segunda-feira, junho 29, 2015

Cecília em cena

Nessa quarta-feira dia 01 de julho o projeto Cena HQ, de José Aguiar, Paulo Biscaia e grande elenco, traz para os palcos a leitura dramática da minha história em quadrinhos As coisas que Cecília fez.

Fiquei muito feliz com isso e estou disponibilizando o gibi para leitura online, para as pessoas que não tiveram acesso poderem conferir.

ATENÇÃO: Essa história em quadrinhos apresenta representações de SEXO, palavrões e uso de drogas e pode ferir sensibilidades. Não recomendo para menores de 12 anos.



As edições impressas de As coisas que Cecília fez foram praticamente todas vendidas. Há ainda alguns exemplares remanescentes na Itiban Comics Shop

Ainda tem o site Mais Gibis, onde você pode comprar uma versão digital de Cecília. Lá também você encontra muitos outros quadrinhos legais feitos por quadrinistas nacionais. Vale a pena conferir.

E, quem puder, aparecça!
Quarta-feira, 01 de julho, a partir das 19h a bilheteria do Teatro da Caixa abre. A entrada é franca.

:-)


Escute

Amigo, não existem feminazis.
Se a menina tá te dando uma bronca, você provavelmente fez merda.
Em vez de tentar puxar os vinte mil fatos indiscutíveis que comprovam que você, floquinho de neve único e especial, está certo como sempre, experimente escutar a menina. Experimente ouvir e tentar entender de verdade o que ela está te dizendo. Tente enxergar o mundo pelos olhos dela um pouquinho só. Apenas escute. Pense.
Dói perceber as próprias falhas. Dói perceber que certas coisas que tínhamos como brincadeiras inocentes, piadas saudáveis, na verdade eram troças cruéis em cima de quem não tem como se defender.
Machuca o orgulho perceber que a gente não é tão legal quanto pensa que é. Mas se for pra sentir orgulho por alguma coisa, que seja orgulho de se tornar uma pessoa melhor.
O orgulho de defender uma posição que oprime, ridiculariza e inferioriza é um orgulho indigno. É orgulho de ser estúpido e cruel. E você não é estúpido e cruel.
Pelo menos, eu espero que não.

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(Esse foi um post que eu achei muito doido. Apareceram muitos amigos que se proclamavam "neutros" e "equilibrados" e que tentavam provar que existem feminazis, que existem "pessoas podres que se escondem no feminismo", que "há mais pontos de de vista no mundo do que a simplicidade dos binários"... Dentro disso, diziam que não estavam ali pra deslegitimar os feminismos, apenas para evidenciar que existem "extremistas" dentro dele que não são diferentes de terroristas islâmicos. A comparação de feministas com terroristas islâmicos aconteceu. Veja, eu sou homem, não posso ser feminista. Feminismo é um movimento complexo, mas deve sempre ser protagonizado por mulheres e apenas por elas. Mas, como homem, eu fico meio de cara com a falta de percepção das pessoas "neutras". Como alguém consegue acreditar em neutralidade, gente? Você entra numa discussão polarizada e começa a dizer coisas que deslegitimam as reivindicações de um dos lados, relativizam, minimizam, tentam silenciar e diminuir um dos discurso e vem se proclamar neutro? Sério?)

Just do it

É interessante.
Colocar cores numa foto de perfil não vai mudar o mundo, mas vai mobilizar algumas pessoas a se manifestarem para criticar essas cores porque algo as incomoda. E elas vão trazer mil argumentos pra explicar e justificar suas críticas e vão insistentemente defender sua posição.
Um texto ou uma piada não tem nada demais, dizem. Também não vão mudar o mundo. Mas quando você escreve algo criticando um texto ou piada dito por um homem branco hetero, lá vem uma galera falar que não é bem assim, que não pode hostilizar, que não pode incentivar a luta de classes, vamos ser todos amigos e deixar tudo como está.
Mude as cores. Critique duramente quem propagar ideias opressoras.
Se um homem aparecer dizendo que você está errado ou errada, te chamando de radical e defendendo o indefensável, saiba que você está mudando o Mundo sim.

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(Sobre os posts criticando as pessoas que colocaram cores do arco-íris em seus perfis celebrando o casamento gay nos EUA.)

Mais empatia

Eu sou branco, hetero e homem. O meu primeiro contato com feministas se deu em um grupo de estudos dentro da universidade anos atrás. Elas me espinafraram. E eu mereci.
Foi assim: a conversa era sobre tarefas domésticas, que sempre eram feitas pelas mulheres dentro da estrutura tradicional da família. As mulheres faziam a comida, as mulheres lavavam a louça. Daí, o Liberzinho aqui levantou a mão pra "contribuir" e falou: "eu moro sozinho e lavo minha própria louça" e a resposta delas "ah, mas se você morasse com uma mulher, ela é que ia lavar?" (a escrita não corresponde à entonação de bronca da voz). E seguiram outros comentários e a única coisa que eu conseguia pensar era "mas não foi isso que eu disse, tou sendo acusado de ser machista e eu não sou" e lógico que fiquei boladinho porque eu tava levando bronca por uma coisa que eu não tinha dito.
Só que daí eu comecei a pensar melhor no que tinha acontecido. Ao invés de tentar me justificar, comecei a pensar "peraí, porque elas tavam tão brabas com o que eu disse?". E comecei a entender que o que eu falei corroborava sim uma cultura machista. Porque quando eu morava em casa, quem lavava a louça era minha mãe. Minha irmã, desde criança, sempre questionou isso. Por que só mulher lava a louça? Ah, e eu, homem, vou e falo: eu moro sozinho e lavo a louça e dentro daquele contexto, sim, eu podia perfeitamente ser entendido como "se eu tivesse uma mulher, ela lavaria minha louça". Essa era a percepção das feministas. E elas estavam certas. Não que eu ia por a "minha" mulher pra lavar louça, mas eu nunca mais, depois daquela bronca, me senti em paz pra deixar uma amiga ou mãe ou irmã sozinha pra lavar a louça.
Aquela bronca doeu e mudou a minha percepção.
E aquela bronca não foi a única que eu levei. Já levei VÁRIAS broncas que me mostraram que eu era machista, que eu era homofóbico. E cada uma delas me fez repensar minha atitude. Porque EU, o homem machista e homofóbico, aceitei ser questionado, aceitei escutar. E ainda vou levar muitas broncas, porque eu sou fruto de uma cultura que desumaniza mulheres, negros e gays e coloca o homem branco hetero como centro do universo. E é assim, véi. Eu ainda falo muita merda e não percebo. E tem as minas que me dão os toques.
E dói, velho. Dói perceber que a gente tá errado. Mas depois a gente aprende a abrir mão do ego, da vaidade e entender que tamos todos no mesmo barco. A gente aprende a ouvir a pessoa que tá nos criticando e entender porque ela tá criticando. A gente aprende a pensar sobre o que estamos dizendo e o que estamos defendendo.
Daí esses tempos circulou um vídeo de um cara que me parece ser gente boa e bem razoável, falando sobre o efeito mola, dizendo que era compreensível a expansão das minorias que sempre tinham sido "comprimidas", que o opressor muitas vezes não sabia que era opressor, que o garoto branco não tem desenvolvida uma carapaça pra aguentar agressões como o garoto negro, que por isso o garoto branco sofre bastante e que é preciso ter empatia para com esses garotos brancos racistas e tratá-los com mais gentileza. No vídeo, o sujeito apresenta bons argumentos, é articulado e me pareceu bem convincente.
MAS, daí, fiquei pensando...
É um vídeo em que um homem branco e hetero pede para as pessoas terem empatia pelos homens brancos e heteros quando eles cometem atos racistas, machistas e homofóbicos. Caralho, velho, porque esse homem, ao invés de se dirigir às pessoas e pedir empatia para os homens brancos que falam merda, não fez um vídeo pedindo para os homens entenderem que quando levam bronca, é porque estão falando merda?
Por que esse homem branco hetero não se dirigiu aos seus vários seguidores e sugeriu "tenham vocês, brancos heteros, empatia pela pessoa que está te espinafrando, porque ela está fazendo isso porque você provavelmente está sendo escroto"?
Gente escrota, tipo os caras do MRG. Pra que eu vou querer exercer empatia com um imbecil que fala publicamente em tom debochado que mulher amamentando "não sai do meu sonar"?
E o mais engraçado é que aparecem pessoas pra defender esse filho de um cancro sifilítico. "Veja bem, é só a opinião dele, nem é pra tanto". Velho, esse cretino tá errado. E eu não tou dando uma surra nele e deixando ele pelado amarrado num poste. Eu tou chamando ele de cretino porque ele é um cretino. Porque ele sabe que fala merda, tem orgulho de falar merda, se acha um floquinho de neve especial por falar merda. Não importa o quão didático você seja, ele não vai te ouvir porque ele é homem e tem toda uma cultura que diz que ele sempre está certo.
Pra que tentar criar empatia com as mulheres, né?
Daí eu fiz aquele post dizendo que feminazi não existia e que os homens deviam ouvir as mulheres.
VÉI... apareceu um monte de gente empenhada em PROVAR que existe feminazi. Em provar que tem "gente podre" no feminismo. E diziam "não tou querendo deslegitimar as feministas, mas tem muita feminista que é podre". Véi... de boas véi, vai toma no cu.
Porque os putos vem pedir empatia e são incapazes, INCAPAZES, de exercer essa mesma empatia. De levar uma bronca e pensar "pou, será que eu tou errado"? É lógico que não. Homem branco hetero nunca tá errado. Homem branco hetero é gente boa, não é machista, não é homofóbico, os outros é que não entendem ele.
Então, mano, entenda, quando tu vem falar de "discurso de ódio" contra os homens, entenda que ninguém tá fazendo discurso de ódio. Essas mulheres, negros e gays estão manifestando uma indignação legítima. Ninguém está fazendo com esses homens nem metade do que eles fazem (e são coniventes com os que fazem).
Irmão, por favor, não leva a mal, mas quando tu chega pra essas pessoas, essas mulheres que ouvem piadinhas de estupro nas rodas dos amigos do namorado, essas mulheres que não pode****m andar uma quadra sem ter um homem completamente estranho tentando assediar ela porque a enxerga como um objeto sexual, essas mulheres que não podem amamentar em público pra não constranger os jovens do MRG... quanto tu chega pra essas mulheres e vem falar pra elas terem "empatia", tu não tá ainda em sintonia com o rolê, irmão.
Ser homem, hetero, branco não é errado. Errado é distorcer o conceito de empatia. Errado é querer equiparar a violência exercida contra os oprimidos às ofensas e críticas severas feitas contra os opressores. Mandar o bostinha machista à merda e ferir os "sentimentos" dele não é a mesma coisa que apedrejar uma menina que sai do culto do candomblé.
Então, por favor, não peça empatia por esses caras. Véi, de boas, você não tem noção de como isso soa mal.

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(Originalmente, todo esse texto foi escrito em um comentário de facebook em resposta a um amigo. Considerando que escrever esse palavrório me tomou um tempo considerável, pensei em copiar, colar e editar como um post público. A resposta das pessoas me surpreendeu um bocado. Diversos compartilhamentos e curtidas e tals. Mas o mais interessante é que pelo teor dos comentários a atitude de ouvir uma mulher (ou negro ou gay ou qualquer outra minoria) e realmente refletir sobre o que ela nos diz e sobre o que nós fazemos e pensamos... essa atitude parece ser realmente revolucionária.)

segunda-feira, junho 22, 2015

Memória

Estou fazendo uma história em quadrinhos.

Pessoas inventadas, situações inventadas. Mas as frases, os rostos, os lugares, são verdadeiros. É estranho isso. É tudo mentira, é tudo verdade.

Ao mesmo tempo.

Como uma lembrança.

Como uma vida que tive, que parece tão distante que nem sei mais se foi real.

Estou aqui, nesse lugar barulhento, pessoas gritando violências e batendo nas grades. Mas não preciso ficar aqui.

Essa é a parte assustadora.

Não preciso ficar aqui.


terça-feira, junho 02, 2015

Empatia

Ultimamente muita gente tem me chamado a atenção, dizendo que eu preciso ser mais empático. Entender as pessoas. Saber que elas estão sofrendo.
Onde querem que eu exercite minha empatia? Eis os exemplos:
  • Ontem escutei um homem branco dizer que não existe racismo no Brasil, a polícia não discrimina marginais por causa da cor da pele e o fato de existirem poucos negros nas universidades é por causa do mero acaso ou da falta de esforço por parte deles, por isso as cotas são uma extrema injustiça para com os brancos. Não existem brancos, negros e pardos no Brasil, somos todos apenas brasileiros, todos iguais, e falar de racismo é destilar ódio.
  • Pessoas se sentem incomodadas com a propaganda do Boticário porque ela ameaça a "família tradicional" brasileira. Essas pessoas não podem ser chamadas de homofóbicas só porque não querem ver representações dignas de relacionamentos homo-afetivos estáveis na mídia. Elas apenas não gostam de ver pessoas do mesmo sexo vivendo como casais e precisam ser respeitadas por isso. Chamá-las de homofóbicas é preconceito com elas e seu modo de ver o mundo.
  • Homens estão sendo injustiçados pelas feministas. Elas confundem elogios com ofensas. Elas vem dizer que um homem de 30 anos não pode namorar uma menina de 14, porque isso constitui um relacionamento abusivo. Vem meter o bedelho na vida íntima do casal, qualquer casal. Os homens sempre cuidaram bem de suas mulheres e é muito ofensivo e doloroso pra eles terem seu papel de macho questionado. Quem nunca deu uns tapas na companheira num momento de destempero? E quem sabe dizer se ela não merecia?

Daí me dizem pra eu exercitar a empatia com essas pessoas. É pra eu entender que o branco-cis-heterossexual-cristão está sofrendo muito por causa desses rebuliços de gente que vem falar em feminismo, racismo, homofobia. É preciso ter empatia e entender que essas pessoas estão sofrendo com a pesada ditadura do politicamente correto.
E daí parei pra pensar um pouco.
Definitivamente essas pessoas estão sofrendo com tudo isso, com esse questionamento, com essa afronta a tudo que elas sempre consideraram como "natural".
Nunca tinha pensado que essas pessoas sofrem ao se perceberem impotentes diante de uma mudança de comportamento irrefreável.
Esses pobres e impotentes reacionários em vias de extinção.
Eles estão sofrendo.
Que puxa.