domingo, abril 19, 2015

Um nome

Por alguma razão ela decidiu ter o bebê.

Logo após perceber que estava grávida.

E perceber que não se importava com a dúvida sobre qual deles era o pai.

Absolutamente.

Ela imaginava, tentava imaginar uma forma de definir isso, essa consciência (ou intuição?) de se comprometer, de se doar, de repousar as suas prioridades das próximas centenas de meses sobre essa coisinha. 

Essa filha. 

Ou filho.

Quando descobriu que seria uma filha, ela lembrou-se daqueles dias de estudos, dos livros velhos, cheios de nomes. Daí ela pensou: será que existia um nome antigo e esquecido? Um velho nome de mulher que não fosse mais usado. 

Existia um nome assim?

É óbvio que ela não o encontrou nos livros, mas em um sonho.

Era de fato um capricho um tanto estranho. Mas ela pensava que nomes deveriam ser especiais e que aquela seria uma boa história para contar. 

E se Beneivolia não gostasse de seu próprio nome,  ela que trocasse quando quisesse. Assim como tudo o mais, ela que decidisse quem queria ser.

Mas ali, naquele momento, ela era a mãe e ela escolhia o nome de seu bebê, então, exatamente 177 anos, 3 meses e 12 dias depois da última Beneivolia ter deixado a face da Terra, Beneivolia chegou ao mundo.

Novamente.

As pessoas amigas a chamavam de Beni.

O nome ele manteve.

E, de fato, ele gostava de contar essa história e ver a cara das pessoas que perguntavam o porquê de seu nome.

Downton Abbey

"Muito bem. Quando terminar, volte para 
cozinha e tente não ser vista."

Downton Abbey, temporada 1, episódio 1.

Palavras chave: luta de classes, desigualdade, exploração, disputas de poder, machismo.

Sensacional.

Sensacional.

domingo, abril 12, 2015

Vai, Demolidor!

Assisti só oito episódios da nova série do Demolidor e, na minha opinião, acho que é a melhor adaptação do gênero "super-heróis" pras mídias audio-visuais.
Acho que o formato de série serve melhor pra construir a relação do espectador com o universo fictício. O ritmo e o uso do tempo no seriado permite um desenvolvimento de narrativa e personagens que acaba servindo melhor ao tipo de história que o Demolidor conta do que o formato de filme padrão hollywood.
Na real, a série tem um monte de sequências, cenas e ideias que já foram utilizadas antes. A briga no cais é igualzinha a de Batman Begins, a luta de um sujeito contra vários à medida que avança por um corredor é a mesma de Old Boy... mas acho que o legal de Demolidor é exatamente isso: ele se assume como história de super-heróis e abraça os clichês.
Acho que o Demolidor é muito mais convincente na tal proposta de ser "realista" do que o Batman do Nolan, porque, apesar de tudo, mantém os pés no chão. O trabalho de Murdock como advogado tem tanto peso na trama quanto suas atividades de vigilante. Ele não vence os inimigos com facilidade nas cenas de luta. Ele sofre pra vencer e se machuca um bocado.
Mas o melhor é que ele levanta ótimas e pertinentes discussões sobre atitudes, sobre regras, sobre as tensões entre o individual e o coletivo. Para Murdock, é óbvia a contradição de lutar contra o crime usando uma máscara e desrespeitando a lei que jurou proteger como advogado. Ele mostra claramente essa tensão e procura se justificar como sendo diferente daqueles que combate porque ele não mata. Mas, como dizem, por quanto tempo ele vai prosseguir sem sujar as mãos de sangue? E quando o fizer, ele não terá se tornado aquilo que queria combater?
O personagem que rouba a cena é o Wilson Fisk. Bruto e ao mesmo tempo frágil. Sinceramente preocupado com o bem-estar da sua cidade e totalmente nocivo com suas atitudes.
E o mais doido é que com todo esse clima de "pé no chão", de "realismo", é uma série que se passa na mesma Nova York que serviu de palco pra batalha entre os Vingadores e os Chitauri. É uma cidade que está se reconstruindo e nessa reconstrução há disputas de poder entre diversos grupos que querem se beneficiar.
Mídia, crime, meritocracia, política, cultura, maquiavelismo, facismo: todo o tipo de discussão que uma história de super-heróis pode proporcionar está muito bem embalada em Demolidor. O trabalho dos atores é ótimo e dão outras dimensões para os personagens. Até o Stick, mentor do Murdock, é extremamente fiel aos quadrinhos, o que só evidencia os absurdos de sua pedagogia militarizante.
No fim das contas, a série do Demolidor não é assim excepcional, uma obra-prima. Ela é apenas o óbvio: pegar tudo o que tem de bom nos quadrinhos, pensar em cima e adaptar pra linguagem da tv. O resultado é a série do Demolidor.


sexta-feira, abril 10, 2015

Geração de Valor

EMPRESA é um conceito que gira em torno da individualidade. A única figura central e motriz da empresa é o empreendedor, o empresário, o dono, o patrão. Ele é a razão de ser da empresa. É a ambição dele, o empreendedorismo dele, a visão, a autoridade dele, que constrói a empresa. O protagonismo é do patrão.
O funcionário entra aí apenas como mais uma peça na linha de produção. Por questões pragmáticas óbvias, é melhor para o empresário que essa peça seja eficiente, barata e facilmente substituível.
Tipo, empresário não "gera empregos" para o bem da sociedade. A sociedade é que deve dispor peças para auxiliar no crescimento do empresário. Os produtos gerados pela empresa também não visam o bem da sociedade. Eles visam preencher uma demanda em troca de dinheiro. Assim, a sociedade, além de dispor peças, também consome os produtos e proporciona lucro para o empresário.
Isto é, a sociedade existe para servir a essas pessoas empreendedoras.
Esse raciocínio individualista se alastra também para a política e cultura.
Daí aparece gente que acredita que o Estado é uma empresa como qualquer outra. Só que não é. Porque enquanto o conceito motor da empresa é o indivíduo, o conceito motor do Estado é o coletivo. O Estado deve atender demandas de toda a população, e não só de uma classe específica. Muito menos deve legitimar as práticas de exploração de uma classe sobre as outras.
O Brasil é um país singular, tem características próprias e muitas tensões sociais. "Tensão social" aqui é um eufemismo gigantesco.
Ao meu ver, o problema é justamente o cerne conceitual dos argumentos: o "indivíduo" e a "coletividade".
Se a base de concepção de visão de mundo privilegia o indivíduo, como é o nosso caso, fica fácil justificar a miséria do mundo como "falta de empreendedorismo e vadiagem" dos pobres e o sucesso dos ricos como "uma conquista merecida por muito esforço e trabalho". A real é que na nossa cultura, na nossa mídia, o pobre é visto como uma criatura singular, o empreendedor de classe média como outra criatura singular. Constrói-se a ideia, ainda que ninguém admita, que há "gente de valor", e por consequência, também há "gente sem valor". E quem define o que é valor? Quem dita as regras?
E, melhor pergunta ainda, que tipo de sociedade que essa visão de mundo produz?

domingo, abril 05, 2015

Depois do ensaio

Hoje fui no teatro.

Festival de Teatro de Curitiba. Sabe como é. Pelo menos uma vez por ano, vou no embalo da galera.

Teatro me deixa nervoso. Ansioso. Sempre fico pensando que o ator vai tropeçar, a atriz vai esquecer a fala. Sempre fico incomodado quando alguém levanta e sai. Sempre tenho medo das atuações serem exageradas ou ruins. Tenho medo da vergonha alheia.

Não tem pause, não é gente projetada na tela, não é palavra escrita no papel. É uma pessoa ali, falando e olhando direto pra você. Ela pode te ver e te ouvir.

Teatro é uma arte para os corajosos.

Quando é ruim, é muito ruim. Mas quando é bom... yeah!

Daí "Depois do Ensaio" é um texto do Ingmar Bergman e a apresentação rolou no bom e velho teatro da Reitoria, lá na UFPR.

Outras emoções do teatro: os sons da platéia. Rangidos das velhas poltronas e eu ficava pensando se montassem uma peça passada nos porões de uma caravela. Navio pirata ou navio negreiro. Aproveitar os sons do ambiente. Um novo tipo de interação com o público.

Muita tecnologia, cultura e educação por parte do público. Só falta aprender a desligar o celular. Por no silencioso já era suficiente. E sempre tem um filha da puta...

Mas a peça foi show. Muito bacana. Amor, amor, amor. Amor não realizado, amor interrompido. Existe algum amor mais marcante que esses? Mais perturbador? Mais digno de ir pro teatro? Pou, quem quer final feliz? Né?

Eu curti. Curti muito. Nada pesado, pelo menos não achei. A gente vive, a gente ama, a gente trai e é traído. E daí a gente fica velho. "Cada dorzinha uma mordida de leve da morte que vai levando a gente de pedacinho em pedacinho".

E, no fim, o que preocupou o velho Henrik foi não ter ouvido os sinos.

É uma boa vida.


quinta-feira, abril 02, 2015

Certeza

As coisas podiam ser mais simples.

Tipo a maçã do Newton.

Mas é tudo muito enganoso. A maçã do Newton parece simples, a gravidade parece simples, mas daí você vai olhando mais perto, mais perto, vai vendo a relação de corpos celestes, vai tentando entender como as coisas se relacionam e vai precisando de cada vez mais cálculos, mais estudo, mais pesquisa. E sempre que a gente resolve alguma coisa, aparece outra. E às vezes aquilo que a gente tinha por certeza se mostra um engano. E, a despeito de todas as nossas conjecturas, esforços, pensamentos e ciências, o Universo permanece. Já estava lá bem antes de tudo isso e continuará depois.

As coisas podiam ser mais simples.

Corpos celestes são fascinantes, mas vamos convir que os corpos terrestres, esses mundanos, que assistem tv e discutem política, futebol e religião apaixonadamente, também são difíceis de entender. Relações de poder, classes sociais, sexo, gênero, ideologias. Amor e seu contrário.

Tudo parece mais pesado, sabe. Por um momento, quero dizer. Há o peso da responsabilidade pelo que dizemos, pelo que assumimos, pelas escolhas que fazemos. Tudo é muito sério, tudo tem consequências.

Por outro lado, às vezes a gente se distrai. Se surpreende. Há muitas coisas fora da time line, que não vão ganhar espaço na pauta. Muitas coisas que estão aí, mesmo que a gente lhes negue relevância.

Não acho que tenha nenhuma teoria, ciência ou pensamento que consiga dar conta de todas essas possibilidades, de todos esses momentos. Contradições, conflitos, tensões tão intensas e cruciais para uma perspectiva e tão sem sentido para outra.

Tem certezas na vida que servem de apoio, que dão sentido, que ajudam a seguir firme numa direção. Mas se a gente olhar bem...

As coisas podiam ser mais simples.