domingo, julho 05, 2015

Sobre simplesmente ser (mais ou menos)

Existe diferença entre "Ser quem se quer ser" e "querer ser quem se é"?

No primeiro caso me parece que o querer determina o ser. Tipo, a gente imagina quem quer ser, a gente tem na cabeça direitinho que tipo de pessoa que a gente quer ser e a gente vai lá e se torna essa pessoa. Fácil.

Daí eu lembro de um desenho animado, um dos primeiros que eu assisti na vida, que mostrava um dragãozinho que queria ser bombeiro quando crescesse. Um dragão que cospe fogo queria apagar incêndios. Eu não tinha nem cinco anos ainda e acho que, por causa daquele desenho, bombeiro foi uma das primeiras coisas que imaginei ser quando virasse adulto.

"Ser quem se quer ser".

A gente é adulto e escolhe quem quer ser.

Mais ou menos. Querer ser um escritor brilhante, um jogador de basquete extraordinário, um astro da música mais popular do que os Beatles. "Ser quem se quer ser" é um bocadinho mais complicado e trabalhoso do que a gente gostaria. E pode não rolar.

E tem mais uma coisinha ainda. A gente vai vivendo e a vida vai acontecendo. A gente vai perdendo pedaços. Vai ganhando marcas, cicatrizes. A gente diz coisas que gostaria de jamais ter pensado e não podem ser desditas. A gente machuca pessoas que amamos e não tem como voltar atrás. A gente despedaça e é despedaçado.

Daí se olha no espelho e vê um pedaço de carne cheio de histórias, cheio de desejos, esperanças, frustrações. A parte "ruim" faz parte da gente também. E, por parte "ruim", entenda tudo aquilo que a gente não gosta em nós mesmos. As nossas decisões erradas, os fracassos, as perdas, as mágoas. Deixar pra trás quem a gente ama, ser deixado pra trás por quem a gente ama. Aquelas coisas doloridas que nos perturbam e assombram e fazem de nós um bocadinho de quem nós somos.

"Querer ser quem se é".

Porque as coisas ruins, as coisas que a gente não pediu, fazem parte do pacote. Mesmo que a gente não fotografe e não escreva sobre elas no facebook, elas fazem parte do pacote. Compulsoriamente. Todas aquelas marcas em nosso casco. Todas as nossas enervantes limitações. Mesmo as bobas. Podia não ter essa barriguinha. Podia ser uns 20 centímetros mais alto. Ou mais baixo. Podia não envelhecer, não perder amizades, podia ter tido uma família.

"Ser quem se quer ser" e "querer ser quem se é" são coisas diferentes, mas não excludentes. Acho que dá pra fazer os dois ao mesmo tempo.

Admitir para nós mesmos que acontecem coisas que não gostamos, assumir que existem coisas que fizemos e não deveríamos ter feito ou que não fizemos e deveríamos ter feito. Aceitar que tem momentos que se perdem para sempre. Assumir que não temos controle de tudo, mas que podemos escolher ter uma posição diante da vida e fazer o melhor possível pra se manter fiel a ela.

E, eu acho, pelo menos pra mim, acima de tudo, ter noção de que "ser" não é uma questão apenas individual. Nós fazemos parte de uma coletividade. Quem somos e decidimos ser faz parte dessa coletividade.

E é isso.

Mais ou menos.

sexta-feira, julho 03, 2015

Uma noite de arco-íris

Dia 01 de Julho de 2015 o projeto Cena HQ, capitaneado por José AguiarPaulo Biscaia Filho eMarco Novack, levou a minha história em quadrinhos "As coisas que Cecília fez" para o palco. 

A fadinha Angela Stadler fez uma transposição MARAVILHOSA com o acréscimo de uma série de detalhes delicados e brilhantes que deram vida própria à apresentação. Foi incrível já o começo da peça, quando o Diego Perin entra no palco tentando arrumar uma fita k-7. Aliás, esse sujeito fez toda a trilha sonora da peça com fitas k-7. Acertou em cheio e matou as saudades das mixtapes dos anos 90. O Luiz Bertazzo fez um narrador muito bacana. Aliás, foi mais do que bacana. Quando você escreve um texto de quadrinhos, muito da "entonação" com que essa voz vai ser "ouvida" na cabeça do leitor é insinuada pelo texto, pela tipografia, itálicos, negritos, desenho do balão, expressão do personagem. Mas tudo isso só insinua e quem faz o trabalho todo sempre é o leitor. Ali no palco, o Luiz deu cara pro narrador, deu voz, estilo. E daí outra coisa bacana dessa mágica: o Luiz não foi a única voz do narrador e muitas vezes personagens, principalmente a Cecília, diziam frases chave que eu tinha inicialmente imaginado apenas na voz do narrador e essas frases ganhavam toda uma força diferente. Aliás, esse entrosamento do pessoal no palco, essa troca de personagens que acontecia na frente da gente era incrível. Tirando um casaco, Cecília viajava 15 anos para o passado. Colocando um óculos, Pedrinho se transformava em Letícia. E essa Cecília? Isadora Terra, eu tinha vontade de te abraçar e apertar! Cacilda, que coisa doida é você inventar uma pessoa e de repente ver ela na sua frente. Que louco meu... E a Vida Santos... olha só, quando desenhou "Os Supremos", Brian Hitch fez o Nick Fury com a cara de um ator que, vejam só, acabou interpretando e se consagrando como Nick Fury nos filmes da Marvel. Quando desenhei a Letícia, eu buscava um rosto, especialmente uns olhos que fossem fortes, alegres, vivos. Daí me inspirei nessa moça e, olha só, um par de anos depois ela fez a Letícia nos palcos. Posso dizer que a Vida é o Samuel L. Jackson do meu pequeno universo de quadrinhos. Emoticon smile

Teatro é uma coisa única, é uma coisa de momento. Eu filmei, registrei, mas não é a mesma coisa. Lembrar não é a mesma coisa. Acho que teatro tem um bocado dessa coisa da vida, do momento, do agora. Acho que a gente precisa às vezes lembrar disso. Estamos aqui agora e esse momento vai passar. Vamos aproveitá-lo. E eu aproveitei. E nunca vou agradecer o suficiente a essas pessoas, por estarem lá, por colocarem todo esse carinho e darem vida e novos significados ao gibi que eu fiz. E também agradecer ao carinho das pessoas queridas que estavam lá: Tex, Piuí, Rodrigo GraçaRosemeire Odahara GraçaMatias PeruyeraCamille Bolson,Fernanda BaukatChris Spode (que bateu essa linda foto), Taissa BrevilheriSer Cabral, Tati, Luiz Jyudah SilvaCarol SakuraRodrigo StulzerIvan Sória FernandezEmerson Nery , Giulian de Castro e todos os presentes. Casa cheia, foi lindo de ver.

Apresentação única. Como a vida.
Emoticon smile







(Isso sem contar que, pou, aquelas pessoas estavam trabalhando com um texto meu. Tratando com o maior carinho o material que escrevi. Abrindo um espaço pra confessar uma coisa bem pessoal: eu acho que sempre quis que meus textos fossem lidos. Acho que eu sempre curti a figura do Neil Gaiman não só por ele ter escrito a série de quadrinhos que mais me marcou na vida, mas por ele meio que ser aquilo que eu sonharia ser. Sabe, escrever coisas e as pessoas curtirem, terem interesse? Tem um bocado de orgulho e vaidade nisso, sabe. Talvez seja por isso que eu nunca tenha tentado antes. Acho que passei muito tempo acreditando que isso não era pra mim, que eu jamais mereceria estar ali. Mas de repente a gente faz 40 anos. 41. E começa a pensar que ainda há tempo de fazer alguma coisa. Porque não é só o lance de ser lido, de como as pessoas vão te receber. Isso é muito importante, é muito gostoso, é um alimento pra alma. Mas não é só isso. Tem o lance do escrever. Do inventar uma pessoa. De usar memória, imaginação e um monte de emoções. De jogar ali um monte de coisas minhas, de me expor, de ser honesto, de fazer com carinho uma história que eu gostaria de ler, antes de qualquer coisa. E, se mais alguém gostar, é bônus. E sempre tem alguém que gosta. Muito obrigado a todos e todas vocês.)