção e vai manifestar usando a camiseta da CBF. 
Gente que fala que estamos em uma ditadura e pressiona suas empregadas domésticas, porteiros, motoristas, jardineiros e qualquer um de classe social menos privilegiada a lutar por políticas que beneficiam madames e prejudicam pobres. 
Gente que é contra a roubalheira do PT e é incapaz de enxergar a sujeira do próprio rabo no dia a dia. 
Gente que acha que se Jesus Cristo voltasse hoje, ele iria apoiar latifundiários e ser contra os sem-terra. 
Gente... MULHER que segura placa dizendo "feminicídio sim". 
Enfim, democracia é isso. É você aceitar que há opiniões diferentes da sua. O grande problema é conciliar as expectativas de quem tem pretensões de viver como privilegiado em um grande campo de concentração com as expectativas de quem acredita que com toda essa riqueza não existe mais razão pra ninguém passar fome.

Escrevi isso pra um post no Facebook por causa da passeata de domingo.

Acho que as pessoas que foram pras ruas fizeram um protesto legítimo sim, acho que elas têm o direito de se manifestar e acho que esse ato de domingo pode até ter boas consequências.

Só que preciso dizer que há muitos problemas no discurso dessas pessoas. Preciso dizer que é um equívoco pensar que todos os problemas do país serão resolvidos com o fim de um partido, quando há outros partidos com altos índices de corrupção dentro de uma estrutura que parece funcionar na base da corrupção.

Também acho um equívoco orientar-se por uma mídia, seja Globo, Folha, Carta ou o que for, que claramente enfatiza certos aspectos e ignora outros, sem questionar os interesses dos grupos privados envolvidos. Não existe mídia neutra. Nenhuma. Eu não sou neutro. Dá pra perceber, né?

Daí um colega me acusou de querer invalidar a manifestação porque não aceito uma oposição ao governo. Outro equívoco: eu aceito uma oposição sim. Eu estou muito, mas muito decepcionado com o governo. Só que não vou pra rua me manifestar do lado de gente que quer a volta de um regime que torturava crianças na frente dos pais. Não vou pra rua me juntar a uma massa que acha que a "corrupção" vai acabar se a presidenta receber um impeachment.

Penso que precisamos compreender que a tal "corrupção" é uma prática encalacrada na cultura capitalista. Não falei cultura brasileira, falei cultura capitalista. Pedir 10%, 20% pelas "indicações" de trabalho é uma ação que já vi em escritórios de arquitetura e gráficas. Orçamentos de marceneiro ou de impressão que chegavam ao cliente com uma parcela a mais pra pagar a arquiteta ou o publicitário envolvido na "indicação". Um tributo, um "agrado" ao pessoal chique e criativo.

Lógico que a coisa ganha outra dimensão quando envolve dinheiro público. Lógico que os representantes da União envolvidos precisam ter uma postura ética diferente dos profissionais de mercado. Mas a meu ver o problema não é só a "corrupção". É a mentalidade predatória típica do capitalismo. Explorar o máximo que puder pra obter o lucro máximo.

E tem também toda aquela construção cultural de que se você trabalhar muito,muito mesmo, vai ficar rico. Tem a contribuição cristã de culpa e sofrimento, por isso o trabalho precisa requerer "sacrifício".Tem que sofrer. Tem que sofrer muito pra ganhar pouco.  Daí que é intolerável quando aparece alguém se "dando bem". Ódio pelos programas sociais que facilitam a vida de vagabundos, desprezo por quem trabalha pesado em obras, faxina, "subempregos". Joelhos dobrados e louvores diante de gente de bem, de donos de empresas, de pessoas que ganham muito mais do que precisam pra viver e ganham isso com o acúmulo de 10%, 20%, 50% em cima do trabalho de outros. Lógico que ninguém reclama disso, o mercado é assim, é natural. Na real, acho que as pessoas, digo, os trabalhadores que se sujeitam a essas regras de mercado, não reclamam porque simplesmente não param pra pensar. Ou não podem. Capitalismo é a escravidão cordial.

Por essas minhas considerações, você já deduz minhas inclinações ideológicas. Mas não me xingue. No fim tudo é utopia. No fim, na real mesmo, nenhum de nós tem ideia do tamanho do esquema. Nenhum de nós tem uma ideia clara do que está acontecendo, por mais que se ache esperto e bem-informado....

Blá.

Só ideias esparsas, nada sério. Não me leve a sério.

Vou começar a postar desenhos, é mais bacana.

domingo, março 01, 2015

Crazy

"Tu é louco", ela falou pra mim antes de sumir da minha vida. Ela tava com muita raiva. E talvez triste, desesperada, frustrada.

Eu também.

E ela saiu, foi embora, fechou a conversa, não me deixou espaço pra resposta.

Daí aquela moçoroca de sentimentos dentro de mim, de querer que tudo tivesse terminado de um jeito melhor, de perceber que aquilo era o melhor que nós dois podíamos fazer e sempre íamos machucar um ao outro.

Tu é louco. E foi embora.

Daí eu comecei a cantar sozinho.

I remember when, 
I remember, 
I remember when I lost my mind 
There was something so pleasant about that place 
Even your emotions had an echo 
In so much space 

And when you're out there, without care 
Yeah, I was out of touch 
But it wasn't because 
I didn't know enough 
I just knew too much 

Does that make me crazy? 
Does that make me crazy? 
Does that make me crazy? 
Possibly 

And I hope that you are having the time of your life 
But think twice, that's my only advice 
Come on now, who do you, who do you, who do you 
Who do you think you are? 
Ha, ha, ha, bless your soul 
You really think you're in control 

Well, I think you're crazy 
I think you're crazy 
I think you're crazy 
Just like me 

My heroes had the heart to lose their lives out on a limb 
And all I remember is thinking, 
"I want to be like them" 
Ever since I was little, ever since I was little it looked like fun 
And it's no coincidence I've come 
And I can die when I'm done 

 Maybe I'm crazy 
Maybe you're crazy 
Maybe we're crazy 
Probably