quinta-feira, janeiro 19, 2017

oração

por pior que seja a poesia
por mais constrangedores que sejam os versos
dá pra rir das nossas vergonhas
gostar das nossas bondades
e lidar com o inconcebível

domingo, janeiro 01, 2017

2017

"Vem cá, e QUEM É VOCÊ NA FILA DO PÃO, menino?"

"EU SOU
Aquele cara que chegou e pediu um pão na chapa e uma média com leite e sentou ali na mesa do fundo, perto do banheiro. Ele tinha um livro, mas não consegui ler o título. Lombada verde, contracapa verde, capa branca, sem figuras, só tipografia. Mas não consegui ler o título.

Ele abre o livro, procura uma página, começa a ler, para, pega o celular, mexe na tela, desliga, coloca o celular na mesa, pega o livro, abre, procura a página, acha, fecha o livro, pega o celular, confere a tela, põe o celular na mesa, pega o livro, procura página, franze o senho, coça o nariz, começa a ler, chega o café.

Falando assim, parece aula do mestre Miyagi, mas, na verdade é muito. Mais. Desintereressante.

Então, esse cara sentado sozinho ali na mesa do fundo e agora ele dá uma mordida no pão e mastiga BEM devagar olhando pro... pra onde que ele está olhando desse jeito? Pros guardanapos? Cara, o que esse cara tá pensando? Ele tá pensando? Que será que ele faz? É engenheiro? Parece engenheiro. Óculos, livro, cara de autista. Ou será de humanas? Ui.

Ele não se mexe. Morde e mastiga o pão venerando os guardanapos.  Parece uma vaca. Não. Uma vaca não. Parece um hamster. Grande, de óculos e extremamente desidratado. E em câmera lenta. Algo entre o roedor e o ruminante e, mais do que nunca, desinteressante.

Ah.

Acontece com você de estar falando ou fazendo algo e de repente começar a pensar UAU, isso daria um bom post! Como dá pra editar? Será que vai ter muitos likes? Acontece com você? Você pensa essas coisas?"


"Hmnão.
Não, não penso."


"Nunca?"

"Não."

"Enfim.
Esse cara, sentado ali na mesa do fundo, mascando pão, agora adoçando o café com leite como se não houvesse amanhã, lembrou que o livro existe e começou a lê-lo.
Está ali lendo.
Lendo."

"..."

"Ainda lendo.
Gole de café.
Deus, como pode? Tanto açúcar... e parece que ele gosta. Credo.

Ainda lendo.

Confesso que ele parecia mais interessante namorando os guardanapos.

Ele tira uma lapiseira do bolso. Está grifando um trecho do livro, parece. Está escrevendo coisas nas margens.

Será que ele é estudante? Mas é velho demais. Será professor? Ou talvez seja desses novos escritores e está ali pensando no seu novo livro. Pesquisando. Será que escreve literatura fantástica? Ou será que ele é crítico literário? Escrevendo a crítica pro jornal. Filho da puta, ganhando a vida falando mal de quem escreve melhor do que ele.
Opa, levantou, levantou.
 Fechou o livro, guardou o celular, foi que ia mas meio que voltou, olhou por baixo da mesa, checou as cadeiras em volta, parece que pra ver se não ficou nada pra trás, sei lá.  Carinha esquisito. Caminha engraçado. Chega na fila do pão, logo atrás da menina Audrey. Olha pra tudo em volta com aquela cara estúpida de quem parece que perdeu a merenda. Chega a vez no caixa, paga o pão e a média no débito, por favor, e sai da padoca, subindo a Sete de Setembro por ali.

Por ali.

Você está me acompanhando, Audrey?"

"Não. Nem de perto."

"Esse cara sou eu, Audrey. Essa é a minha voz. Isso é o que eu faço."

"Hm. Óquei.

Mas, escuta...
Se você fosse mesmo escrever sobre isso, ia conseguir lembrar dessa viagem toda?"

"Como se estivesse acontecendo agora".