domingo, maio 31, 2015

Esse sujeito doido

Meu nome é Max.

Meu mundo é sangue e fúria.

Mentira.

Eu não me chamo Max. E, embora exista sangue e fúria sobrando por aí, reduzir meu mundo a isso é, no mínimo, uma imprecisão. Meu mundo é caos, um mundo fracionado em mundinhos justapostos, cada um em seu quadrinho. Às vezes os mundinhos se interpenetram.

Todo mundo fala da Furiosa e de como ela colocou o Max pra coadjuvante em seu próprio filme. Mais ou menos como o Coringa costuma fazer com o Batman. Não que a Furiosa seja a mesma coisa que o o Coringa. Nada disso. Na real, não é da Furiosa que eu quero falar. É do Max.

Esse sujeito doido.

Max e seu carro andando dias e dias pelo deserto, pelo nada, topando com outros farrapos humanos. Precisa pensar em conseguir água, combustível, comida. Essas são as preocupações. Fora isso, só existe a imensidão do deserto preenchida pelas lembranças moídas e remoídas. Memórias imprecisas, mas os sentimentos persistem.

E nós? Por que nós persistimos, Max?

Não temos filhos, não temos raízes. Não somos importantes pra ninguém, a não ser pra nós mesmos, talvez. Podemos ter dado uma mãozinha aqui e ali, podemos ter recebido um pouquinho de atenção, mas, na real, nós somos pouco importantes, meu querido. Só dois loucos perambulando por aí. Você no seu carro, eu na minha caixa.

Ainda dois garotos, esperando a aprovação da mamãe. Só que não somos mais garotos, não existe mais mamãe. Dois sujeitos largados por aí, no meio de tantos outros. Não há floquinhos de neve no meio do deserto, que tolice. Mas você percebeu isso bem antes do que eu, Max.

Por que nós persistimos, Max? Deitar na estrada e dormir, deixar de existir, isso parece tão lógico, tão sensato. Deixar o mundo de sangue e fúria seguir em frente sozinho. Isso vai acontecer, é inevitável. Sabemos disso. E, no entanto, persistimos. Rodando. Dirigindo. Tentando conduzir alguma coisa.

Talvez o segredo seja olhar de fora da página. Ver os quadrinhos justapostos. Os mundinhos. As ideias.

Talvez o segredo seja só continuar rodando.

Talvez, e o mais provável, é que não exista segredo nenhum. Só uma necessidade patológica por historinhas que justifiquem a porra toda, que deem um sentido pra isso, pra esse mundo interminável de areias, cores, surpresas e decepções. O mundo não é só sangue e fúria, Max. Tem muitas cidades e coisas estranhas e maravilhosas e assustadoras perdidas debaixo de nossas areias, esperando o vento descobri-las e depois recobri-las.

Lembro de um velho, um velho que era um rosto numa folha de papel colada em parede/poste de alguma cidade/lugar. "Não se preocupe", dizia o velho. Ou pelo menos era o que estava escrito debaixo do rosto impresso no papel. A gente lê um texto, sinaizinhos gráficos justapostos em um suporte, e uma voz se faz dentro de nossa cabeça.  Um pensamento.

É, há muito mais do que sangue e fúria nesse mundo, Max. Nós não somos importantes, não somos protagonistas e hoje

Hoje nós vamos continuar rodando.

quinta-feira, maio 28, 2015

Faz parte

Faz parte do processo, pelo menos do meu processo, me perder um bocado e não saber direito pra onde estou indo nem o que eu estou fazendo. Ainda mais quando a gente começa uma história em quadrinhos longa. Várias páginas e ainda não tenho certeza do total.

Às vezes eu acho que estou fazendo algo bacana, às vezes eu me empolgo com o desenho, com o pincel na página, as linhas brilhantes de tinta fresca. Gosto disso. Ainda assim bate a preguiça, a procrastinação. E daí vem a pressão dos prazos. E o conflito com os outros compromissos.

Dizia um professor de desenho muito querido meu: "cale a boca e desenhe". Acho meio injusto dizer que foi a coisa mais marcante que ele me ensinou, mas é isso. Calar a boca, sentar e fazer é provavelmente o melhor conselho que já recebi. Serve pra tudo. Inclusive produção de teses e álbuns em quadrinhos.


Politicamente (in)correto

O "politicamente INcorreto" já começa errado.
As mulheres reclamam dos estupros de Game of Thrones e lá vem os protetores do "politicamente INcorreto" defender. Mas o mais engraçado é ver gente "politicamente correta" argumentando a favor da presença dos estupros. "Se for importante para a trama, tem que ficar". Curioso que quem defende isso são homens. E não se considera o público feminino, suas percepções e nem o peso do uso corriqueiro do estupro nas ficções na formação de nossa cultura.
O lance é que usar estupro em uma ficção hoje já não é mais uma decisão "estética" do autor. Colocar estupro em um produto cultural hoje é assumir uma posição política e responsabilidades sociais. Requer muito mais estudo e conhecimento de mundo do que "vou colocar uma cena de estupro pra mostrar que esse cara é mau. Hohoho".
"Pou, mas esse mundo tá cada vez mais chato!"
Tá sim. Você ainda não percebeu quanto.
Agora foram "censurar" uma sátira da série Armandinho.
Pra quem não conhece, Armandinho é um personagem de tiras em quadrinhos que circula muito pelas redes sociais. É um personagem "fofo" e que assume uma posição "politicamente correta". Em suas historinhas, ele apresenta ideias sobre solidariedade, desconstrução de preconceitos, comportamentos. Independente da avaliação da qualidade efetiva da série, Armandinho assume posições muito claras.
A sátira que começou a circular apresentava as tiras de Armandinho na íntegra, mas com o acréscimo de painéis que mostravam sua morte violenta. Assim, após dizer que achava uma menina linda porque simplesmente ela era feliz, Armandinho é esmagado por um bloco de concreto que cai dos céus. Depois de dar uma resposta "politicamente correta" pra professora em sala de aula, o chão da sala se abre e ele é tragado para as entranhas flamejantes da terra.
E a gente ri, assim como ri de Happy Tree Friends. A gente ri e depois começa a se perguntar: "pou, o que há de engraçado em bichos fofos explodindo?". Eu não sei, mas a gente ri. Eu rio.
Só que, ao contrário de Happy Tree Friends, na sátira de Armandinho a gente não está só explodindo um personagem fofo. A gente está explodindo um personagem fofo após ele defender que temos direitos iguais, que preconceito é uma coisa que não faz sentido, que precisamos repensar algumas de nossas atitudes enquanto sociedade. O menino faz esses questionamentos e logo em seguida sofre uma morte horrível promovida por uma força invisível, desconhecida e onipotente. A própria Fúria de Deus. Essa é uma leitura possível e completamente legítima da "sátira" de Armandinho.
E foi provavelmente com essa leitura que o autor da série Armandinho e possuidor dos direitos de uso da imagem do personagem acionou judicialmente a retirada da página da "sátira" do ar.
A reação de alguns leitores foi: "ABSURDO! DITADURA DO POLITICAMENTE CORRETO! CADÊ A LIBERDADE DE EXPRESSÃO?"
Acho muito justo definir esses leitores como defensores do "politicamente INcorreto". Eles não estão preocupados com a liberdade de expressão ou com a democracia. Na real, eles apenas odeiam o Armandinho e gostariam de continuar vendo ele morrer toda vez que fala alguma coisa politicamente correta.
Na verdade, trata-se de uma disputa entre "correto" e "incorreto". Cada um defendendo sua posição. E é preciso entender a posição do politicamente incorreto, que é mais ou menos algo assim:
"Porra, esse mundo tá cada vez mais chato! Tinha estupro na idade média, tem que ter estupro na série sim! Essas feministas são umas merdas! Não dá mais pra desenhar mulher de quatro bebendo leite num pires no chão que elas vem encher o saco dizendo que isso é machismo! E querem transformar meu super-herói favorito em um negro! Como ficam minhas lembranças de infância? Pior, querem transformar aquele super-herói num GAY! Porra, qual é? Ele sempre foi espada e comeu muitas minas, como um macho de verdade tem que fazer! Porra, e agora não dá mais pra zoar nem com o Armandinho? Mas EU TENHO O DIREITO DE ODIAR O ARMANDINHO!"
Essa é a pauta.
Olha, a conversa pode até ficar mais sofisticada que isso, podem aparecer outras ideias e argumentos que tornem tudo mais complexo, mas vou falar uma coisa pra vocês: esse lance de politicamente (in)correto é um lance de disputas. São disputas por espaço, por representações, por mudanças que vão implicar em deslocamento de privilégios. Quando você entra nessa discussão, você está assumindo uma posição. Não existe neutralidade, existe negociações entre partes com interesses bem definidos.
Eu ri da sátira do Armandinho, mas eu sei que ela tem muito mais significados, implicações e intenções do que apenas fazer rir.
Então, eu só queria dizer que você tem todo o direito de ter uma opinião, mas gostaria muito que você pensasse exatamente no que você está defendendo com essa opinião.
Só pense.


sexta-feira, maio 15, 2015

Hoje eu assisti MAD MAX.

E é um filme bom assim tipo de chorar de joelhos.

Sério.

Deixa eu explicar pra você o que foi que me atropelou.

É tipo assim ser criança numa tarde de sol, depois da escola, numa época que não tinha internet.

Não ter internet é importante nessa história, porque é o contexto de um mundo onde um guri magrelo, de óculos, fracote e entediado, acha uma caixa de gibis.

Mad Max é tipo o melhor gibi que você vai ver no cinema esse ano. É irônico que seja um filme da Warner.

E eu acho que é um filme gibi sim.

Tem um desses teóricos franceses de quadrinhos, o Pierre Fresnault-Deruelle, que escreveu que "os personagens de quadrinhos foram criados para viver intensamente", Tipo, cada quadrinho é um exagero, uma expressão, principalmente aqueles quadrinhos do Jack Kirby. Pou, e Mad Max tem um bocado dessa energia nas perseguições, na vastidão do cenário, no brilho dos personagens.


Daí aquele guri magrelo quatro-olhos acha essa caixa de gibis cheia de Jack Kirbys, mas mais nos fundos da caixa ele acha aquelas edições de Conan e mais no fundo ainda acha aquelas Heavy Metal e Metal Hurlant e Moebius e onomatopéias e linhas cinéticas e desenhos sensuais e imagens fantásticas. Tipo, Mad Max tem tudo isso. Um pulsar, uma urgência, um descontrole.

E daí tem tudo o mais, mas lógico que quem se destaca são as mulheres. De repente elas estão lá e não estão lá só pra serem gostosas e servir de decoração. Gente, muito foda. Assim, é de dar um nó na cabeça porque esse gibizão parece tão absurdo e espetacular, tão distante e ao mesmo tempo tão próximo da nossa realidade. Essas mulheres e suas esperanças, esses pobres homens e sua violência cega. E perdido no meio disso tudo o tal Mad Max, talvez não tão louco assim.

Na real, talvez não fizesse diferença se Mad Max estivesse ou não lá. Tem gente que fala nessa história de sermos os protagonistas nas nossas vidas, mas o lance é que nesse filme o Max simplesmente passa pela vida dessas pessoas. Ele acaba ajudando sim, acaba fazendo a diferença, mas ele sabe que não era imprescindível. Ele dá título ao filme, é a vida dele, mas ele está só de passagem.

Acho que tem um bocado de pensar diferente as histórias, sabe. Tem esse lance de empoderamento da mulher, mas tem também a desconstrução daquele garoto fanático, alucinado e suicida e o modo como ele de repente começa a ajudar aquelas que perseguia. Acho que essa foi uma das coisas que achei mais bacanas no filme. Podemos desconstruir a sanha pela violência.

E nessa coisa de analisar e procurar sentidos, não posso deixar de pensar que os homens que monopolizam a água e mantém a maior parte da população na penúria são exatamente o mesmo tipo de homens que mantém a maior parte da população na miséria aqui no nosso mundo real. Sempre querendo mais, sempre querendo poder, sempre querendo ser foda.

Engraçado que cheguei no cinema preocupado, era sexta-feira, tava com medo de pegar fila, não pegar um bom lugar. E quando comprei a entrada e entrei no cinema ele estava vazio. Eu era a única pessoa naquela sessão de Mad Max e pensei que ia ter o cinema só pra mim, quando cinco minutos depois do filme começar entraram mais três. Vale dizer que o filme começou direto, sem trailers.

E foi essa coisa de voltar a ser um guri achando a caixa de gibis cheia daquelas coisas, daquelas cores dos anos 80, daquela falta de esperança e daquela centelha que nunca se apaga, que ainda faz a gente acreditar que pode ter algo de bom,  mesmo quando o mundo inteiro parece querer te convencer do contrário. Sei lá, é empolgante, é mágico, é inspirador.

De fazer chorar de joelhos.

Um exagero? Você nunca vai saber. Você não estava lá.


quarta-feira, maio 13, 2015

Sandman ainda é relevante?

No facebook, amigo postou:
Outro dia li um artigo que discutia se Firefly, de 2002, ainda seria relevante, visto a quantidade de ótima séries que saíram nos últimos anos. Fica a minha pergunta: Sandman, mesmo depois de quase 20 anos do seu fim, ainda é relevante, ou é apenas mais um quadrinho bom?
E daí o camarada me marcou no post e  perguntou diretamente a minha opinião.

E aqui está:

Olha, tudo depende de quais são os quesitos que você usa para definir o que é ou não é "relevante". Eu vou dar a minha opinião, tá?  
Pra mim, o primeiro ponto é a relevância histórica. Sandman fecha a década de 80, que teve obras que mudaram a maneira de pensar os super-heróis e ditaram os padrões para as histórias de super-heróis seguintes. Frank Miller e Allan Moore, nesse sentido "histórico" para o gênero super-herói, são muito mais relevantes do que Gaiman. POR OUTRO LADO, é bom lembrar que Sandman começou como uma história de super-heróis no universo DC. Aparecia a Liga da Justiça, o Asilo Arkham e tal. Ele combatia o Doutor Destino (John Dee, da DC) pra salvar o Mundo. Mas depois disso, vêm as histórias curtas "O Som de Suas Asas" e "Contos na Areia" e o grande arco "A Casa de Bonecas". Sandman continua acontecendo no universo DC de super-heróis, mas ele claramente deixa de ser uma história de "super-heróis". Então, essa é uma coisa bem legal pra se pensar: Sandman é o gibi mainstream norte-americano que decide deixar de ser gibi do gênero de super-heróis e se torna um gibi de fantasia e terror. Num mercado onde super-heróis são o gênero predominante, isso significa muita coisa.  
O lance do contexto histórico serve pra balizar as outras questões.  
Por, exemplo, "representatividade" é uma questão muito comentada hoje. Sandman apresenta personagens femininas, homossexuais e transexuais e essas personagens são representadas de forma não estereotipada. Morte, Rose Walker, Thessaly, Barbie, Hipolita Hall e outras são personagens mulheres antes de serem personagens com super-poderes. O cotidiano é fundamental. Vale destacar a minha personagem favorita, Wanda, a transexual de "Um Jogo de Você". Gaiman apresenta essa personagem com naturalidade e muita dignidade. Difícil não se emocionar com o destino dela nesse arco. E, finalmente, Desejo, que muda de gênero de acordo com quem a/o olha. Foi num texto sobre Desejo que vi pela primeira vez o uso dos artigos de gênero ("ele/ela", "a/o") evocando a pluralidade sexual da personagem. Nesse sentido, novamente, Sandman ganha pontinhos de "relevância".  
Uma coisa que me agrada muito é que, talvez por fugir das regras de conflito "herói-vilão", Sandman acaba sendo muito mais surpreendente. "É uma história sobre escrever histórias", já disseram antes. Nas páginas de Sandman vemos referências a folclore, literatura, música, eventos históricos. Além da pesquisa boa que Gaiman faz, ele tem uma prosa muito boa e consegue desenvolver personagens e situações com dramaticidade e humor. A história "Augustus" é sobre um dia que o imperador romano passa disfarçado como mendigo pra esconder seus pensamentos dos deuses. Gaiman usa essa história pra falar de abuso, de responsabilidades, de traumas e do peso dos segredos. É uma história boa pra caralho e essa é a média de Sandman: histórias boas pra caralho. Histórias que surpreendem, que dizem algo mais e que são muito bem escritas.

Fica mais interessante ainda pensar sobre essas histórias quando a gente lê sobre os bastidores, afinal, Sandman era só uma revista de linha e isso implicava em manter uma produção mensal constante. Às vezes um desenhista queria sair no meio do arco (Sam Kieth), às vezes outro desenhista tretava com a editora (Mike Dringenberg e Karen Berger), às vezes um arte-finalista cagava com a arte de toda a edição (George Pratt, quem diria, destruindo a arte de Colleen Doran em "Lua Má Nascente"...). E às vezes também Gaiman estava no meio de um arco e descobria que estava fazendo uma história igualzinha àquele livro de fantasia que tinha saído ano passado e ele ainda não tinha lido. E daí, com o começo do arco já publicado, você tinha que reinventar todo o final pra evitar comparações e ainda manter uma qualidade. Foi assim com "A Casa de Bonecas", cuja história original depois acabou se tornando "Um jogo de Você".

Por fim, o máximo da relevância nos dias de hoje: o sucesso de vendas. Talvez tudo isso que eu tenha escrito acima colabore para que leitores e leitoras nascidos nesse século XXI descubram Sandman e comprem aqueles encadernados caríssimos pra ler sobre personagens que parecem uma banda cover do The Cure. Sandman vende, ainda vende pra caralho. Por tudo isso, na minha opinião, Sandman é relevante sim.

Nunca assisti Firefly.
Abraço!

Pra quem quiser conferir o post e todos os comentários, aqui o link.

:-)

sexta-feira, maio 08, 2015

Animais empalhados

Tipo, agora tou estudando o tal do underground, os quadrinhos underground lá da década de 1960.

Em 1968, Bob Crumb e sua esposa barriguda de nove meses estavam em uma esquina de São Francisco. Tinham um carrinho de bebê e dentro dele os exemplares da Zap Comix, uma revista em quadrinhos totalmente criada por Crumb.

Na introdução da antologia Zap Comix, lançada aqui no Brasil pela Editora Conrad, Rogério Campos escreve: "Carros em chamas. Voam as pedras do calçamento. A polícia descobre, surpresa, que não pode mais avançar sobre as multidões desarmadas com tanta certeza de sair ilesa. Tempo de insurreição".

Nossa, imagina aqueles anos. A década de 1960. A música, as drogas, a revolução sexual, a literatura, o enfrentamento. Os quadrinhos.

O tal "Sistema", o tal "establisment", comprou ou esmagou a contracultura emergente. Ou você virava produto e estava ok ou você era ignorado, sufocado, pisado. De um jeito ou de outro, dava no mesmo: a neutralização da potencialidade para mudança ou para abrir pelo menos uma possibilidade de existência fora do sistema. Não é possível sair. Temos liberdade, mas é uma liberdade cheia de condições impostas.

Nossa, que loucura aqueles anos.

Daí difícil não pensar nos dias de hoje. Não sei se as coisas mudaram muito. No fim, ainda é um monte de gente com pontos de vistas diferentes tentando convencer os outros de que estão certos.

Mas o meu problema mesmo, o meu mimimi da vez, é a sensação de que falar academicamente sobre a contracultura é insuficiente. É como se a sobriedade e objetividade e racionalidade não dessem conta de falar sobre um movimento que era exatamente contra sobriedade, objetividade e racionalidade. Fica faltando algo.

É como olhar animais empalhados.

Preciso achar o que está faltando.


quarta-feira, maio 06, 2015

Tapa na cara

Sabe aquele filme Whiplash, do casal sadomasoquista de bateristas?

Nada contra o sadomasoquismo, acho que havendo consentimento, vale tudo.

Mas tem uma coisa naquele filme que me incomoda de verdade.

É a filosofia do professor que o J. K. Simmons interpreta.

Esse professor torna a vida dos alunos um inferno, porque acredita que os melhores só vão atingir a genialidade se passarem por pressões terríveis. A adversidade, melhor dizendo, a ADVERSIDADE EXTREMA é a pedagogia desse professor. A cena que acho mais absurda é quando ele dá um tapa na cara do aluno.

"Se o fulano não tivesse jogado um prato no beltrano, ele não teria se tornado Charlie Parker", diz o Simmons.

É a violência e a brutalidade que constroem o gênio, na mensagem desse filme. E muita gente aplaude de pé essa ideia.

Daí semana passada o governador Beto Richa, do PSDB, roubou aposentadorias e quando os professores foram protestar receberam tiros, bombas e pancadas.

O PSDB acredita que violência e brutalidade constroem o gênio, por isso vão deixando as coisas cada vez mais insustentáveis pra educação pública.

Violência e brutalidade é a base da fé da "elite" batedora de panelas, que veste a camiseta da supercorrupta CBF pra protestar contra a corrupção.

Nessa lógica, os proprietários de carros blindados, as madames, os empresários, os autoproclamados cidadãos de bem, acreditam que o que o mundo precisa é de porrada.

Pobre passa fome e tem que passar mais fome ainda. Desemprego precisa subir. Tem que acabar com ensino e saúde pública. Tudo o que puder ser transformado em negócio rentável, precisa ser transformado em negócio rentável. O Estado serve apenas pra legislar e garantir os direitos dos grandes empresários, que afinal pagaram bem pra colocar os nobres deputados e senadores lá.

Gente que acredita que pessoas com empregos instáveis e sem garantias "se dedicam mais ao trabalho".

O professor do Whiplash tinha ótimas intenções, mas transformou a vida de seus alunos em um inferno e levou pelo menos um ao suicídio. A galera da camiseta da CBF, os batedores de panelas, o pessoal do PSDB, os grandes empresários, todos eles têm ótimas intenções e também transformam em um inferno a vida de todo ser pensante na face da terra.

O que fazer com os adeptos da pedagogia da violência?

sábado, maio 02, 2015

Primeiro de Maio

Dia do trabalho.

Essa semana foi amarga. O governador Beto Richa, do PSDB, violentou milhares de professoras e professores. Além de terem o dinheiro de suas aposentadorias confiscado, foram atacados fisicamente por uma polícia armada com escudos, bombas e balas de borracha. Uma demonstração clara de força e do quão pouco significa o nosso trabalho.

Por que escolher a carreira de professor, se a cada ano as condições de lecionar, salários, aposentadorias, benefícios, são cada vez mais desfavorecidas? Por que escolher a carreira de professor se uma mídia cria a imagem de que lecionar é para santos abnegados que só devem ganhar o mínimo pra sua subsistência? Por que escolher lecionar se isso é entendido como adestrar pessoas a cumprirem ordens sem questionar? Por que escolher lecionar se o propósito da educação é preparar um bando de desgraçados para servir a um "mercado de trabalho" consolidado na exploração e na desigualdade?

Acho que temos que mudar muito o que se pensa sobre educação e trabalho.

Trabalho não é só servir ao empresário e ao mercado. Trabalho é a atividade na qual nos construímos como seres humanos. Trabalho é algo que fazemos para nós mesmos e para a sociedade. Enquanto trabalhadores, merecemos respeito.

Educação envolve pensamento crítico e senso de coletividade. É preciso entender que somos uma sociedade e não seremos bem-sucedidos enquanto poucos colhem benefícios em cima da exploração de muitos.

Educação é tomar uma posição. Vamos incentivar o individualismo e a competição desmedida ou vamos incentivar a solidariedade e o pensamento coletivo?

Sou professor porque o contato com alunos e alunas, a prática diária, as discussões, me alimentam. Eu me realizo profundamente com a atividade acadêmica. Mas isso não significa que eu tope fazer isso de graça, que eu não queira um bom salário, uma boa casa e uma vida estável. Assim como você ou qualquer outra pessoa.

As discussões políticas em nosso país são carregadas de um moralismo descerebrado. Com apoio de uma mídia parcial, demoniza-se o PT e se faz vistas grossas à política criminosa de PMDB e PSDB. Ignora-se o interesse dos grandes empresários por trás das decisões danosas para a sociedade.

Na construção de um perfeito mundo liberal, a educação tem que ser para poucos, para a elite. Pessoas com menos educação são mais obedientes, disse o Beto Richa.

Educação nunca foi prioridade porque boa educação ensina a pensar. É bem provável que acabem com as universidades e o ensino público no país a médio prazo. Que acabem com direitos trabalhistas e defendam uma filosofia meritocrática de "perdedores" e "vencedores" pra justificar toda a desigualdade e miséria.

Só que o mundo não precisa ser assim.

E se queremos mudar, podemos começar simplesmente não esquecendo e não deixando esquecer de quem vota pra tirar direitos de trabalhador. Podemos começar nunca mais votando nesse sorridente Beto Richa.

Podemos começar assumindo uma posição e lutando por ela. E entendendo que não se trata do "eu" e sim do "nós".

sexta-feira, maio 01, 2015

Quarenta e um

Eu nasci no primeiro de maio.

Nunca encarei a vida como uma série de lutas e conquistas. Sempre me pareceu mais com um passeio pontuado por acidentes. Ou um acidente pontuado por passeios. Um grande acidente. Como as cores de aquarela que fluem e se misturam ou uma queda. Uma longa queda. Tão longa que parece um voo.

Deus do Céu.

A gente passa a vida tentando criar um sentido. Pra uns parece mais fácil. Não sei se essas pessoas são geniais ou obtusas. Sei que me sinto parado, no meio de um lugar qualquer, olhando em volta, sem saber pra onde ir. Mentira. Antes foi assim. Daí simplesmente comecei a caminhar. Escolhi uma direção e vou pra lá. Vou pra lá mas posso mudar de ideia. Mas acho difícil. Pra lá.

Já imaginou fazer um autorretrato sem espelho ou fotografia? Já imaginou como você se desenharia se jamais tivesse se visto? Será que tenho mesmo ideia do que está acontecendo?

Uma cicatriz, uma injúria, um ferimento impossível de dimensionar. E ainda assim eu tento. E se não houver ferimento algum? E se o estrago for maior do que posso perceber? Só dá pra confiar na minha cabeça. Só dá pra dar um voto de confiança na minha cabeça. Que eu saiba compreender o que está lá fora e o que devo fazer ou não fazer. Que eu saiba que o erro é inalcançável. Ou o acerto é inevitável.

My mind is a cage 
That keeps me from dancing with the ones i love

Quarenta e um é um número primo.

Será que ele é especial por causa disso?

Qual tamanho do estrago que uma histórinha pode fazer?

Estrago pode ser sinônimo de mudança?