sexta-feira, dezembro 30, 2016

2016

2016 foi um ano pesado.

Ou talvez seja só uma questão de percepção.

Eu estou bem.

Emocionalmente, espiritualmente, financeiramente, individualmente, eu estou bem. Por enquanto.

Faz parte do quadro de bem-estar pessoal essa consciência, essa percepção clara de que o bem-estar individual, a tal ~felicidade~, precisa, em alguma medida, se ancorar na alienação, no isolamento dentro do apartamento, do condomínio, da "bolha" de redes sociais e Netflix.

A sabedoria clichê, tomada de velhas tradições filosóficas, espirituais e esotéricas e transformada em slogan barato de auto-ajuda: a felicidade é coisa de momento. A felicidade de um momento nunca mais se repete. Viva a porra do momento, porque ele passa.

Como alguém vai ser feliz o tempo todo? Como alguém pode se sentir obrigado a ser feliz (ou infeliz) o tempo todo?

Você está feliz num momento, às vezes inesperado. O telefonema da sobrinha de seis anos querendo te contar que viu um livro muito bacana sobre múmias do Egito, a conversa hipnotizante com alguém que de repente aparece na tua vida e te enche os olhos de alegria, o bate-papo inesperado com velhos amigos que te mostram que a vida pode ser bem melhor do que a gente imagina. Essa é a felicidade e ela é boa. E se mantém só na memória.

O que 2016 me deixa é essa noção de que “tudo bem” é só uma expressão, um modo de falar que se refere a uma situação impossível. Porque nunca vai estar “tudo bem”. Nunca esteve “tudo bem”. E isso não é nenhuma novidade, é quase outro clichê.

O Ruas morto a ponta pés no metrô semana passada.

A comunidade de Pinheirinho arrancada de suas casas e jogada na rua em nome da “propriedade privada”, em janeiro de 2012.

Amarildo Dias de Souza em 2013, os professores violentados por Beto Richa em 2015, os negros mortos trivialmente pela polícia de sempre, Mariana, Bagdá, Alepo, o ódio aos refugiados, o vídeo de 30 homens estuprando da moça de 16 anos e todas as demonstrações de aceitação e apoio aos atos criminosos mais bárbaros professados não só nos tais comentários de facebook, mas também no nosso ambiente de trabalho, nas ruas, na mesa da família.

Uma lista infinita de pessoas terrivelmente violentadas, uma lista de coisas ruins que aconteceram, que sempre aconteceram, extrapolando 2016 e os limites de qualquer calendário.

E a grande tragédia é perceber que as coisas podiam ser diferentes.

Dar-se conta de que não há nenhum fator determinante da miséria humana, nem divino, nem científico. Que poderíamos estar melhores sim. Mas não estamos e não vamos ficar.

2017 vai ser como 2016 e 2015 e 2014 e...

Vamos nos isolar nas nossas fantasias, nas nossas religiões e seriados.

Vamos acreditar que “a crise se resolve trabalhando”, sem parar pra pensar no que é esse “trabalho”, no que estamos produzindo, pra quem estamos produzindo, o que estamos fazendo das nossas vidas e da vida dos outros.

Vamos acreditar que “a crise se resolve trabalhando” como se não tivéssemos trabalhado a porra da vida inteira e como se todo o trabalho do mundo tivesse evitado alguma crise.

Vamos seguir com o “cada-um-por-si-e-que-vença-o melhor-e-é-só-se-esforçar-que-você-vencerá-só-depende-de-você” de sempre, sempre repetido e martelado em nossas cabeças em todas as nossas horas de "entretenimento".

Vamos seguir de olhinhos fechados, porque os olhos abertos mostram coisas horríveis demais pra processar, pra pensar.

Ou não.

Vou tentar abrir os olhos.

Vou tentar olhar pra todo esse horror e respirar e tentar entender.

Tentar pensar o trabalho como um processo de transformação em nossas vidas e não como subserviência cega aos interesses particulares de um punhado de pessoas.

Tentar tomar cuidado pra não me tornar tudo aquilo que me assombra.

Tentar aprender a me perceber e perceber aos outros.

Ouvir. Pensar.

De resto, a gente vai levando como sempre: na raça e no improviso.

Feliz 2017, vulgo “2016 parte II: quando as coisas ficam feias mesmo”.

Boa sorte.